Há 50 anos: Militares derrubam governo e tomam o poder na Argentina

Por Alberto Nogueira

Os argentinos viveram a mais sanguinária de todas as ditaduras da América do Sul. No período de 1976 a 1983, cerca de 30 mil civis foram assassinados, de acordo com estimativas de ONGs do país e outros organismos internacionais de defesa dos direitos humanos –militares dizem ter matado 5.000. Este período é menor do que o vivido pelo Brasil (1964-1985), mas a Argentina, de 1930 a 1973, sofreu outros cinco golpes de Estado (1930-1943; 1943-1946; 1955-1958; 1962-1963; 1966-1973), com pequenos intervalos de democracia entre eles.

Em 28 de junho de 1966, há exatos 50 anos –data do quinto golpe–, a Folha traz na Primeira Página a seguinte manchete: “Exército rebela-se na Argentina”. Era um anúncio do que estava para acontecer.

O jornal noticia que o então presidente Arturo Illia (1963-1966), considerado um governante honesto, porém com baixo respaldo popular, assumira o comando supremo do Exército após depor o tenente-general Pascual Pistarini, que horas antes havia se rebelado contra o governo. No entanto, mesmo com essa manobra, integrantes da equipe de Illia admitem que uma intervenção militar era iminente.

E é o que acontece. Sob o comando do tenente-general da reserva Juan Carlos Onganía, o Exército invade a Casa Rosada e destitui Illia, que diz se recusar a renunciar: “Viva a pátria!” e “Morram os maus militares”. Logo que toma o poder, o general dissolve o Congresso e os partidos políticos e depõe governadores e juízes.

 

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Manchete da Folha de 29 de junho de 1966 informa sobre o golpe militar na Argentina (Crédito: Folhapress)

 

A autointitulada “Revolução Argentina” tem três lideranças até o seu final, em 1973. A primeira (1966-1970), do general Juan Carlos Onganía, é marcada pela censura. A segunda (1970-1971), de Roberto Marcelo Levingston, é destituída após uma tímida abertura política. E a terceira, do também militar Alejandro Agustín Lanusse, fracassa ao tentar se reaproximar do ex-presidente Juan Domingo Perón -exilado em Madri (Espanha)-, mas é responsável por convocar as eleições que marcam o final deste regime autoritário.

No acordo que sela o novo pleito, os militares promovem mudanças na regras eleitorais para que seja proibida a candidatura de Perón. Com isso, Héctor Cámpora se candidata e, com o lema “Cámpora no governo. Perón no Poder”, torna-se presidente. Logo que assume, renuncia e convoca novas eleições, e com isso abre a possibilidade do retorno de Perón à Argentina, em 20 de junho, e sua candidatura.

Eleito, Juan Domingo Perón, vestindo uniforme social de tenente-general do Exército, como descreve Francisco Barreira, correspondente da Folha em Buenos Aires, aparece na sacada principal da Casa Rosada, em 12 de outubro de 1973, ao lado de sua esposa e vice-presidente da República, Isabelita Péron, para ser saudado por milhares de argentinos que lotavam a Praça de Maio.

Juan Domingo Perón e Isabelita Perón saúdam a população argentina na sacada da Casa Rosada, no dia da posse
Juan Domingo Perón e Isabelita Perón saúdam a população argentina na sacada da Casa Rosada, no dia da posse (Crédito: 12.out.1973/Associated Press)

 

Inicia-se um novo, porém curto, período democrático. Perón, que já ocupara a Presidência em outras duas oportunidades (1946-1952 e 1952-1955) e havia vivido no exílio de 1955 a 1973 -após ter sido deposto por militares-, morre em 1º de julho de 1974. Sua esposa, Isabelita Perón, assume em seu lugar, mas novo golpe militar a retira do poder em 24 de março de 1976.