Atentados e morte de brasileiro chocam o mundo

Por Alberto Nogueira

Julho traz lembranças dolorosas aos ingleses e, em especial, a uma família brasileira. Nesse mês, no ano de 2005, mais precisamente no dia 7, o grupo terrorista Al Qaeda protagonizou cenas de terror ao explodir bombas em três estações de metrô e em um ônibus em Londres. O ataque provocou a morte de 52 pessoas e feriu outras 784.

No dia 22 daquele mesmo mês, a Scotland Yard –polícia metropolitana de Londres– provocou grande tumulto na estação Stockwell do metrô, quando, de acordo com ela, tentava capturar um dos suspeitos dos atentados, que acabou morto dentro de um vagão, com sete tiros na cabeça. A ação, no entanto, tirou a vida do inocente Jean Charles de Menezes, 27, que apenas se dirigia ao seu trabalho.

A ação desastrosa teve grande repercussão, e a polícia assumiu o erro. Porém justificou sua atitude ao dizer que o brasileiro havia se negado a parar, pulado a catraca da estação e fugido em direção ao trem. Também disseram que ele vestia uma grande jaqueta de inverno, o que levou eles a imaginarem o porte de explosivos.

 

Manchete da Folha de 8 de julho de 2005 informa que naquele momento o atentato de Londres tinha matado 37 pessoas; depois, o total de mortos chegou a 52 pessoas
Manchete da Folha de 8 de julho de 2005 informa que naquele momento o atentato de Londres tinha matado 37 pessoas; depois, o total de mortos chegou a 52 pessoas (Crédito: Folhapress)

Essa versão foi desmentida em 16 de agosto do mesmo ano, quando o canal britânico ITV divulgou ter documentos da investigação que mostravam que o rapaz não saltou a catraca do metrô nem vestia a tal jaqueta –ele usava uma de jeans. A reportagem ainda afirmou que ele já havia sido contido por um policial antes dos tiros que o mataram.

Na ocasião, a mídia inglesa realizou uma série de reportagens que contradiziam os policiais. Imagens de circuito interno da estação e relatos de testemunhas também corroboravam os erros da ação, que teve início um dia antes da morte de Jean Charles.

Tudo começou com a tentativa frustrada de novos atentados, em 21 de julho -duas semanas após os primeiros ataques-, quando quatro explosões aconteceram, desta vez sem provocar mortes. Na investigação, a polícia encontrou uma pista que poderia levar a um dos terroristas. Começava ali a tragédia vivida pela família do eletricista brasileiro.

Uma bolsa encontrada próxima a um dos locais de explosão tinha dentro dela um endereço que levaria a polícia ao etíope Osman Hussain, um dos suspeitos pelos ataques. Por coincidência, Jean Charles morava naquele mesmo conjunto de prédios.

 

Certificado de reservista de Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa em 22 de julho de 2005
Certificado de reservista de Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa em 22 de julho de 2005

Com isso, uma operação foi montada para capturar o suposto terrorista. No dia seguinte, um agente secreto ficou encarregado de identificar as pessoas que entravam e saiam do local. Era por volta de 9h30 quando o oficial decidiu sair de seu posto e ir urinar atrás de uma árvore próxima. Enquanto se aliviava, acreditou ter visto Hussain sair do prédio. Foi então que, com um celular, fez imagens –ruins– do indivíduo e as enviou para que a central fizesse a identificação. Na verdade, ele fotografara Jean Charles.

Ainda sem uma confirmação, outro policial –este à paisana– seguiu o brasileiro a ponto de embarcar no mesmo ônibus que ele –atitude também considerada errada–, pois a polícia não poderia deixar um suspeito de ter uma bomba embarcar em um transporte público.

Ao chegar à estação de Stockwell, o policial pediu ao comandante permissão para interceptá-lo, mas não obteve uma reposta naquele momento. O eletricista entrou calmamente na estação, pegou um jornal gratuito e seguiu em direção à área de embarque. Ali, outros dois policiais disfarçados o seguiam.

O brasileiro desceu as escadas rolantes e entrou em um dos vagões do trem. Quando a autorização foi dada pelo comando da operação, uma equipe armada e à paisana pulou as catracas e correu até o embarque –sem mesmo anunciar que eram policiais. Ao chegarem no trem, um policial que já se encontrava no vagão disse: “É ele”. Jean Charles tentou se levantar, mas foi jogado ao chão e logo na sequência, já imobilizado, foi alvejado na cabeça por sete tiros disparados pelos agentes.

 

Em 24 de julho, a Folha divulga que o eletricista Jean Charles de Menezes, que morava havia 4 meses em Londres, foi assassinado pela polícia inglesa (Crédito: Folhapress)
Em 24 de julho, a Folha divulga que o eletricista Jean Charles de Menezes, que morava havia 4 meses em Londres, foi assassinado pela polícia inglesa (Crédito: Folhapress)

O verdadeiro suspeito, o etíope Osman Hussaim, chegou a ser preso na Itália, em 29 de julho, data em que a polícia inglesa também prendeu outros dois responsáveis pelos atentados. Neste mesmo dia, o corpo de Jean Charles foi enterrado em Gonzaga (MG), sua cidade natal.

No julgamento, em 2007, a Scotland Yard foi considerada culpada pelos erros na operação e teve que pagar multa de 175 mil libras, mas ninguém foi criminalmente punido, mesmo com a comprovação de que nenhuma ordem de parar havia sido dada ao rapaz.

A família do brasileiro, em sua última tentativa de conseguir punição aos envolvidos, entrou com uma ação na Corte Europeia de Direitos Humanos, mas, em 30 de março de 2016, o tribunal europeu respaldou a decisão das autoridades do Reino Unido de não processar criminalmente os agentes da polícia inglesa que participaram da desastrosa ação.