Há 65 anos, Palmeiras vencia 1º Mundial de clubes

Por Alberto Nogueira

Em 22 de julho de 1951, um pouco mais de um ano após a fatídica perda da Copa do Mundo para o Uruguai, o torcedor brasileiro voltava ao Maracanã, o maior palco da história do futebol, desta vez para sorrir. Mais de 100 mil pessoas lotaram o estádio para ver o Palmeiras conquistar a Copa Rio em cima da italiana Juventus.

Organizado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos), o torneio teve São Paulo (Pacaembu) e Rio (Maracanã) como sedes. Oito clubes disputaram o torneio, que contou com seis campeões nacionais (Nacional, do Uruguai, Juventus, da Itália, Estrela Vermelha, da Iugoslávia, Áustria Viena, da Áustria, Sporting, de Portugal, e Nice, da França), além de Palmeiras, como campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1951, e Vasco, campeão carioca do mesmo ano.

Na fase de classificação, o Palmeiras superou Nice (3 a 0) e Estrela Vermelha (2 a 1) e sofreu uma impactante derrota diante da Juventus (4 a 0). Já na semifinal, disputada em dois jogos, venceu a primeira partida contra o Vasco por 2 a 1 e empatou o duelo de volta em 0 a 0. Na final, enfrentaria novamente os temidos italianos -que bateram o Áustria Viena na outra semifinal-, em duas partidas a serem realizadas no Maracanã.

No primeiro duelo da decisão, a goleada sofrida ante a equipe italiana durante a fase de classificação ainda estava fresca na memória. No entanto, mesmo sabendo da força do adversário, ainda invicto na competição, o alviverde foi imponente do início ao fim do jogo. A partida terminou 1 a 0 para o Palmeiras, com gol de Rodrigues aos 21min do primeiro tempo, mas poderia ter sido bem mais, tamanha a superioridade do time paulista.

“Em nome do futebol brasileiro, o Palmeiras, mercê de inabalável disposição de luta, impediu que se repetisse esta tarde, no Maracanã, o melancólico acontecimento de 16 de julho de 1950. Consciente da responsabilidade que tinha, o quadro esmeraldino, superando a si próprio em momentos que a derrota parecia ameaçá-lo, conseguiu por duas vezes fugir do revés.”

O trecho acima, publicado na Folha da Noite de 23 de julho de 1951, resume o que foi a partida. A Juventus mostrou desde a primeira fase que seria um adversário duríssimo e provou isso logo aos 18min do primeiro tempo, quando Praest abriu o placar. A equipe de Palestra Itália não mostrava o bom futebol do primeiro duelo decisivo e foi para o intervalo em desvantagem no placar.

No segundo tempo, porém, o Palmeiras reagiu, graças à entrada do meia Canhotinho, que substituiu Ponce. O jogador infernizou a defesa italiana e ajudou a dar o ímpeto ofensivo que faltava ao time alviverde. Com isso, logo aos 2min da etapa final, Rodrigues pegou rebote de chute de Liminha na trave e empatou a partida com um sem-pulo.

Quando o Palmeiras se mostrava melhor, um lance de insegurança de seu arqueiro colocou o time novamente atrás na disputa: Fábio não conseguiu segurar o chute de Muccinelli e a bola sobrou para Karl Hansen marcar 2 a 1 para a Juventus.

O atacante Liminha empata a partida (2 a 2). O gol deu ao Palmeiras o título da Taça Rio
O atacante Liminha empata a partida (2 a 2). O gol deu ao Palmeiras o título da Copa Rio

Os palmeirenses não se abateram, e Liminha fez jus ao verso “Linha, atacante de raça” –do hino palestrino–, quando, aos 32min do segundo tempo, driblou o zagueiro Manente e chutou, viu a bola tocar no goleiro Viola e voltar ao seu pé. Não deu outra, o raçudo atacante colocou a redonda no fundo da rede e correu para comemorar.

Com o jogo mais uma vez empatado (2 a 2), o desespero tomou conta dos italianos, que, precisando reverter a derrota na primeira decisão, passaram a agir com violência.

O tempo passou. E, ao apito final do árbitro francês Gabriel Tordjan, o Palmeiras se tornou o primeiro campeão interclubes e fez a torcida, que gritou “Brasil, Brasil Brasil” após o empate, explodir de emoção no Maracanã. Foi o alívio pós trauma e o primeiro grande título em escala mundial do futebol brasileiro –a seleção ganharia sua primeira Copa quase sete anos depois.

palmeiras-x-juventus (1)

No retorno da equipe a São Paulo, milhares de pessoas tomaram as ruas e a estação ferroviária Roosevelt (atual estação Brás) para receber e saudar os campeões da Copa Rio. No desembarque, “aplausos delirantes, música, serpentina e confetes”, assim foi descrita a chegada triunfal do Palmeiras pela Folha da Noite.

Somente em 2014, após muita pesquisa e levantamento de documentos por parte de seus diretores e com a influência do governo federal e da CBF, o Palmeiras conseguiu o reconhecimento desejado por seus mais antigos torcedores: a Fifa, entidade máxima do futebol, certificou a Copa Rio de 1951 como o primeiro Mundial de Clubes da história. Uma admissão tardia, porém justa.

Quadro em homenagem aos campeões mundiais de 1951, exposto na sala de troféus do Palmeiras
Quadro em homenagem aos campeões mundiais de 1951, exposto na sala de troféus do Palmeiras