Seleção joga contra o passado e tenta ouro inédito

Por Alberto Nogueira

A seleção brasileira de futebol inicia na próxima quinta-feira (4), diante da África do Sul, sua caminhada nos Jogos Olímpicos Rio-2016 em busca do único título que ainda não possui: a medalha de ouro.

Para isso se concretizar, o técnico Rogério Micale convocou uma equipe que mescla jovens talentos, como o santista Gabriel e o seu xará palmeirense Jesus -ambos têm 19 anos-, com os experientes Neymar (Barcelona), 24, Renato Augusto (Beijing Guoan), 28, e Fernando Prass (Palmeiras), 38. O goleiro, aliás, se tornará o jogador mais velho a defender a seleção em uma Olimpíada, feito que pertence ao atacante Bebeto, que em Atlanta-1996 tinha 32 anos.

A força do futebol brasileiro, pentacampeão mundial, é reconhecida e respeitada em todos os cantos do planeta. Mas, apesar de ser o país com mais Copas do Mundo, o que explica o fato do Brasil nunca ter conquistado a medalha de ouro olímpica na modalidade?

A reposta não é simples, pois existem muitos fatores, alguns tangíveis, outros não.

O futebol entrou para o programa olímpico em 1908 –em 1900 e 1904, foi disputado apenas como demonstração–, e, desde então, só era permitida a participação de jogadores amadores. O Brasil levou seu primeiro selecionado apenas em 1952, em Helsinque (Finlândia), quando estreou com vitória sobre Holanda, por 5 a 1, mas foi eliminado nas quartas de final pela Alemanha Ocidental, por 4 a 2.

Do período que compreende a estreia da seleção brasileira até o final da década de 1970, o futebol olímpico viveu o auge do “amadorismo”. Amadorismo entre aspas, já que seleções do Leste Europeu levavam seus times principais aos Jogos –elencos que disputavam Copas do Mundo–, pois nesses países quase todos os atletas faziam parte das Forças Armadas. Então, o futebol era visto como uma atividade paralela, o que o descaracterizava como profissão.

Assim como o Brasil, a Alemanha*, outra potência do futebol, vencedora de quatro Copas do Mundo, nunca alcançou o lugar mais alto do pódio na Olimpíada. Aliás, os alemães têm apenas uma medalha olímpica: a de bronze, conquistada em Seul, em 1988. Um desempenho bem inferior ao brasileiro, detentor de três medalhas de prata e duas de bronze na modalidade.

O REI E EL PIBE DE ORO

Vale ressaltar que Pelé e Maradona, considerados os maiores de todos os tempos, nunca disputaram uma Olimpíada, já que a proibição para jogadores profissionais só foi abolida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1984, mas com uma restrição: o atleta não poderia ter disputado uma Copa do Mundo.

Essa limitação durou até os Jogos de Barcelona-1992, quando a regra mudou novamente, e o torneio virou sub-23, com a possibilidade de levar três atletas acima da idade. Na ocasião, a seleção brasileira não conseguiu a classificação no Pré-Olímpico. Após este período, os argentinos foram os campeões em 2004 (Atenas) e 2008 (Pequim). O que ajuda a aumentar a pressão pelo título inédito do Brasil.

DIVERSIDADE

Os campeões ao longo da história do futebol olímpico evidenciam o quanto é difícil vencer este torneio. Foram 18 diferentes medalhistas de ouro em 25 disputas. Grã-Bretanha e Hungria, esta última com a talentosa geração comandada por Puskas, despontam como as grandes campeãs, com três medalhas de ouro cada uma, seguidas pelos bicampeões Uruguai, Argentina e União Soviética.

AS MEDALHAS

Das 12 participações olímpicas, desde a estreia da seleção brasileira de futebol em Helsinque (Finlândia), em 1952, o Brasil conquistou cinco medalhas. Todas a partir da década de 1980.

Los Angeles (1984) – PRATA: o Brasil, comandado pelo técnico Jair Picerni, tinha em seu elenco nomes como Dunga, Mauro Galvão e o goleiro Gilmar.

Na primeira fase, venceu Arábia Saudita (3 a 1), Alemanha Ocidental (1 a 0) e Marrocos (2 a 0); nas quartas, empatou com o Canadá (1 a 1) –venceu por 4 a 2 nas penalidades–; na semifinal, derrotou a Itália (2 a 1). Na final, perdeu para a França (2 a 0).

Seul (1988) – PRATA: o técnico Carlos Alberto Silva comandou um elenco talentoso (talvez o melhor selecionado olímpico que o país já teve), com o goleiro Taffarel e os atacantes Careca, Giovani, Bebeto e Romário, o artilheiro da competição com sete gols.

Na primeira fase, vitórias sobre Nigéria (4 a 0), Austrália (3 a 0) e Iugoslávia (2 a 1); nas quartas, eliminou a rival Argentina (1 a 0); na semifinal, empate com a Alemanha Ocidental (1 a 1) –vitória nos pênaltis (4 a 3)– e na final, derrota para a União Soviética, em uma prorrogação dramática (2 a 1).

 Romário comemora gol no jogo final contra a União Soviética, em que a seleção brasileira perdeu, ficando com a medalha de prata.
Romário comemora gol contra a União Soviética, em jogo que a seleção brasileira perdeu o ouro (2 a 1). (Crédito: Wilson Melo – 1º.out.1988/Folhapress)

Atlanta (1996) – BRONZE: sob o comando de Zagallo, Dida, Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo e o então veterano Bebeto ficaram com o terceiro lugar.

Na fase de classificação, derrota para o Japão (1 a 0) e vitórias ante Hungria (3 a 1) e Nigéria (1 a 0); pelas quartas, vitória contra Gana (4 a 2); na semifinal, o nigeriano Kanu marcou na morte súbita e eliminou o Brasil (4 a 3); na disputa pela medalha de bronze, a seleção venceu Portugal (5 a 0).

Pequim (2008) – BRONZE: o técnico Dunga convocou jovens promessas como Hernanes, Rafael Sobis, Thiago Neves e Alexandre Pato e depositou suas fichas na experiência de Ronaldinho Gaúcho.

Pela primeira fase, atropelou Bélgica (1 a 0), Nova Zelândia (5 a 0) e China (3 a 0); nas quartas de final, vitória sobre Camarões (2 a 0); já na semifinal, a Argentina passeou contra o Brasil (3 a 0). Em mais uma disputa pelo bronze, a seleção venceu os belgas (3 a 0).

20.ago.2008

Londres (2012) – PRATA: com Neymar como a grande esperança de gols, o sonho dourado parecia estar mais próximo do que nunca esteve.

O time do técnico Mano Menezes venceu bem os cinco jogos que fez até chegar à final –Egito (3 a 2), Bielorrússia (3 a 1), Nova Zelândia (3 a 0), Honduras (3 a 2) e Coreia do Sul (3 a 0). Porém, na decisão, em um jogo repleto de falhas por parte do Brasil, o mexicano Peralta fez dois gols e transformou a tão sonhada medalha de ouro brasileira em prata (2 a 1).

O GRANDE VEXAME

O fato de agora o Brasil jogar em casa também é visto como uma grande oportunidade de apagar decepções e vexames históricos na competição. O maior deles foi a eliminação para Camarões, em Sydney-2000.

Nas quartas de final, o Brasil de Ronaldinho Gaúcho, Alex e Lúcio perdeu para os africanos, estes, com nove em campo, devido às expulsões de Njitab e Nguimbat. Resultado final: 1 a 1 no tempo normal (Mboma, aos 16min do 1º tempo, e Ronaldinho, aos 48min do 2º tempo) e 2 a 1 para os camaroneses na prorrogação, com o “gol de ouro” marcado por Mbami aos 8min da segunda etapa.

A seleção brasileira era comandada pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, que se recusou a levar o atacante Romário e qualquer outro atleta acima da idade permitida. A vexatória derrota resultou na demissão do treinador.

ORG XMIT: 344301_1.tif Futebol - Jogos Olímpicos de Sydney 2000 - Brasil 1 X 2 Camarões: o técnico da seleção brasileira, Wanderley Luxemburgo, após a derrota que eliminou o Brasil.   Brisbane - AUSTRÁLIA, 23.09.2000, Foto Digital: Juca Varella/Folhapress
Brasil 1 x 2 Camarões: o técnico da seleção brasileira, Vanderlei Luxemburgo, após a derrota que eliminou o Brasil. (Crédito: Juca Varella – 23.set.2000/Folhapress)

Apesar das mudanças nas regras olímpicas e as artimanhas de alguns países para levar seus principais jogadores, a resposta para a falta da medalha de ouro na lista de títulos do time canarinho talvez esteja em um dos jargões deste esporte: “o futebol é uma caixinha de surpresas”.

 

*A Alemanha Oriental conquistou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Montréal-1976.