Há 30 anos, primeiro álbum lançado pelos Engenheiros do Hawaii foi destaque na Folha

Por Luiz Carlos Ferreira

E lá se vão 30 anos desde o lançamento de “Longe Demais das Capitais”, primeiro trabalho do grupo gaúcho de pop-rock Engenheiros do Hawaii, que se tornou um dos maiores vendedores de discos no Brasil até os anos 1990.

Sob o título “O rock-chimarrão dos Engenheiros do Hawaii”, o lançamento do LP foi destaque na Folha em 16 de novembro de 1986. O grupo era formado por três estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Humberto Gessinger, 22 (guitarrista, vocalista e compositor), Marcelo Pitz, 23 (baixo) e Carlos Maltz, 24 (bateria).

Engenheiros do Hawaii posam para reportagem da Folha em 1997 (foto: 16/07/1997 – Rosane Marinho/Folhapress)
Engenheiros do Hawaii posam para reportagem da Folha em 1997 (foto: Rosane Marinho – 16.jul.1997/Folhapress)

A ideia de gravar o disco surgiu depois de os Engenheiros terem assistido a um show dos conterrâneos Replicantes – seus inimigos declarados -, conforme contaram à Folha. O nome do disco “é uma gíria da escola para os certinhos que colocam uma camisa florida no fim de semana para surfar”, disse Gessinger ao jornal.

Entre dezembro de 1984 – ano em que banda foi fundada – e janeiro de 1985, os músicos já haviam entrado em estúdio para a gravação da música “Sopa de Letrinhas”, que, além de fazer parte da coletânea “Rock Grande do Sul” (BMG), com outras bandas, foi também a primeira música de um conjunto brasileiro a ter um clipe produzido pela americana MTV. A canção foi aproveitada no álbum de estreia do grupo.

“Para os americanos, deve ser uma coisa arqueológica. Descobriram uma tribo que achavam que não existia”, opinou à Folha o baterista e “teórico” do grupo, Carlos Maltz, sobre o convite da MTV. Na época, outros grupos do Rio Grande do Sul, entre eles De Falla, Garotos de Rua e Replicantes, já começavam a despontar no cenário roqueiro das grandes capitais.

O conteúdo do LP, conforme classificou a reportagem, “é um rockabilly básico, com fortes influências de reaggae: ‘um reggae branco, alemão’, longe do discurso místico dos rastafáris”.

Plateia participa de encontro com a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, em evento realizado no auditório da Folha – (foto: 22.jun.1999 - Moacyr Lopes Junior/Folhapress)
Plateia participa de encontro com a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, em evento realizado no auditório da Folha – (Foto: Moacyr Lopes Junior – 22.jun.1999/Folhapress)

Com o disco, os Engenheiros gravaram o clipe da música “Toda Forma de Poder”, a do refrão “eu presto atenção nos que eles dizem mas eles não dizem nada…”, primeira faixa do LP e a que mais repercutiu nas rádios. A gravação do vídeo contou com a participação de outro gaúcho, o ator Paulo César Pereio, de quem Gessinger, Pitz e Maltz eram amigos.

Influenciados pelo cantor e compositor porto-alegrense Nei Lisboa e avessos ao movimento punk e seus discípulos, os Engenheiros do Hawaii pretendiam com o disco “restaurar o conceito de canção como composição e harmonia”. À Folha disseram que “a babaquice punk”, a mesma que, muito forte em Porto Alegre os levaram à música, destruiu “todo o trabalho da geração dos anos 70”.

NOVAS FORMAÇÕES

Em 1987, com a saída do baixista Marcelo Pitz, Gessinger passa a assumir o instrumento, ficando a guitarra a cargo de Augusto Licks, o novo integrante do trio. Nesse mesmo ano lançam “A Revolta dos Dândis” pela BMG, com os sucessos “Terra de Gigantes”,  “Infinita Highway” e “Refrão de um Bolero”, a partir daí começam a tocar massivamente nas rádios de todo o país. No ano seguinte emplacam “Somos que podemos ser”, do disco “Ouça o que eu digo: não ouça ninguém”.

Tachados por muitos de caretas e banda direitista, em 1989 os Engenheiros apoiaram abertamente o candidato de esquerda Leonel Brizola à Presidência da República em showmícios pelo país. No mesmo ano, a convite da gravadora BMG fazem cinco apresentações em Moscou, capital da Rússia, onde foram bem recebidos pelo público.

Pela frente vieram os sucessos “Alívio Imediato” (1989), “Exércitos de um Homem Só” e “Pra Ser Sincero”, ambas do disco “O Papa é Pop”, de 1990, que contava ainda com a estrondosa “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, gravada em 1967 pelo conjunto “Os Incríveis”. Foi também o disco mais vendido dos Engenheiros, ultrapassando 400 mil cópias. A ascensão meteórica da banda, porém, não era vista com bons olhos pela crítica e pelo meio musical naqueles anos.

Em 1993, com a Orquestra Sinfônica Brasileira e arranjos de Wagner Tiso, os Engenheiros tentam ampliar seus horizontes sonoros com o lançamento do acústico “Filmes de Guerra, Canções de Amor”, o oitavo álbum do grupo, com releituras e canções inéditas.

Tendo passado por pelo menos quatro formações diferentes ao longo da trajetória, em 1996,  a banda muda sua denominação para Humberto Gessinger Trio. Em 97, com o lançamento de “Minuano”, o vocalista volta a adotar o antigo nome do trio.

Em uma de suas primeiras apresentações solo, Humberto Gessinger se apresenta em Teresina, no Piauí, em 2008  - (foto: 05.jul.2008 – Sebastião Bisneto/Folhapress)
Em uma de suas primeiras apresentações solo, Humberto Gessinger toca em Teresina, no Piauí, em 2008  (foto: Sebastião Bisneto – 5.ago.2008/Folhapress)

A discografia oficial da banda conta com 18 álbuns lançados entre 1986 e 2007. Entre coletâneas próprias e faixas em outros discos, foram mais de 30 lancamentos, fora os cerca de 20 videoclipes gravados. Em 2008, o grupo encerrou as atividades. Humberto Gessinger seguiu então carreira solo e se tornou escritor.

Para registrar a trajetória da banda, o jornalista Alexandre Lucchese, do jornal “Zero Hora”, lançou no último mês o livro “Infinita Highway – Uma carona com os Engenheiros do Hawaii”, pela editora Belas Letras, onde relata com minúcias as andanças e os percalços de uma das bandas mais populares, queridas e odiadas do país na virada dos anos 80 para os 90.