Há 20 anos, morria Paulo Francis, protagonista de debate com o primeiro ombudsman da Folha

Por EDGAR SILVA

Há 20 anos, morria em Nova York Paulo Francis, jornalista, escritor e ex-colunista da Folha.

Jornalista desde a década de 1950, Francis passou por diversas redações, entre elas “Diário de Notícias”, “Última Hora” e o “Pasquim”.

Na Folha trabalhou 15 anos (1975-1990). Escreveu sobre política internacional, a convite de Cláudio Abramo, diretor de Redação à época, e se notabilizou por suas colunas direto de Nova York.

Em 1977 conseguiu um relatório do Banco Mundial com questionamentos à política econômica brasileira. Dias após o furo, o jornal publicou um caderno com o próprio relatório.

Organizador de duas coletâneas de colunas de Francis, Nelson de Sá, jornalista da Folha, diz que “ele sempre foi repórter”. “Ele era muito opinativo, até nos maiores furos, mas se orgulhava das fontes, de publicar antes.”

Sua opinião influenciava e provocava leitores. A ideia de que o polemista era um personagem teatral era do próprio Francis. “Gosto de plateia, quero mantê-la cativa, afinal vivo disso há 40 anos”, dizia.

Antes das palavras bombásticas contra a Petrobras, no final de 1996, protagonizou um  embate com o primeiro ombudsman do jornal, Caio Túlio Costa.

O debate nas páginas do jornal começou após a divulgação de uma pesquisa de boca de urna do Datafolha, em 16 de novembro de 1989, que apontava Collor e Lula no segundo turno das eleições presidenciais daquele ano.

Uma semana depois da pesquisa, a coluna “A grande tonteria”, de Francis, desferia farpas contra Lula e um eventual governo do PT.

O jornalista Paulo Francis na sede do jornal Folha de S. Paulo (Foto:  Luiz Carlos Murauskas - 28.jul.1982/Folhapress)
O jornalista Paulo Francis na sede do jornal Folha de S.Paulo (Foto: Luiz Carlos Murauskas – 28.jul.1982/Folhapress)

Leitores ligaram para o ombudsman para reclamar da primeira página do jornal que trazia “Collor diz que PT prega banho de sangue” e contra a brutalidade de Francis.

Em “Petismo, Paulo Francis e o mito de Narciso” Caio Túlio tratou em grande parte da verborragia do colunista de Nova York.

O ombudsman disse: “Não se deve cobrar jornalismo nesse tipo de artigo que Francis faz. Ali ele é mais o Francis ficcinonista, o cronista dos tempos”. E acrescentou “É preconceituoso, vulgar, chuta alguns dados, é o Paulo Francis de sempre –irreverente e destemido”.

A resposta veio quatro dias depois em “Patrulhas de Lula”. No terceiro parágrafo Francis diz “Caio Túlio Costa está ensinando jornalismo mal aos jovens da Folha. Se digo ‘besteiras’, como ele escreve, que aponte as ‘besteiras’. Se ‘saco dados’, que idem”.

Mais adiante emendou “Acho que a função de ombudsman, palavra horrenda, por sinal, subiu à cabeça de Caio Túlio”.

Em fevereiro de 1990, colunista e ombudsman voltaram a discutir através de seus espaços. Caio Túlio escreveu “Sobre Francis –ou o infantilismo tardio” e Francis respondeu com “Pobres diabos, como nós”, onde classificou o ombudsman de “um canalha menor” e “bedel de jornal”.

A direção do jornal foi quem encerrou a polêmica e em 25 de fevereiro de 1990, em página inteira, foram publicadas as colunas “Um episódio melancólico” de Francis e “O afeto que se encerra” de Caio Túlio –título de um dos 13 livros do polêmico colunista.

PETROBRAS

A partir de 1993 passou a integrar o programa Manhattan Connection, ancorado por Lucas Mendes, e em outubro de 1996 se envolveu em uma grande polêmica ao dizer que “os diretores da Petrobras todos põem dinheiro” em contas na Suíça.

Um mês após sua declaração foi processado pelo então presidente da estatal, Joel Rennó. Morreu em seu apartamento, em Nova York, em decorrência de um infarto, três meses após a abertura do processo judicial e o pedido de indenização de 100 milhões de dólares.