Há 45 anos, Andraus era consumido por incêndio

Por EDGAR SILVA

Há 45 anos, o edifício Andraus, na avenida São João, era atingido por incêndio, onde 16 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas.

O fogo começou às 16h20, no terceiro andar, na seção de crediário da Pirani, que ocupava cinco dos 27 andares do prédio. Em menos de 10 minutos já se propagara para os andares inferiores e, em seguida, para os de cima.

Menos de uma hora depois já estavam no local praticamente todas as guarnições do Corpo de Bombeiros. O primeiro helicóptero fez algumas evoluções em volta do Andraus, para o reconhecimento da área, e pousou às 17h15 no heliponto, decolando um minuto depois, com as primeiras pessoas resgatadas.

Fachada do edifício Andraus, com letreiro da loja Pirani em chamas (Foto: Folhapress)

Por volta das 21h30 o comandante do Corpo de Bombeiros anunciou o início dos trabalhos de rescaldo. Os bombeiros se recusavam a fazer qualquer estimativa do número total de mortos, pois o trabalho de resgate das pessoas que estavam no topo do edifício não havia terminado.

Alguns bombeiros, que chegavam de helicóptero, desembarcavam no topo e  trabalhavam de cima para baixo, enquanto outros faziam o resgate de baixo para cima.

O prefeito de São Paulo, Figueiredo Ferraz, mobilizou ambulâncias de todas as Secretarias da Prefeitura e das Administrações Regionais, carros-pipas e o único helicóptero que estava funcionando. O aparelho foi primeiro a chegar ao heliponto do edifício para resgatar as vítimas (salvou mais de 100), que conseguiram chegar até lá.

“O brasileiro não acredita em incêndio, mas ele existe e é devastador”, disse o prefeito, que acompanhou de longe o trabalho dos bombeiros.

ANDRAUS POR ANDRAUS

Roberto Andraus, construtor e ex-proprietário do edifício que leva seu sobrenome, estava na rua Líbero Badaró quando soube da tragédia e foi para o local.

“Este era um dos prédios mais lindos que já vi”, disse. “Sua estrutura é esplêndida e a maior prova é ele estar de pé até agora. Graças ao heliponto, estão salvando muita gente, caso contrário não teriam por onde sair. Mesmo assim vi diversas pessoas saltarem, num espetáculo horrível”, lamentou Andraus.

O heliponto do edifício Andraus (Foto: Folhapress)

O construtor disse ainda que o grande aquecimento poderia afetar as duas colunas mestras de sua estrutura e que, se isso acontecesse, o prédio viria abaixo.

“O prédio foi totalmente construído em concreto. Se em vez desse material tivéssemos usado a estrutura metálica, o edifício já teria ruído”, explicou ele.

REFORMA

Dez anos após o incêndio a Folha trouxe a reportagem “Após a tragédia, Andraus ainda não é edifício seguro”.

Acionamento de alarme, portas corta-fogo, novas saídas de emergência, uma série de itens foram instalados conforme as normas técnicas municipais e as exigências do antigo Contru (Departamento de Controle e Uso de Imóveis).

Apesar disso a Sehab (Secretaria da Habitação) exigiu a revisão completa da instalação elétrica de diversos andares, eliminando as extensões irregulares e o aquecimento excessivo dos disjuntores.

À época, ficou estabelecido que, enquanto não fossem preenchidos esses requisitos, o Andraus não poderia receber o AVS (Auto de Verificação de Segurança), obrigatório em edifícios com mais de 12 andares.

O PRÉDIO

O edifício Andraus fica na esquina da avenida São João com a rua Pedro Américo, região central da cidade. Foi construído entre 1957 e 1962, possui 31 pavimentos, mais o subsolo –atualmente, um estacionamento privativo alugado pelo prédio– e continua sendo utilizado para comércio e serviços.

Na época do incêndio havia apenas uma escada de emergência. Depois da reforma são duas (uma interna e outra externa), as portas corta-fogo são dotadas de sensores eletrônicos e destravadas automaticamente quando qualquer sinal de fumaça é detectado.

O heliponto ainda existe, mas somente para emergências. Não é homologado para pousos e decolagens pelo Comaer (Comando da Aeronáutica).

Segundo Joaquim Ferraz Junqueira, 48, síndico do Andraus há oito anos, o AVS está em dia e o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) depende apenas de uma bomba de incêndio que será instalada no 28º andar.

“Mesmo um prédio antigo tem que estar atualizado. Não se pode deixar de fazer reformas e adequações, até porque a legislação está sempre mudando”, explica Junqueira.

Desde o incêndio, há 45 anos, nunca mais houve um sinistro desse tipo no Andraus. “Além de seguro, o prédio está atualizado”, resumiu.