Há 40 anos, o ‘Sítio do Pica-Pau Amarelo’ ganhava sua primeira grande adaptação para a TV brasileira

Por Luiz Carlos Ferreira

Às 17h25 da terça-feira de 7 de março de 1977, milhões de brasileirinhos se debruçaram em frente à TV para a estreia do Sítio do Pica Pau Amarelo, programa infantil exibido de segunda a sexta na TV Globo e o primeiro investimento massivo em uma produção do gênero na história da televisão brasileira.

Resultado de uma parceria entre a Globo, a TV Educativa e o Ministério da Cultura, a “novelinha”, como o Sítio era chamado por Eduardo Pacote, supervisor do projeto, era uma adaptação da obra de Monteiro Lobato (1882-1948), um dos grandes nomes da literatura infantojuvenil do país.

Com capítulos que duravam cerca de 30 minutos, o “Sítio do Pica-Pau Amarelo” ficou no ar durante nove anos, ultrapassando as expectativas de seus idealizadores. “A obra de Monteiro Lobato é muito rica e toda essa riqueza pode permitir que o programa se prolongue por mais de dois anos”, estimou Edwaldo Pacote, supervisor do projeto, no dia da estreia do programa.

Os atores Dorinha Duval (Cuca) e Tonico Pereira (Zé Carneiro) contracenam em episódio do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Baseado em um contexto rural, mantendo a originalidade da obra de Lobato, a trama é ambientada num sítio, onde constantes aventuras são vividas em meio à realidade e à fantasia.

A música de abertura do infantil, composta e interpretada por Gilberto Gil introduzia os espectadores a um universo paralelo, mágico, místico, onde boneca de pano ganha vida e sabugo de milho vira gente. Um lugar em estado de euforia, com saci, piratas, sereia e rios de prata.

Entre os personagens centrais estão a contadora de histórias e proprietária do sítio, Dona Benta, sua neta Lúcia (apelidada de Narizinho), a quituteira e governanta tia Nastácia e Pedrinho, primo de Narizinho, que, morador da ‘cidade grande’ passava as férias escolares no sítio da avó.

Pedrinho [Júlio César] e Emília [Reny de Oliveira] em cena do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, série dirigida por Geraldo Casé, com supervisão de Edwaldo Pacote, e adaptação da obra de Monteiro Lobato  ( Foto: Divulgação/TV Globo)

O Sítio contava ainda com os personagens não menos importantes Tio Barnabé, Zé Carneiro, Garnizé, João Perfeito, Seu Elias, a“dragoa” e feiticeira Cuca, o buliçoso Saci Pererê, o intelectual e cientista Visconde de Sabugosa -feito pela Tia Nastácia com um sabugo de milho para ser amigo de Pedrinho-, e a boneca falante Emília, confeccionada por Dona Benta para Narizinho.

A direção geral era de Geraldo Casé (1928-2008). Ao longo do programa, o núcleo de redatores foi composto por Wilson Rocha, Paulo Afonso Grisolli, Benedito Rui Barbosa, Sylvan Paezzo e Marcos Rey. Na direção passaram Fábio Sabag, Roberto Vignatti, Paulo Gracindo Jr. e Hamilton Vaz Pereira.

Dos quase 70 episódios exibidos, muitos se destacaram, dentre eles “O Anjinho da asa quebrada (1977), “O Minotauro (1978), “O Curupira (1979), “O burro falante” (1983) e o derradeiro “A Trilha das Araras”, que teve seu 20° e último capítulo exibido em 31 de janeiro de 1986, quando o programa chegou ao fim.

Rosana Garcia e Jacira Sampaio, que interpretaram Narizinho e Tia Nastácia no ‘Sítio do Picapau Amarelo’  (Foto: Nelson Di Rago/Divulgação/TV Globo)

ELENCO PRINCIPAL

Dona Benta: Zilka Sallaberry (1917-2005)

Tia Nastácia: Jacyra Sampaio (1922-1998)

Narizinho: Rosana Garcia, Daniele Rodrigues, Izabel Bicalho e Gabriela Senra

Pedrinho: Júlio César, Marcelo Patelli e Daniel Lobo

Emília: Dirce Migliaccio (1933-2009), Reny de Oliveira e Suzana Abranches

Visconde de Sabugosa: André Valli (1945-2008)

Saci Pererê: Romeu Evaristo

Cuca: Dorinha Duval, Stela Freitas e Catarina Abdala

 

Dona Benta, o diretor Fábio Sabag e Tia Nástacia (Foto: Divulgação/TV Globo)

PRIMEIRA ADAPTAÇÃO PARA A TV
A primeira montagem do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” para a TV entrou no ar há 66 anos, em 1952, na TV Tupi, quando a televisão no Brasil estava no seu segundo ano de existência. Com recurso escasso e formato semelhante a uma montagem teatral, os capítulos eram transmitidos apenas às quartas-feiras. O índice positivo de audiência, porem, manteve o programa no ar por 12 anos.

A última versão do Sítio, produzida pela TV Globo, foi exibida durante sete anos (2001-2007) e teve cerca de 60 episódios.

RACISMO
Em 2010, o CNE (Conselho Nacional de Educação) publicou no “Diário Oficial” da União um parecer impedindo a distribuição do livro “Caçadas de Pedrinho” (1933) por ter conteúdo racista. Redigido pela professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, o documento apresentava trechos da obra considerados de cunho racista, como a frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão”, entre outras “abordagens a animais como urubu e macaco”.

Nos anos 70, críticos da obra de Monteiro Lobato já o haviam classificado de racista, ao se basearem nas falas da boneca Emília, tida como um espelho do autor. Frases do tipo “oh, sua negra beiçuda” ou insultos como “se deus te fez desse jeito, é porque tinha que haver algo de errado com você”, estão registrados no livro “As Reinações de Narizinho” (1931).