OUTROS DIAS DA MULHER: Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar no Municipal do Rio

Por Luiz Carlos Ferreira

“Riam de mim quando eu dizia que queria ser atriz.” Estas foram as palavras usadas por Ruth de Souza, a primeira atriz negra a encenar no Theatro Municipal do Rio, ao contar sua hist√≥ria de enfrentamento ao racismo durante a inf√Ęncia, na s√©rie “Damas da TV”, exibida pelo canal pago Globonews, em 2014.

No programa,¬†a atriz, hoje com 96 anos e cerca de uma centena de atua√ß√Ķes no teatro, TV e cinema, contou que no primeiro ano de escola foi √†s lagrimas¬†ao ver em seu livro escolar um cap√≠tulo sugerindo que o formato da cabe√ßa do negro fazia com que ele fosse intelectualmente inferior aos demais seres humanos.

Ruth de Souza foi a primeira atriz negra do teatro (Foto: 19.out.2009 – Gianne Carvalho/Folhapress)

Primogênita de dois irmãos, Ruth Pinto de Souza nasceu no Engenho de Dentro (Rio), em 12 de maio de 1921. Mudou-se ainda pequena com a família para um sítio no município de Porto Marinho, interior do Estado de Minas, onde seus pais dependiam da roça para a sobrevivência da família.

Aos nove anos, com a morte do pai, retorna com a m√£e e os irm√£os para o Rio, onde passam a viver em uma vila de lavadeiras e jardineiros, em Copacabana.

O DESPERTAR PARA A S√ČTIMA ARTE¬†

A paix√£o pelo cinema surgiu na inf√Ęncia, depois de assistir ao filme “Tarzan, o Filho da Selva” (1932). Desde ent√£o trabalhar no cinema passou a ser o seu maior prop√≥sito de vida.

Anos mais tarde, na juventude, folheando a Revista Rio -do jornalista Roberto Marinho-, a atriz leu uma reportagem sobre um grupo de jovens atores negros que se reunia no Teatro do Estudante do Brasil (TEB), no Rio. Era o embrião do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944 pelo ator, professor, político e ativista negro Abdias do Nascimento e fundamental para a valorização do artista negro no país.

A atriz Ruth de Souza e o ator Grande Otelo, em 1953   (Foto: 1953 РAcervo UH/Folhapress)

Na noite de 8 de maio de 1945, como integrante do TEN, Ruth de Souza entra para a hist√≥ria ao ser a primeira atriz negra a encenar no palco do t√£o prestigiado e elitista Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com o espet√°culo “O Imperador Jones” [“The Imperator Jones”], do dramaturgo americano Eugene O‚ÄôNeill (1888-1953).

Em 1947, ainda fazendo parte do grupo teatral de Abdias, a atriz participa da montagem “O Filho Pr√≥digo”, de L√ļcio Cardoso (1912-1968), quando recebe o pr√™mio de atriz revela√ß√£o do ano.

A estreia no cinema aconteceu¬†em 1948, por indica√ß√£o¬†de Jorge Amado (1912-2001), quando a atriz fora escalada junto com os j√° consagrados Grande Otelo (1915-1993) e Anselmo Duarte (1920-2009) para o elenco de “Terra Violenta”, uma adapta√ß√£o da obra do escritor baiano produzida pela Atl√Ęntida Cinematogr√°fica.

EST√ĀGIO NOS EUA

O ano de 1950 foi um dos mais memoráveis para a atriz. Com a mão do teatrólogo e diplomata Paschoal Carlos Magno (1906-1980), Ruth de Souza foi agraciada com uma bolsa de estudos cedida pela Rockefeller Foundation, para cursar um ano de teatro e cinema nos EUA.

Em Cleveland, no Estado de Ohio, além de atuar em peças, trabalhou como contra regra, assistente de direção e diretora de palco. Em sua passagem por Nova York, fez estágio na Academia Nacional de Cinema Americano e, depois, na Universidade Harvard, em Cambridge.

O RETORNO AO BRASIL

De volta ao pa√≠s, e com a ajuda¬†do diretor Alberto Cavalcanti (1897-1982), tornou-se uma das primeiras atrizes contratadas pela rec√©m-criada Vera Cruz, onde participou de cinco produ√ß√Ķes.

No filme “Sinh√° Mo√ßa” (1953), como coadjuvante, foi indicada ao pr√™mio de melhor atriz no Festival de Veneza, concorrendo com as internacionais Katharine Hepburn (1907-2003), Mich√®le Morgan (1920-2016) e a vencedora Lilli Palmer (1914-1986), para quem perdeu o pr√™mio por pouca diferen√ßa.

A atriz Ruth de Souza sentada sobre um p√īster do filme “Sinh√° Mo√ßa”, em 1956 (Foto: 1956 – Acervo UH/Folhapress)

Com a chegada da TV no Brasil, em 1950, Ruth passou a fazer teleteatros na pioneira Tupi, onde j√° se apresentava em musicais. No decorrer da d√©cada atuou nos filmes “Candinho” (1954) -ao lado de Mazzaroppi-, “Ravina” (1958), “Favela” (1960) e “Assalto ao Trem Pagador” (1962), entre outros.

Conciliando cinema, televis√£o e teatro, atuou nas pe√ßas “Vestido de Noiva” (1958), “Ora√ß√£o para uma Negra” (1959) e “Quarto de Despejo” (1961), onde interpreta a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), moradora da favela do Canind√©, na zona norte de S√£o Paulo.

NA TELEDRAMATURGIA

A primeira telenovela veio em 1965, em “A Deusa Vencida”, na TV Excelsior. Tr√™s anos depois, em 1968, estreia na TV Globo com a trama “Passo dos Ventos”, onde interpretou uma m√£e de santo, e, em 1969, torna-se a primeira protagonista negra na novela “A Cabana do Pai Tom√°s”, onde trabalhou ao lado do amigo e ator S√©rgio Cardoso (1925-1972).

Na Globo, onde √© contratada h√° quase 50 anos, fez mais de 30 novelas. Entre as de maior destaque est√£o “O Bem-Amado” (1973), “Helena” (1975), “Sinh√° Mo√ßa” ‚Äď1¬™ e 2¬™ vers√£o (1986/2006)‚Äď e “Memorial de Maria Moura” (1994). A miniss√©rie “Na Forma da Lei” (2010), foi a sua √ļltima atua√ß√£o na emissora desde ent√£o.

Ruth de Souza em cena da novela “Olhai os L√≠rios do Campo”, na TV Globo (Foto: 1980 – Divulga√ß√£o/TV Globo)

Seus trabalhos mais recentes no cinema foram em “O Vendedor de Passados” (2015) e em “As Filhas do Vento” (2005).

Perseguida pelo racismo, Ruth de Souza costuma dizer em entrevistas que sempre teve que brigar muito por bons papeis ao longo de seus mais de 70 anos de interpreta√ß√Ķes. Mas agradece constantemente aos autores Janete Clair (1925-1983) e Dias Gomes (1922-1999) pela possibilidade que proporcionaram a ela de representar personagens de maior relev√Ęncia na TV.

Em 2016, Ruth de Souza foi homenageada na mostra ‚ÄúP√©rola Negra‚ÄĚ, que ficou em cartaz no CCBB de Bras√≠lia e de S√£o Paulo, onde foram exibidos 25 de seus trabalhos mais marcantes.