Aos 75 anos, Ademir da Guia fala sobre gratidão ao Palmeiras e o pai, ídolo do arquirrival Corinthians

Por Alberto Nogueira

Um tranquilo septuagenário, de camisa polo listrada, bermuda e boné, sentado em um banco sob as sombras das árvores em uma manhã ensolarada. A cena, que parece comum, ganha outros ares quando um garoto, que aparenta ter seus 12 anos, fala para mãe: “Olha, é o Ademir da Guia! Vamos pedir para tirar uma foto com ele”.

A imagem se repetiu algumas vezes, com pessoas de várias idades, que naquele momento frequentavam a sede social do Palmeiras, em Perdizes, zona oeste de São Paulo. Ademir da Guia, que completa 75 anos nesta segunda-feira (3), esbanja simpatia ao atender os fãs, enquanto aguarda para ser entrevistado pela reportagem da Folha.

Considerado o maior ídolo da história do Palmeiras, o Divino, como é chamado, herdou este apelido do pai, o ex-jogador Domingos da Guia, e o honrou ao longo da carreira, com genialidade no passe e classe ao conduzir a bola, como se flutuasse em campo.

O camisa 10 atuou 16 anos pelo clube (1961 a 1977), quando foi o maestro da Primeira e da Segunda Academia palmeirense. Foram 903 jogos (515 vitórias, 233 empates e 155 derrotas), 154 gols e muitos títulos, como o Campeonato Paulista (1963, 1966, 1972, 1974 e 1976) e o Brasileiro (1967*, 1969, 1972 e 1973).

O meia deixou os gramados em decorrência de problemas respiratórios. Coincidência ou não, a partir da aposentadoria do craque, o Palmeiras amargou uma longa fila de títulos –mais de 16 anos, até vencer o Paulista de 1993– e viu o rival Corinthians ascender. Fora das quatro linhas, foi vereador por SP, mas passou longe de ter algum destaque.

Na entrevista, em frente ao seu busto de bronze, no Palmeiras, Ademir falou sobre o que o clube representa em sua vida, a inesquecível final do Campeonato Paulista de 1974 e o pai, o Divino Mestre, que foi ídolo no Corinthians. Antes, porém, brincou com o fotógrafo: “De tanto fazer foto olhando pra cima, vou ter que fazer massagem para destravar as costas”.

Ademir da Guia segura retrato do título de 1974 (Foto: Joel Silva – 08.dez.2016/Folhapress)

O que o Palmeiras representa na sua vida?

O Palmeiras me trouxe com 19 anos lá do Bangu (Rio), acreditou no meu futebol e me deu oportunidade. Então toda a minha carreira, tudo aquilo que eu consegui fazer, na verdade, eu devo ao Palmeiras. Joguei com grandes jogadores durante 16 anos. Foram duas fases muito boas das Academias, uma com o técnico Filpo Núñes e outra com o Oswaldo Brandão, quando ganhei títulos importantes, porque para jogar em uma equipe grande como o Palmeiras, você precisa sempre vencer. Também, graças ao clube, disputei uma Copa do Mundo [em 1974, na Alemanha Ocidental].

Nesses 16 anos em que foi jogador do Palmeiras, você disputou vários clássicos. Qual equipe foi a mais complicada de enfrentar e qual o jogo que ficou marcado em sua memória?

Dependendo do ano, nós tínhamos uma equipe que era mais difícil de se jogar. Na década de 1960, foi o Santos. Teve uma época em que o São Paulo nos dava mais trabalho, mas sempre o Corinthians foi o grande rival, aquele que o torcedor queria ganhar. “Olha, não podemos perder”, vinham falar conosco. Já o jogo que ficou gravado foi a final do Campeonato Paulista de 1974 [Palmeiras 1 a 0, gol de Ronaldo], em que jogamos no Morumbi com um público de mais de 100 mil pessoas, muitos deles corintianos. Eles estavam numa fila de mais de 20 anos.

Neste Palmeiras campeão brasileiro de 2016, qual jogador que mais chamou sua atenção pela técnica?

Pela técnica? A técnica que existia antigamente eu acho que ficou um pouco para trás. Os nossos pontas, por exemplo, eram jogadores que tinham habilidade, um drible sensacional, eles iam até a linha de fundo, cruzavam. Isso passou. Para eu te falar o jogador que é técnico hoje, é difícil, porque é todo mundo correndo, lutando, batalhando, defendendo, atacando… Tem muito lançamento. Na minha época, por exemplo, os gols de cabeça saiam mais em escanteios. Hoje, o jogador cobra o arremesso lateral de longe para dentro da área e o gol sai.

Ademir, até hoje seu pai é considerado um dos maiores zagueiros da história do Corinthians, clube pelo qual foi ídolo.  Como foi quando você chegou do Rio, justamente para jogar no rival?

Meu pai, como eu, começou no Bangu. Depois, passou pelo Vasco, jogou no Nacional, do Uruguai, no Boca Juniors, da Argentina, Flamengo, Corinthians e, por fim, voltou ao Bangu. Ele, mesmo sendo um zagueiro, era muito técnico, não dava chutão, sempre saia jogando. Eu herdei muito do meu pai [a técnica], só que eu preferi jogar um pouquinho mais para a frente, porque eu gostava também de fazer gols. Meu pai falava assim para mim, pouco antes de eu ir jogar no Palmeiras: “Ademir, eu joguei quatro anos no Corinthians e não consegui ser campeão [de um título de grande expressão]”. Aí eu falava pra ele: “Pai, fica tranquilo, que eu vou jogar no Palmeiras e vou ser campeão”. Daí, ele falava: “Mas lembre-se de que eu fui o melhor da família”. “É claro que você foi o melhor”, eu sempre concordava com ele (risos). Meu pai jogou a Copa do Mundo da França [1938], foi titular. Na época em que ele jogou no Uruguai, não iam jogadores brasileiros para lá, porque o futebol uruguaio era campeão do mundo, era onde estavam os grandes jogadores. Também era difícil um brasileiro jogar na Argentina, e ele conseguiu essa proeza.

Colaborou DIEGO ARVATE

*Roberto Gomes Pedrosa e Taça Brasil no mesmo ano