Há 10 anos, a dor de Edna Ezequiel comoveu o país

Por Cristiano Cipriano Pombo

Há 10 anos, a notícia do drama vivido pela empregada doméstica Edna Ezequiel comoveu o país.

Moradora do Morro dos Macacos, na Vila Isabel (zona norte do Rio), Edna viu dois de seus entes mais queridos serem mortos num intervalo de 40 dias.

A primeira dor foi provocada pela morte da filha de 12 anos, Alana Ezequiel. A menina levou um tiro nas costas após levar a irmã caçula, de dois anos à época, para a creche na segunda-feira de 5 de março de 2007.

Naquele dia, a família tinha sido acordada muito cedo por disparos de armas de fogo. Por volta das 6h, a Polícia Militar deflagrou uma operação no morro com o objetivo de coibir o roubo a pedestres e a carros na região –cerca de 50 policiais invadiram a favela por diferentes lados.

Como houve confronto entre policiais e traficantes do local, Edna pediu naquela manhã que todos os filhos -eram cinco- deitassem no chão, medida de proteção comum na família quando disparos eram ouvidos no morro.

A família esperou por quase uma hora e, quando o som das armas de fogo tinha cessado por um certo tempo, acreditou que o pior havia passado.

Assim, Alana seguiu com a irmã até a creche. Como a família morava na parte mais alta do morro –o que era um indício da condição precária, já que, quando mais alto e mais distante do asfalto e da área urbana, mais largadas à própria sorte ficavam as pessoas–, a mãe demorou a saber que a operação tinha parado e muito menos que teria um recomeço perto das 8h, quando blindados da PM também chegaram à favela e o tiroteio recomeçou.

Alana foi alvejada quando retornava da creche da irmã. Foi socorrida e levada para o hospital do Andaraí, onde morreu às 8h55. A bala perdida perfurou a região lombar e atingiu o pulmão e o fígado da menina.

Ao notar que sua filha não chegava, Edna foi buscar informações, quando recebeu a notícia de que Alana tinha levado um tiro e havia sido encaminhada ao hospital.  Ao chegar, desesperada, Alana viu o corpo da filha envolto em um saco. O desespero e a indignação com a perda ficaram flagrantes nas imagens feitas pela imprensa na porta do hospital.

 

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo um dia após a morte de Alana Ezequiel, em 6 de março de 2007

 

Edna pediu justiça e, principalmente, a identificação do autor dos disparos, fosse ele um criminoso, fosse um policial.

Ela ficou sem resposta. A PM informou apenas ter apreendido dois revólveres, uma pistola, 30 gramas de maconha e 45 gramas de cocaína na operação.

Sem recursos para pagar o enterro de Alana, a família velou o corpo graças à doação da Santa Casa de Misericórdia -a menina foi enterrada numa gaveta do cemitério São Francisco Xavier.

A mãe relatou que a menina, que estudava na escola Assis Chateaubriand, sonhava em ser advogada e já tinha instruções em caso de operação policial no morro. “Falava para ela ficar em algum lugar, para não subir. Quando ela subiu, o tiroteio tinha parado e depois recomeçou.”

Outro ponto triste foi a baixa adesão à missa de sétimo dia de Alana. Realizada no dia 12 de março de 2007, na igreja da Candelária (centro), a celebração contou apenas com 80 pessoas –o local tinha capacidade para mil.  “Às vezes as pessoas têm outro sentimento para essas vítimas [de família pobre]. É decepção atrás de decepção. A sociedade põe a culpa nas autoridades, mas não entende o seu papel. Isso aqui deveria estar lotado”, disse Cleide Prado, mãe de Gabriela Prado, morta em 2003 por uma bala perdida.

Organizadora da missa, Patrícia Oliveira, da Rede de Movimentos Contra a Violência, desabafou: “Quem não sabia que ia acontecer isso? O objetivo era este mesmo: mostrar a diferença.” Também não havia moradores do morro dos Macacos. “É a primeira vez que a gente faz uma missa na Candelária, marco da alta sociedade do Rio. Talvez eles tenham se acanhado”, disse Oliveira.

 

Sequência de fotos publicadas pela Folha de S.Paulo em 14 de abril de 2007, um dia após a morte de Hélio Ezequiel

 

DOR AMPLIADA

Ainda em luto pela morte da filha, Edna Ezequiel, assim como sua família, sofreu novo baque em 13 de abril de 2007.

Nesta data, a vítima, também no Morro dos Macacos e também alvo de balas, foi Hélio José da Silva Ezequiel, 25, irmão de Edna.

Ele voltava do hospital onde a mulher se recuperava do nascimento de um filho –era o sétimo do casal–, quando o morro foi invadido por uma quadrilha. Hélio levou dois tiros na nuca e morreu.

Para aumentar a dor, o corpo foi retirado de dentro da favela e deixado na rua, coberto, em frente à antiga Delegacia de Repressão e Entorpecentes. Junto ao corpo, foi deixada a mochila com o uniforme de trabalho da vítima.

Hélio não tinha antecedentes criminais. O corpo foi reconhecido por Edna, assim que chegava à favela. O choque foi grande.

 

Extrato da capa da Folha em 14 de abril de 2007, em que mais uma vez a dor de Edna Ezequiel comovia o país

Enquanto aguardava a liberação do corpo do irmão, à porta do IML (Instituto Médico Legal), Edna Ezequiel concedeu entrevista à Folha, publicada em 15 de abril de 2007. Confira abaixo a íntegra

FOLHA – Qual foi a sua reação ao saber do assassinato do seu irmão?
EDNA EZEQUIEL – Eu não tenho mais palavras pra falar porque é muita dor. Eu estou ficando com problemas. Tem hora que eu não escuto. Eu agora não sei o que vou fazer na minha vida com esse novo choque. Eu estava fazendo tantos planos para divertir meus filhos. Eles estão muito agressivos depois da morte da Alana.

FOLHA – A senhora pretende se mudar?
EDNA – Não tem como. Se eu tivesse dinheiro, sairia de lá. Eu não tenho mais paz. É uma tragédia atrás da outra. Estou na mesma casa. Não consigo mexer nas coisas da minha filha. Meus filhos não querem que eu durma no quarto. Minha vida está toda bagunçada, ainda mais depois desse caso.

FOLHA – A senhora vai continuar participando de manifestações contra a violência?
EDNA – Se tiver alguém pra ficar com meus filhos, eu vou, porque as autoridades vão ver o que estou sofrendo. Eu só participei de uma manifestação. Falei com o secretário de Segurança [José Mariano Beltrame] na missa da Alana, quando ele me disse que ia dar uma resposta. A resposta veio ontem [anteontem]: perdi meu irmão também. Cadê a segurança? Não existe e não vai ter. Vai acontecer mais, mais e mais. Meu irmão era trabalhador e morreu assim.

FOLHA – A senhora tem medo que aconteça de novo?
EDNA – Medo? Eu tenho pavor. Esse choque que eu levei, eu não esperava. Achei que ele estivesse no trabalho como todo dia, mas devido ao estado da mulher dele, foi ao hospital. E ela não tem ninguém. Só tinha ele e a gente.

FOLHA – O que a senhora espera das autoridades?
EDNA – Espero que elas olhem mais por quem mora no morro. A gente vive abandonado. Eles acham que é cachorro quem vive lá, mas na hora de descer o morro pra votar, o voto vale. E se a gente não descer, ainda é multado. Aí eles não querem saber se é preto se é branco, eles querem o voto.

FOLHA – A senhora acha que a situação no morro dos Macacos piorou neste ano?
EDNA – Com certeza. É só sangue, sangue, sangue. Agora é um inferno. Desde que a Alana morreu a gente não tem paz.

O último relato sobre a vida de Edna Ezequiel na Folha ocorreu em 18 de abril de 2007, quando a família disse que gostaria de deixar o Morro dos Macacos.