Há 70 anos, Jackie Robinson se tornava o primeiro negro da MLB, maior liga de beisebol dos EUA

Por Luiz Carlos Ferreira

Em 15 de abril de 1947, momento em que os EUA ainda viviam os intensos efeitos da segregação racial, implementada no início do século 20 pelos sulistas, o esportista americano Jackie Robinson entrava para a história ao ser o primeiro negro a integrar o Brooklyn Dodgers, principal time da maior liga de beisebol dos EUA, a MLB (Major League Baseball).

Onze anos antes, em agosto de 1936, outra barreira do racismo havia sido quebrada no mundo com a vitória do neto de escravos Jesse Owens, que levou 4 medalhas de ouro ao quebrar os recordes de corrida e salto em distância nos Jogos de Berlim, na Alemanha, organizados por  Adolf Hitler com o propósito de comprovar a intolerante ideia da supremacia branca.

Nascido em 31 de janeiro de 1919, no Cairo, Estado da Geórgia (EUA), o filho de agricultores e caçula de cinco irmãos, Jackie Roosevelt Robinson cresceu em Pasadena, na Califórnia. No colégio já se destacava como atleta, até entrar para a Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a  UCLA, onde teve que abandonar os estudos para ajudar no sustento da família.

No Exército dos EUA, Robinson expressou um de seus primeiros atos de resistência contra o racismo ao rebater uma ordem superior para que se sentasse na parte de trás do ônibus militar, episódio que o levou ao Tribunal Militar em 1944.

Após sua saída das Forças Armadas e de ter tido uma rápida experiência como jogador de futebol profissional no Havaí, o atleta escolheu o beisebol como profissão e passou a integrar o Kansas City Monarchs, uma liga voltada para jogadores negros, onde permaneceu durante dois anos, até 1946.

Jackie Robinson com o uniforme do Montreal, em 1945 (Foto: 1945 – AFP)

A atuação de Robinson no Monarchs despertou o interesse do dirigente Branch Rickey, que o contratou em 23 de outubro de 1945 para a liga de beisebol de maior referência no mundo, quando iniciou numa equipe menor da MLB, a Royals de Montreal, onde se tornou líder até a ser convocado para o Brooklyn Dodgers, em 1947, com a emblemática camisa de número “42”, que em 2013 se tornou título de um filme sobre a trajetória do atleta, o longa “42 – A História de uma Lenda”, dirigido por Brian Helgeland. Em 1950, o atleta interpretou a si próprio no clássico “A História de Jackie Robinson”, com direção de Alfred E. Green.

Embora Robinson tivesse se tornado o grande nome do Dodgers, o jogador sempre sofreu desprezo por parte dos integrantes de sua equipe, que relutavam dividir o campo com um negro. Jogadores adversários também chegaram a ameaçar abandonar seus times caso tivessem que atuar no mesmo espaço que o jogador. Ameaças de morte vinda de torcedores também eram comuns na vida do atleta.

Em 1956, depois de atuar por nove anos pelo Dodgers, Jackie Robinson se aposentou da equipe onde participou de 1.382 partidas divididas em 10 temporadas. No ano seguinte passou a se dedicar integralmente à luta pelos direitos civis dos negros.

Ao lado do ex-boxeador negro Floyd Patterson, participou em 1963 da Marcha da Liberdade, em Birmingham, no Alabama. Em 1968, como funcionário do Partido Republicano, anunciou sua saída da legenda ao dizer que o presidenciável Richard Nixon havia “se prostituído, vendendo-se aos intolerantes do sul”, conforme publicado na Folha em 13 de agosto daquele ano.

CONDECORAÇÕES E HONRARIAS

No ano de estreia no Brooklyn Dodgers, em 1947, Jackie Robinson foi eleito o “Rookie of The Year” (calouro do ano) pela MLB. Dois anos depois, em 1949, o segunda base do Dodgers foi alçado ao posto de jogador mais valioso do ano pela  Liga Nacional de Beisebol. Treze anos mais tarde, em 1962, tornou-se o primeiro atleta negro a entrar para o Baseball Hall of Fame, em Cooperstown, Nova York.

Por sua luta em favor da igualdade e pelos serviços prestados à nação,  recebeu postumamente em 1984 a maior honraria dedicada a um civil norte americano, a Medalha Presidencial da Liberdade, no governo Reagan. Depois foi condecorado com a Medalha de Ouro do Congresso americano.

No 50° aniversário de sua estreia no Brooklyn Dodgers, comemorado em 15 de abril de 1997, há 20 anos, o comissário da MLB, Bud Selig, aposentou em todas as equipes da liga a camisa “42” usada por Robinson para homenagear o ex-jogador.

Rachel Robinson, viúva do jogador Jackie Robinson, ao lado do presidente americano Bill Clinton, em cerimônia pelo 50° aniversário da estreia do jogador na MLB (Foto: 17.abr.1997 – Ruth Fremson/Associated Press)

Sete anos depois, em 15 de abril de 2004, a MBL decretou o “Jackie Robinson Day”, que desde então passou a ser comemorado todos os anos pela liga. A partir d 2009, o dia 15 de abril passou a ser a única data do ano em que era permitida a todas as equipes o uso da camisa “42” usada pelo atleta.

Em 2008, o clube New York Mets prestou uma grande homenagem a Robinson ao construir em seu novo estádio, o Citi Field, o “Jackie Robinson Rotunda”, um espaço na entrada do estádio, onde foi erguido um grande número “42” em referência à camisa usada pelo mais famoso nome do Brooklyn Dodgers.

Em uma das frases de Robinson, registrada em sua autobiografia lançada em 1972, o então atleta pelos direitos civis sintetizou com as seguintes palavras sua passagem pela Major League Baseball:  “Eu tive que lutar contra a solidão, o abuso e o conhecimento de que qualquer erro que eu cometesse seria maximizado porque eu era o único negro ali”.

Jack Robinson morreu em 27 de outubro de 1972, vitimado por um ataque cardíaco em sua casa, em Stamford, aos 53 anos. Um ano antes havia perdido o filho, Jack Robinson Jr., 24, num acidente de carro.

Torcedores no “Jackie Robinson Rotunda”, espaço construído na entrada do estádio Citi Field (Nova York) em homenagem ao camisa “42” do Brooklyn Dodgers  (Foto: 3.abr.2017/AFP)