GUGA HÁ 20 ANOS: Brasileiro bate russo e críticos de seu uniforme e avança à inédita semifinal

Por Alberto Nogueira

“É a melhor semana de minha vida”, assim o tenista Gustavo Kuerten, 66º colocado no ranking da ATP (Associação de Tenistas Profissionais), definiu o momento que estava vivendo, logo após a vitória contra o ucraniano Andrei Medvedev, em 2 de junho de 1997, que lhe rendeu a classificação às quartas de final do Aberto da França, contra o russo Yevgeny Kafelnikov (3º).

O brasileiro tinha razão. Antes, ele havia batido o austríaco Thomas Muster (5º), campeão de Roland Garros em 1995. Mas o adversário à frente seria mais difícil, pela diferença de ranking e por ser o então detentor do título do torneio francês.

Próximo desafio de Guga, Kafelnikov já tinha eliminado o tcheco Martin Damm, os franceses Guillaume Raoux e Cédric Pioline e o australiano Mark Philippoussis.

Além dos adversários, o catarinense também tinha que enfrentar a insatisfação de organizadores por causa de sua camisa amarela, seu calção azul e o lenço que usava amarrado na testa –ora azul, ora amarelo–, já que nos torneios mais tradicionais os tenistas usam uniformes com a cor branca predominando.

“Sei que muita gente não aprecia meu uniforme, mas foi o que meu patrocinador (Diadora) forneceu”. Não tenho outro”, disse Kuerten.

Naquele dia 3 de junho de 1997, na quadra central de Roland Garros, o brasileiro foi para cima do russo no primeiro set: 6 a 2.

A reação do atleta do Leste Europeu foi imediata. Nos dois sets seguintes, virou a partida com um 7/5 e um 6/2.

“Quando ganhei o terceiro set, eu achei que ia ser fácil”, disse Kafelnikov, que não contava com a força e superação de Guga, que fez 6/0 no quarto set e finalizou as duas horas e 30 minutos de jogo depois de quebrar o serviço do russo e vencer por 6/4.

Kuerten, mais uma vez, entrava para a história, agora ao se tornar o primeiro brasileiro (no masculino) a passar às semifinais de um Grand Slam (Wimbledon e Abertos da Austrália, EUA e França). Antes dele, em 1968 –início do fim da era amadora do tênis–, o tenista Thomas Koch havia caído nas quartas de final do torneio francês.

Koch, aliás, em texto para a Folha, disse estar emocionado pela vitória do compatriota e o parabenizou: “Guga mostrou categoria e cabeça fantásticas. É importante ressaltar que o mérito foi todo dele, não falha do adversário. Ele está de parabéns”.

Em entrevista à Folha, após o jogo, em um restaurante ao lado do hotel de duas estrelas em que estava hospedado, Guga atribuiu seu desempenho no Aberto da França ao seu trabalho e sua perseverança, mas fez uma confissão:

“Eu já tinha jogado contra o Kafelnikov, já conhecia o jogo dele. Mas dá um frio na barriga quando a gente entra na quadra central.”

Na semifinal, Kurten assumia o papel de tenista favorito ante o “azarão” Filip Dewulf. O Belga era o 122º da ATP e também surpreendia no torneio.

A um passo da final, o brasileiro agora teria reforços nas arquibancadas. A avó, Olga, e a mãe, Alice, viajaram à França e se juntaram ao irmão do tenista, Rafael, e a namorada, Letícia.

Ainda sobre suas roupas coloridas, ao ser perguntado por um jornalista se usaria algo mais “convencional” dali em diante, Guga foi direto: “A cueca que estou vestindo é branca”.