Há 45 anos, morria Leila Diniz, ícone do feminismo

Por Alberto Nogueira

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo.”

A declaração dada por Leila Diniz em entrevista ao jornal “O Pasquim”, em 1969, é apenas uma amostra do “furacão” que a atriz, morta em um acidente aéreo em 14 de junho de 1972, foi para sua época.

Nascida em 25 de março de 1945, em Niterói (Rio), Leila viu tudo em sua vida acontecer muito rápido. Aos 15 anos, mesmo sem ter completado o segundo grau, dava aulas para o jardim de infância. Com 17, já estava casada com o dramaturgo Domingos de Oliveira.

Sua entrada no mundo das artes ocorreu na mesma época do casamento, na peça infantil “Em Busca do Tesouro”, dirigida pelo marido.

O relacionamento durou pouco mais de dois anos, e o seu término marcou o início da trajetória da atriz na TV. Foram 12 novelas ao todo, como “Sheik de Agadir” (Globo, 1966), que lhe deu projeção nacional ao interpretar a personagem Madelon.

Leila fez sua estreia nas telonas com o filme “O Mundo Alegre de Helô” (1966)”, de Carlos Alberto de Souza Barros. No mesmo ano, ela foi protagonista do filme “Todas as Mulheres do Mundo”, que tinha a direção de seu ex-marido e trazia muitas referências da vida do antigo casal.

A atriz, que atuou em 14 filmes, achava o cinema “a glória” e fazer teatro “um saco”, como declarou a “O Pasquim” em novembro de 1969. A entrevista concedida ao periódico, no auge de seus 24 anos, é considerada histórica.

A artista, descontraída diante dos entrevistadores Sergio Cabral, Tarso de Castro e Jaguar, soltou frases célebres, proferiu palavrões em praticamente todas as respostas –estes substituídos ao longo da publicação por 70 asteriscos– e mostrou um senso de liberdade de pensamento e de ações não considerados comuns às mulheres da época, como na frase que inicia este post.

A atriz Leila Diniz (Foto: Acervo UH – 4.abr.1967/Folhapress)

Ousada, Leila respondeu sobre sexo, amor, teatro, TV e cinema. Ao falar sobre estes dois últimos, mexeu em um vespeiro em plena ditadura militar no Brasil: a censura.

“Não consigo explicar qual é a deles. Censuram filmes e não censuram programas em que as pessoas para casar são vendidas como alface, ou são esculhambadas como se fossem cocô”, disse.

Ao ser indagada por Tarso de Castro se admitia censura a uma obra de arte, ela foi direta: “De jeito nenhum. Foi o que eu perguntei aos censores. Que tipo de preparo tem uma pessoa que vai julgar e censurar uma obra de arte? Eu não teria coragem de ser censor.  Se eu fosse julgar, teria que ser inteligentérrima, cultérrima, muito humana e por dentro das coisas. Censura é ridículo, não tem sentido nenhum”.

A repercussão da entrevista foi enorme. E não demorou muito para que o regime militar tomasse atitudes a respeito. Uma delas foi o decreto nº 1.077, também conhecido como “Decreto Leila Diniz”, que instituía a censura prévia no país.

A atriz fluminense também sentiu na pele a repressão do período mais sombrio da história brasileira ao ter que se esconder da polícia política no sítio do apresentador e amigo Flávio Cavalcanti, sob a acusação de ter ajudado militares de esquerda.

Não bastasse a perseguição do regime militar, Leila não teve seu contrato renovado com a TV Globo, que alegou razões morais para tal. Com isso, foi ser jurada no programa de Cavalcanti.

Depois, a artista também passou pelo teatro de revista, em curta, mas elogiada carreira de vedete.

Em 1971, impactou a sociedade da época ao exibir, de biquíni, seu corpo grávido na praia de Ipanema. O ato despertou uma avalanche de críticas, inclusive de mulheres.

Ela esperava pela filha Janaína, fruto de seu relacionamento com o cineasta Ruy Guerra. Alguns anos depois, a atitude tornou-se símbolo da quebra de um tabu comportamental.

Foi na mesma badalada praia carioca que, dois anos antes, um beijo entre ela e Beth Faria, fotografado por Antônio Guerreiro, também causou enorme polêmica.

A atriz, perseguida pelos homens por sua beleza e julgada constantemente pela sua forma de pensar e agir, não era uma ativista do movimento feminista. Porém, seu jeito de viver a vida, livre, como queria, em uma sociedade machista, ajudou a inspirar mulheres que viriam depois dela.

A trajetória de Leila Diniz foi interrompida de forma precoce, aos 27 anos, com a queda do avião da Japão Airlines, em Nova Déli (Índia), em 1972. A atriz voltava mais cedo do Festival Internacional de Adelaide (Austrália), onde apresentou o filme “Mão Vazias” (Luiz Carlos Lacerda, 1971), para matar a saudade que estava sentindo da filha.