Há 50 anos, movimento de oposição Frente Ampla uniu Lacerda, JK e Jango, mas parou na ditadura

Por Jair dos Santos Cortecertu

Em 4 de setembro de 1967, Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, Juscelino Kubitschek, ex-presidente e senador cassado em junho de 1964,  e João Goulart, ex-presidente cassado após o golpe militar que o tirou do poder, uniram-se para constituir a Frente Ampla, principal movimento de oposição ao governo de Arthur da Costa e Silva.

A história da Frente Ampla começou no início de 1966, mas só em 27 de outubro, por meio de um manifesto publicado na “Tribuna da Imprensa” e assinado apenas por Carlos Lacerda, foi oficializada. Mesmo sem as assinaturas de Goulart e Kubitschek, o manifesto confirmava as negociações entre os políticos e Lacerda, além da participação de correligionários.

“Ao povo me dirijo para dar satisfação do que procurei fazer. Procurando por vários representantes das correntes democráticas, concordei num entendimento que, acima das pessoas e suas divergências, pudesse definir rumos para o Brasil. Por motivos que não me compete analisar, aos quais não está alheia a coação exercida pelo governo, quem usa os instrumentos do poder para dividir, com ameaças de punição e represálias, vejo-me na contingência de divulgar sozinho este manifesto a favor da união do povo”, registra declaração distribuída aos 50 repórteres nacionais e internacionais no dia do manifesto.

Como forma de enfrentamento à ditadura militar –representada pelo presidente Arthur da Costa e Silva– e promoção de abertura democrática, a Frente exigia eleições diretas, reforma partidária, desenvolvimento econômico e a adoção de uma política externa soberana.

OS MOTIVOS

Definido pelo jornal francês “Le Monde” como “derrubador de presidentes”, Carlos Lacerda, político membro da UDN (União Democrática Nacional) e jornalista proprietário do jornal “Tribuna da Imprensa”, ao tentar querer imprimir sua candidatura à Presidência do Brasil, foi um dos principais nomes da oposição aos governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Em junho de 1964, Lacerda se distanciou dos protagonistas do golpe contra João Goulart quando o Congresso Nacional aprovou a emenda que prorrogou o mandato do presidente Humberto de Alencar Castello Branco até março de 1967. Além disso, em outubro de 1965, o poder político de Lacerda e seus planos para chegar à Presidência foram ameaçados com o Ato Institucional A-2, que determinou o fim das eleições diretas e a extinção dos partidos. A derrota de Carlos Flexa Ribeiro, seu candidato à sucessão do governo da Guanabara, fez com que Carlos Lacerda mudasse sua estratégia.

Carlos Lacerda e o presidente Castelo Branco durante encontro no Rio de Janeiro, em julho de 1964.

AS ARTICULAÇÕES

No ano de 1966,  foram criados dois partidos, a  Aliança Renovadora Nacional (Arena), sigla de apoio ao regime militar, e o Movimento Democrático Nacional (MDB), coligação de oposição consentida pelos militares. Ambas as agremiações abrigaram correligionários de Carlos Lacerda. As primeiras tentativas de construção da Frente Ampla foram realizadas entre Lacerda e membros do MDB.

Para a criação da Frente Ampla, Carlos Lacerda precisava de apoio civil e distanciar sua imagem dos membros do regime militar que antes apoiava. O político iniciou as negociações com Juscelino Kubitschek , cassado em junho de 1964 e exilado em Lisboa (Portugal), e João Goulart, cassado após o golpe militar de 1964 e vivendo em Montevidéu (Uruguai).

Após articulações com o deputado federal Renato Archer, representante de JK, Lacerda se encontrou com Kubitschek em Portugal e, em 19 de novembro de 1966, os dois lançaram a “Declaração de Lisboa”, comprometendo-se com o manifesto da Frente.

“No momento em que o governador subiu ali no elevador, e entrou nesta sala, eu virei uma página da história, dessa história contemporânea que estamos vivendo. Estamos agora só olhando para a frente, para o futuro. Essa nossa união só visa uma coisa. Se nosso esforço conjunto der como resultado uma abertura democrática para o Brasil, está realizado o nosso objetivo”, disse JK, no encontro com Lacerda, em seu apartamento em Lisboa.

A adesão formal de João Goulart à Frente Ampla só viria em setembro de 1967, no Uruguai. O compromisso entre os ex-adversários passou a ser conhecido como “Pacto de Montevidéu”. Jango repudiou críticas aos avanços da Frente e à sua aliança com Carlos Lacerda, seu antigo inimigo político. “Não recuei das posições em que sempre estive e que o povo conhece, reafirmei-as. Não traí princípios, não transigi. O que fiz foi feito à luz do dia, sem subterfúgios ou escamoteações, com a tranquila certeza de estar servindo o Brasil”, afirmou João Goulart, em carta dirigida ao deputado Osvaldo Lima Filho.

Em São Paulo, Lacerda ainda tentou conquistar o apoio de outro ex-presidente, Jânio Quadros, que rejeitou qualquer possibilidade de adesão à Frente Ampla, principalmente com o proprietário da “Tribuna da Imprensa” como candidato.

O governo de Arthur da Costa e Silva –que antes acreditava que o movimento liderado por Lacerda era inviável e sem maior profundidade — e a Arena reagiram ao avanço da Frente Ampla, como revelou reportagem da Folha de 7 de setembro. “Já está sendo redigido o artigo do estatuto que irá proibir qualquer membro da Arena participe de movimentos políticos paralelos ou contrários na sua linha política.”

O deputado Rafael de Almeida Magalhães, vice-líder do governo na Câmara, declarou que a Frente Ampla era um ato de desespero político, que, em vez de ajudar, poderia se constituir numa ameaça, justamente no momento em que o governo se empenhava para democratizar pacificamente o país.
Lacerda falou sobre essa situação da Frente Ampla em artigo transcrito em seu livro “Crítica e Autocrítica”: “Os que temiam a radicalização e julgavam inconveniente ao país que as oposições se extremassem a ponto de se tornarem inconciliáveis teme hoje o oposto, isto é, o entendimento, a tolerância, a convivência. Daí a reação em face da ideia da Frente Ampla abrangendo não só correligionários, mas adversários, pois é claro que uma frente de correligionários seria de coro, e não de diálogo”.

Ainda em setembro de 1967, o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi intimado a depor no Departamento da Polícia Federal, no Estado da Guanabara. Sob rumores de confinamento e clima intimidatório, JK não respondeu às perguntas sobre sua participação nas negociações para a constituição e articulação da Frente Ampla na residência do deputado Renato Archer.

Desafiando o regime militar, a Frente Ampla, aliada ao movimento estudantil, iniciou campanha contra o governo Costa e Silva. Sob liderança de Carlos Lacerda, a Frente realizou comícios no ABC paulista, nas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, em dezembro de 1967, e em Londrina e Maringá, no Paraná, no início de abril de 1968.

Reunindo mais de 15 mil pessoas, os comícios da Frente foram ao encontro das manifestações estudantis realizadas em repúdio à violência policial que, no Rio de Janeiro, causara a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto. Edson era um dos estudantes que jantavam no restaurante do Calabouço quando o local foi invadido por policiais no final de março de 1968.

O FIM

“A Frente Ampla, através da portaria n° 177, do Ministério da Justiça, que, em 5 de abril de 1968, proíbe todas as suas manifestações, reuniões, comícios, passeatas ou quaisquer outras atividades políticas”.

Dessa forma, o governo Costa e Silva, por meio de portaria, extinguiu a  Frente Ampla e ordenou à Polícia Federal que detivesse aqueles que violassem a proibição.  Em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 cassou os direitos políticos de Carlos Lacerda e do secretário-geral da extinta Frente Ampla, Renato Archer, principal articulador de Juscelino Kubitschek.

O ex-governador Carlos Lacerda foi preso pela PM da Guanabara,  ficou na mesma cela do ator Mário Lago. Após uma semana em greve de fome, Lacerda conseguiu ser libertado. Após tantas tentativas frustradas, Carlos Lacerda voltou a se dedicar ao jornalismo.

 

 

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