OUTROS ROCK IN RIO: Vaias, garrafadas, micos, nudes e polêmicas fizeram parte do festival no país

Por Alberto Nogueira

Pouco antes do primeiro Rock in Rio, em 1985, circulavam boatos de uma profecia de Nostradamus sobre um grande encontro de jovens na América do Sul que terminaria em tragédia, com a morte de milhares de pessoas. Contra esse burburinho, a organização do megafestival deixou a cargo de um astrólogo a missão de tranquilizar a todos.

Boato dispersado, o evento foi realizado sem maiores problemas. Ao menos para o público…

Em seu debute, o festival trouxe uma série de bandas internacionais de peso.  Na estreia dos shows, em 11 de janeiro de 1985, dia em que tocariam Whitesnake, Iron Maiden e Queen, a missão de dar início ao festival foi dos brasileiros Ney Matogrosso, Erasmo Carlos e Pepeu Gomes e Baby Consuelo.

O lineup do dia deixava evidente a discrepância de estilos musicais das atrações. O próprio rock do Queen, do Whitesnake (hard rock) e do Iron Maiden (heavy metal) continha diferenças, mas que não se comparavam ao abismo que separava os estilos musicais deles com os dos músicos brasileiros.

Ney Matogrosso abriu o evento e foi alvo de caretas e vaias por parte do público. Porém nada que comprometesse sua apresentação. Já Erasmo Carlos, o Tremendão, sentiu a fúria roqueira de cerca de 80 mil pessoas presentes na Arena Jacarepaguá –segundo a Folha— ao tocar “Sexo Frágil”. O cantor chegou a dizer em entrevistas que descobriu que aquela “nova tribo” não gostava da Jovem Guarda. Já Baby Consuelo e Pepeu Gomes, com sua guitarra, passaram praticamente ilesos.

Bombeiros jogam água para refrescar o público durante o primeiro Rock in Rio, em 1985 (Foto: Jorge Cecílio/Folhapress)

Paula Toller, do Kid Abelha, também sofreu com a rejeição. No quinto dia de festival, quando tocariam Scorpions e AC/DC, a vocalista perdeu a paciência e mostrou o dedo do meio para a plateia.

Lobão foi a vítima da segunda edição do Rock in Rio, em 1991, realizada no estádio do Maracanã.

Considerado à época um dos bons nomes do rock nacional, o músico teve a ingrata missão de tocar no mesmo dia que bandas de heavy metal, como Sepultura, Megadeath e Judas Priest –o Guns N’ Roses encerraria a noite.

“Vai tomar no cu, seus babacas” (sic), disse o cantor com o dedo médio em riste, devido às vaias, aos xingamentos e aos objetos atirados pela galera que o assistia. O show não durou dez minutos. Ao sair do palco, o músico antecipou seu gran finale ao pedir para a bateria da escola de samba Mangueira entrar no palco. Sobrou para eles, também.

Dez anos depois, foi a vez de Carlinhos Brown sentir a ira do metal. Ou melhor, do plástico das garrafas jogadas pelo público. Mais polido do que Lobão, o cantor baiano interrompeu o show e disse: “Pode jogar o que quiser, porque eu sou da paz e nada me atinge”. O discurso pacifista não funcionou.

Mas não foram só os músicos brasileiros que sofreram com as vaias.

Na edição de 2001, a cantora norte-americana Britney Spears decepcionou seu público na noite mais teen do Rock in Rio. Adolescentes –não metaleiros– criticaram e vaiaram o playback descarado da artista, assim como as incessantes paradas no show para a troca de roupa e a ideia de aparecer enrolada numa bandeira dos EUA.

Para piorar a situação da estrela pop, um de seus “pitis” com sua equipe durante os intervalos foi captado por um microfone aberto e foi parar no Napster (espécie de avô do Spotify).

MICOS E MEMES

A cantora brasileira Ivete Sangalo –artista que mais vezes se apresentou no Rock in Rio– colocou o público jovem para pular e cantar suas músicas em 2013. Animada com a euforia de seus fãs, Ivete resolveu ter seu momento rock, cantando “Love of My Life”, do Queen. Há quem tenha gostado, mas muitos torceram o nariz, como o jornalista da Folha Thales de Menezes.

“Desde o primeiro dia do evento, a versão constrangedora que Ivete Sangalo fez para ‘Love of My Life’, do Queen, despontava como a grande lambança de 2013. Mas, no último sábado, o americano e desconhecido Phillip Phillips conseguiu superá-la com a versão mais sem graça possível de ‘Thriller’, de Michael Jackson”, escreveu Menezes em sua avaliação do evento.

Em 2011, em sua terceira vez no festival, Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses –na época o único da formação original–, subiu ao palco de baixo de chuva forte, usando chapéu sobre sua tradicional bandana e uma capa amarela grossa. Meio fora de forma, nem parecia a mesma pessoa do show de 1991, auge do grupo.

Não foi só o modelito de Axl que não agradou, a banda num todo não foi bem. Apesar de tocar alguns clássicos, como “Sweet Child O’Mine” e “Welcome to the Jungle”, o conjunto musical desfilou muitas músicas de seu último álbum, “Chinese Democracy” (2008), abominado pela crítica.

Falando ainda sobre vestes esquisitas, em 2015 a cantora Rihanna fez um show curto devido ao seu atraso, mas empolgante. Só que a roupa da artista pop acabou chamando tanta atenção que virou meme. Ela foi comparada a Axl e ao personagem Walter White, do seriado “Breaking Bad”, entre outras zoeiras.

Axl em 2011

 

Walter White, de Breaking Bad

 

Cataratas do Niáguara em Pica-pau

 

Capa de chuva

 

MANDA NUDES

Quando as roupas não foram o centro das atenções no Rock in Rio, a ausência delas é que causou furor.

A cantora Cássia Elller fez um show bem rock and roll para o público em 2001, mostrando seus maiores sucessos, covers e… Os seios!

Durante versão de “Come Together”, dos Beatles, Cássia levou os fãs ao delírio ao levantar a blusa.

O gesto da cantora, morta em 29 de dezembro daquele mesmo ano, foi repetido durante show em sua homenagem, na edição de 2015, quando Tacy de Campos –que a interpretava num musical teatral– levantou a camiseta, acompanhada por Zélia Duncan.

Só que no Rock in Rio de 2001 teve muito mais do que topless de Cássia Eller.

O baixista Nick Oliveri, do conjunto musical Queens of Stone Age, durante show em que aparece nu no Rock in Rio 2001

Na época ainda pouco conhecidos pelo público brasileiro, os americanos do Queens of the Stone Age tinham a missão de não virarem o Carlinhos Brown ou o Lobão da vez num dia em que tocariam para o público metaleiro de Sepultura e Iron Maiden.

Mesmo com problemas no som e toda a animosidade da plateia, a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Josh Homme fez boa apresentação. O baixista Nick Oliveri estava tão à vontade que tocava completamente nu.

A atitude despertou a ira do juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude, Siro Darlan, que do camarote vip mandou que prendessem o músico em flagrante.

Uma verdadeira operação de guerra foi armada para prender o peladão. Depois de muita confusão e negociação entre empresário, organização do evento e comissários do Juizado de Menores, o baixista, já vestido, pôde terminar a apresentação antes de ser conduzido até a van que o levaria para o Juizado.

“No meu país, isso não é problema”, disse Oliveri. “Todo mundo aparece nu na TV aqui [no Brasil] no Carnaval.” “Peço desculpas ao povo brasileiro”, disse ao juiz. Darlan o repreendeu e o liberou na sequência.

O baixista levou o “prêmio” de melhor figurino do Rock in Rio 3, segundo o caderno “Ilustrada”, da Folha.

Em 2015, já consolidado como um grupo de rock de respeito e sem Nick Oliveri na banda, o QOTSA voltou ao festival e foi saudado pelo público brasileiro com uma porção de tetas desinibidas e saltitantes.

POLÊMICA CERVEJEIRA

O vocalista Bruce Dickinson, do Iron Maiden, durante o lançamento da cerveja Trooper (Foto: Divulgação)

Às 2h do dia 23 de setembro de 2013, o Iron Maiden encerrava o Rock in Rio com um grande show. Até aí, tudo normal, já que a banda tem um repertório enorme de hits e uma legião de fãs espalhados por todo o planeta.

Ainda no palco, o vocalista Bruce Dickinson abriu uma cerveja para se refrescar. “A cerveja de vocês é tão ruim que tive que trazer a minha”, disse o cantor, bem-humorado, mostrando o rótulo e o endereço do site da Trooper, marca da bebida alcoólica da banda.

O problema é que a Heineken pagou R$ 23 milhões pela exclusividade de vender long necks a R$ 10 no evento. Procurada na época, a cervejaria disse que esperaria por detalhes para decidir quais medidas tomar.

A propaganda de Dickinson deu tão certo que o site da cerveja ficou inacessível em plena madrugada devido à quantidade de pessoas que tentavam acessá-lo.

Ainda bem que a suposta profecia de Nostradamus sobre uma grande tragédia durante a realização do primeiro Rock in Rio não se concretizou. Agora, que venha a edição 2017…

 

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