OUTROS ROCK IN RIO: Boicote uniu seis bandas contra o festival, mas não mudou cenário da música

Por Cristiano Cipriano Pombo

Deu ruim! Mas não foi tanto assim!

Num dos momentos mais delicados do Rock in Rio, em 2001, o clima bélico entre organizadores artistas brasileiros vazou para o público. Para ser mais preciso, deixou este último sem o melhor da cena pop brasileira nos anos 90.

O entrevero teve seu estopim quando a banda O Rappa (foto acima) foi informada de que teria o horário de apresentação alterado (seria antecipado para as 18h) e não poderia fazer passagem de som antes do show.

O fato revoltou a banda, que se rebelou contra a situação, questionando se o mesmo tratamento seria empregado com os artistas estrangeiros, no caso Guns N’Roses, Sting e James Taylor.

A organização não aceitou o protesto e, em contato com o empresário da banda, convidou todos a deixarem o festival. E O Rappa assim o fez.

O que a organização do Rock in Rio não esperava, porém, é que uma semana depois, em 31 de outubro de 2000, outras cinco bandas nacionais anunciariam sua desistência do Rock in Rio em solidariedade ao Rappa.

“Em decorrência da má condução das negociações entre a organização do festival Rock in Rio – Por Um Mundo Melhor, vimos por meio desta informar, a quem possa interessar, o desligamento de Shank, Raimundos, Jota Quest, Cidade Negra e Charlie Brown Jr…”

Além do tratamento dispensado ao Rappa, os artistas brasileiros criticavam o baixo cachê destinado aos cantores nacionais, que chegavam à cifra de R$ 20 mil, enquanto atrações estrangeiras recebiam R$ 150 mil.

Diante da dimensão que o caso tomou, a organização informou que as atrações estavam agindo como “grevistas sem causa” e que o protesto contra tocar à tarde (por causa da produção de iluminação) não se justificava devido ao formato dos palcos.

O empresário Roberto Medina ainda tentou fazer com que o Rappa recuasse de sua decisão, mas foi em vão. Assim, o estrago já estava feito.

O imbróglio teve consequências. Um deles foi o atraso na divulgação das atrações do festival.

E piorou, já que, ao mesmo tempo em que perdia toda a evolução do pop brasileiro nos anos 90, o festival ampliava o vexame ao deixar de fora bandas jovens, importantes e politicamente atuantes, como apontou Pedro Alexandre Sanches em análise na Folha em 23 de janeiro de 2001, quando lamentou a ausência de Racionais MC’s, Planet Hemp, Mundo Livre S/A e Nação Zumbi.

O cenário, entretanto, não foi de todo desastroso. Já que o público foi caloroso e viu se destacarem Max de Castro, Wilson Simoninha, Wilson Sideral, AfroReggae, Paulinho Moska, Pedro Mariano, Tom Zé, Luiz Melodia e, principalmente, Jair Rodrigues.

Quanto ao grupo das seis bandas, menos de uma semana após o Rock in Rio, estavam juntas no Planeta Atlântida, em Santa Catarina, e, em seguida –pelo menos a maioria–, no Festival de Verão de Salvador.

Assim, o boicote ao Rock in Rio 2001 serviu para unir bandas, mas, infelizmente, não mudou o cenário cultural da música no país.

[+] Conheça o site do Banco de Dados
http://www1.folha.uol.com.br/banco-de-dados/

[+] Siga-nos no Twitter
https://twitter.com/BD_Folha

[+] Curta a página Saiu no NP
https://www.facebook.com/Saiu-no-NP-168161556714765/

[+] Curta o Acervo Folha no Facebook
https://www.facebook.com/acervofolha/