Há 30 anos, assassinato brutal interrompeu vida do jamaicano Peter Tosh, mas sua obra ainda ecoa

Por Jair dos Santos Cortecertu

“Minhas músicas vêm da experiência pessoal e fraternal, o que significa comunidade, fraternidade e nacionalidade. Faço música para conscientizar as pessoas.”

Frases como esta, proferida por Peter Tosh, ícone do reggae assassinado no dia 11 de setembro de 1987, são frequentes no mundo da música engajada, mas estão diluídas no mercado musical –hoje dominado pelas playlists em plataformas de streaming– e ganham outras formas para conquistar um público sedento por diversão. Como a obra de Tosh registra, falar sobre desigualdade e direitos humanos não combina com o clima festeiro dos artistas da música pop daquela época e de hoje.

A leitura que Tosh fazia da música já identificava o risco de que o compromisso social pudesse ser usado para dar lucro às empresas que estão de olho na segmentação do mercado e nas exigências de grupos sociais historicamente excluídos.

Hoje, o lugar de fala, a discussão sobre empoderamento e o questionamento de privilégios passaram a entrar na pauta das agências publicitárias e de estratégias de marketing. Em sua época, Tosh tinha ciência de que as empresas apenas levavam em conta o poder de consumo das diferentes camadas sociais, o lugar de cada indivíduo na economia, e não a crítica social que ele encampou.

A carreira solo de Peter Tosh foi iniciada na segunda metade da década de 1970, após sua saída do The Wailers, grupo que fundou com Bob Marley, e foi repleta de críticas a estes lugares determinados pela economia e pelo racismo que os sustentam. Com espiritualidade, ele marcou presença na luta por direitos iguais e emancipação do povo negro da Jamaica e de cada canto do planeta.

As posições políticas de Peter Tosh causaram perseguições e outros problemas ao músico, mas o astro do reggae tinha a alienação do seu povo na mira. “Toda a forma de vitimização é universal, não só na Jamaica. Mas, porque eu vivo na Jamaica e vi muitos jovens se tornarem vítimas do sistema, eu sei que é universal. O Pai me dá a inspiração para que eu possa despertar o sono e a mentalidade das pessoas.”

Com a adolescência vivida na favela de Trenchtown, em Kingston (Jamaica), Winston Hubert McIntosh, jovem gênio de temperamento difícil, sentiu na pele as diferenças que foram criadas para os negros dos guetos jamaicanos. Essa experiência e o tempo transformaram Peter Tosh num artista altamente politizado. Do ska ao reggae, Tosh passou por diferentes fases destes gêneros musicais até encontrar o rastafarianismo, movimento fundamental para o cunho revolucionário de suas canções.

Em seu primeiro disco, “Legalize It”, lançado em 1976, ele criticou a política antidrogas e o sistema prisional que encarcera jovens negros pelo uso da maconha, questões que ainda geram intensos debates.

A PAZ QUE EU NÃO QUERO

Em “Equal Rigths”, música de 1977 que dá título ao seu segundo disco, Peter Tosh protestou contra a pacificação proposta pelos poderosos: “Eu não quero nenhuma paz, um homem precisa de direitos iguais e justiça”. Durante entrevista para a revista “Pulse”, em dezembro de 1983, Tosh disse que não brincava com as palavras em suas músicas.

“Toda vez que eu vejo a palavra paz…você sabe onde vejo isso? No cemitério: aqui está o corpo de fulano. Que ele descanse em paz”, disse Tosh, autointitulado  “Stepping Razor”, algo como ser barra pesada. “Se você quer viver bem, trate-me bem”, registra a canção “Stepping razor”.

Comparada com os nossos dias, a realidade tratada pelo cantor e ativista –que é comparado com Malcolm X– ultrapassa o tempo e o espaço. Apesar dos avanços desde o final do século 20, a população negra ainda tem seus direitos minados.

Segundo a Anistia Internacional, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. No mercado de trabalho, de acordo com reportagem da Folha, o impacto da atual recessão econômica é maior sobre negros do que sobre brancos porque eles estão concentrados no setor informal, mais vulnerável a oscilações, mas também, segundo especialistas, pela sobrevivência de uma visão racista no mercado de trabalho, à qual profissionais qualificados no setor formal não estão imunes.

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AINDA SOMOS OS MESMOS

Ainda que ficasse eternizado pelo hit “Johnny Be Good”, Peter Tosh sempre fez questão de marcar sua posição. Um exemplo foi quando esteve em São Paulo, no dia 27 de abril de 1980, para participar do 2º Festival Internacional de Jazz da cidade.

Naquela ocasião, em que estavam vivos a Guerra Fria e o apartheid na África do Sul,  o fundador do The Wailers e primeiro artista a assinar com a gravadora do Rolling Stones, a Rolling Stone Records, declarou: “Minha música guarda a marca da opressão que vivi e ainda vivo”.

Esse ativismo faz com que Tosh, autor do hino “Get up, stand up”, seja combustível ideológico para movimentos como Black Lives Matter, nos EUA, e Reaja ou Será Morto, no Brasil, que enfrentam o racismo e a violência contra jovens negros promovida pela polícia.

Assim como Malcolm-X, Peter Tosh sempre soube que o racismo deveria ser desconstruído em qualquer que fosse o país ou a época, como se previsse os fatos recentes, como o do dia 11 de agosto de 2017, quando representantes da supremacia branca mostraram sua face em Charlottesville, Virgínia (EUA), e o vocabulário, em especial nas redes sociais, adotou o termo “supremacia branca”.

Mais uma prova de que Tosh estava tão atuante em sua época como tinha visão do que poderia nos esperar no futuro foi o disco “No Nuclear War”, lançado alguns meses antes de sua morte.

Nele, o jamaicano realizou protesto contra as grandes potências mundiais e suas ameaças armamentistas. A canção que dá nome ao álbum poderia estar nas playlists de Donald Trump e Kim Jong-un.

 

 

REGISTROS

O livro “Steppin’ Razor: The Life of Peter Tosh” e o documentário “Stepping Razor – Red X”, com base em seus diários pessoais gravados, as fitas Red X  e entrevistas de arquivo abordam o pensamento de Peter Tosh, sua vida conturbada e morte trágica.

Em 1987, o músico foi assassinado por três homens em uma tentativa de assalto à  sua casa. Cinco pessoas que estavam na residência ficaram feridas, entre elas, a mulher de Tosh. Dennis “Leppo” Lobban, conhecido do cantor, foi acusado, julgado e condenado à pena de morte. Os outros dois criminosos não foram encontrados. Em 1995, a sentença de Dennis “Leppo” Lobban foi alterada para prisão perpétua.

NOVAS GERAÇÕES

No dia 9 de fevereiro de 2017, quase trinta anos após a morte do revolucionário do reggae, seu filho Andrew Tosh retornou ao Brasil com a turnê Legalize, “para novamente homenagear o pai”. “Ele foi uma pessoa importante e deve ser apresentado para as novas gerações”, disse Andrew.

DISCOGRAFIA

Em sua carreira solo, Peter Tosh lançou sete discos de estúdio e um ao vivo. Com o passar do tempo, outros discos e remasterizações foram apresentados ao público, mas são seus primeiros trabalhos que sintetizam sua obra e sua luta política.

Legalize It (1976)

Equal Rights (1977)

Bush Doctor (1978)

Mystic Man (1979)

Wanted Dread And Alive (1981)

Mama Africa (1983)

Captured Live (1984)

No Nuclear War (1987)

Conheça os trabalhos de Peter Tosh no seu site oficial.

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