OUTROS ROCK IN RIO: Corrida presidencial entre Maluf e Tancredo invadiu festival por jovens

Por Jair dos Santos Cortecertu

Todos os festivais de rock carregam em sua história uma gama de acontecimentos particulares e momentos que ficam na memória e voltam ao debate a cada nova edição. Seguindo a regra, o Rock in Rio também colecionou seus causos.

Em janeiro de 1985, nos dias que antecederam o primeiro megaevento artístico realizado no país, dois políticos dividiram as atenções com as estrelas da música escaladas para o festival. Tancredo Neves e Paulo Maluf, candidatos à Presidência numa eleição indireta que representou a segunda fase de transição democrática no país, protagonizaram intenso debate sobre a juventude e a legitimidade do festival organizado pelo empresário Roberto Medina.

Em 2 de janeiro, Tancredo condenou a realização do Rock in Rio. “A minha juventude, a juventude por quem eu tenho apreço, respeito e admiração, não é a do Rock in Rio […] Admiro a do estudo, do trabalho, do sofrimento, da luta.” Ao ser questionado se seu neto, Aécio Neves estaria no festival para levar uma mensagem do candidato aos participantes da festa, Tancredo, ex-governador de Minas Gerais, negou. “Não é verdade. Não tem fundamento. Não estarei presente e não farei nenhuma mensagem.”

Paulo Maluf, deputado do PDS, entrou no debate e criticou as afirmações do adversário político. “Foi uma agressão à juventude. A juventude de Paulo Maluf também é a juventude dos roqueiros, dos estudantes que estão em férias e merecem gastar um pouco das suas energias para voltar ao próximo ano letivo.”

Maluf também afirmou, mesmo sabendo que Roberto Medina não o apoiava, que o Rock in Rio iria trazer dividendos para o Brasil, com o turismo e divulgação da música brasileira no exterior. “Portanto, o outro candidato não pode ficar agredindo esta festa da juventude do rock.”

A reação de Tancredo veio no dia 5 de janeiro. O candidato da Aliança Democrática rebateu as críticas de Maluf e, para provar que também gostava dos roqueiros, recebeu em sua casa, em Brasília, o empresário Roberto Medina para conversar exclusivamente sobre o festival. “Ele vai falar toda a verdade sobre a geração do rock”, anunciou Medina. Reportagem da Folha conta que a votação no colégio eleitoral, no dia 15 de janeiro, seria acompanhada pela organização do evento e o novo presidente seria anunciado no Rock in Rio.

Apesar das declarações de apoio do candidato Paulo Maluf, a juventude do rock mostrou que preferia Tancredo Neves. “O que a gente quer é votar, morou? Mas já que não dá, o negócio tancredear”, disse Kadu Moliterno, apresentador oficial do Rock in Rio, no dia anterior ao encerramento do festival. “A tal profecia de Nostradamus é um golpe de Estado que o Maluf está armando pra cima do Tancredo”, brincou o estudante Alaor Pimenta, 23, que afirmou não ter afinidade com nenhum dos dois políticos. Já o bancário Carlos Moraes da Fonseca, 23, tinha o candidato da Aliança Democrática como um ótimo candidato.

Foi de São Paulo que saiu o voto número 344 – do deputado João Cunha (PMDB) – que deu vitória ao representante da Aliança Democrática. A notícia se espalhou na Cidade do Rock, local construído exclusivamente para o Rock in Rio. Reportagem da enviada especial para o Rio de Janeiro, Norma Couri, registra as manifestações:

“De repente, cada brasileiro presente ao Rock in Rio fez seu pedido ao presidente Tancredo: “Mais chances para estudar”, gritava um, “menos corrupção”, pedia outro, “moratória, abaixo o FMI”, deseja um terceiro, “ajuda aos famintos do Nordeste”, arriscava uma roqueira.

No palco, Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens entrou em cena carregando uma bandeira brasileira. Eduardo Dusek gritou: “Muda Brasil”. Na voz de Cazuza, o grupo Barão Vermelho mudou o refrão da música “Pro dia nascer feliz” para “Pro Brasil nascer feliz”. Até os alemães da banda Scorpions levaram uma bandeira brasileira ao palco e a jogaram para a platéia, sob os gritos de “Brasil, Brasil”.

No artigo “Rockarta a vovô Tancredo”, publicado no dia 3 de fevereiro, Valdir Zwetsch escreveu: “Vovô Tancredo, pena que o senhor não foi ao Rock in Rio […] No dia 15, Rockópolis vibrou com sua “eleição”! E, na verdade, vovô – e aqui vai um puxão de orelha – o senhor nem merecia. Onde já se viu dizer aquelas bobagens de ‘minha juventude não é a juventude do rock’… Qual é a sua, vovô?”

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