Há 40 anos, polícia torturou e matou Steve Biko, mas não evitou que ele inspirasse até Mandela

Por Jair dos Santos Cortecertu

“A história requereu os esforços de Steve Biko numa época em que o pulso político do nosso povo tinha enfraquecido pelos desterros, pelas prisões, os exílios, os assassinatos e as expulsões. A repressão tinha varrido o país de toda organização popular visível. Mas, a cada viragem da história, o apartheid estava destinado a gerar a resistência, estava votado a trazer à vida as forças que iriam garantir a sua morte”, recordou Nelson Mandela, presidente da África do Sul, na celebração do 20º aniversário da morte Steve Biko, em 1997, na cidade de Londres.

Foi na prisão de Robben Island que Mandela, o prisioneiro número 466/64, condenado à prisão perpétua, ouviu notícias sobre o líder estudantil e ativista anti-apartheid assassinado em 12 de setembro de 1977, aos 30 anos. Steve Biko é conhecido por ser um dos principais idealizadores do movimento de Consciência Negra, que contrapõe o processo de desumanização imposto aos negros.

“A essência da Consciência Negra é a conscientização por parte do negro da necessidade de se unir a seus irmãos em torno da causa de sua opressão: a negritude de sua pele”, explica Steve Biko no livro “Escrevo O Que Quero”, que reúne panfletos e artigos do ativista sobre a situação do negro na África do Sul.

“Escrevo O Que Quero” foi lançado no Brasil no início da década de 1990 e teve prefácio assinado pela então deputada federal Benedita da Silva. A luta de Steve Biko contra o apartheid, que aterrorizou os negros de seu país de 1948 até 1994, influenciou movimentos de emancipação em todo o mundo e teve forte presença no discurso do movimento negro brasileiro.

“Lá, como entre nós, Biko explicita a importância da luta ideológica. É necessário construir heróis, instituir datas. Opor os Zumbis aos Domingos Jorge Velhos, os vinte de novembros aos treze de maios. É preciso contrapor o nosso sentido de comunidade à impessoalidade do mundo ocidental”, registrou Benedita da Silva.

O ativista Steve Biko, que foi morto após ser torturado pela polícia sul-africana (Crédito: Associated Press

É sobre esse sentido de comunidade que o discurso de Steve Biko conquista a atenção de jovens militantes nos dias atuais. Em mais uma passagem de seu livro, Biko questionou: “Talvez seja conveniente começar examinando por que é preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criamos”. Esse questionamento foi alicerce de sua militância.

VIDA DE LUTA

Nascido em 18 de dezembro de 1946, Steve Biko foi cursar medicina na Universidade de Natal (África do Sul), aos 19 anos. Em 1969, aos 22 anos, fundou a Organização dos Estudantes Sul-Africanos. Já no ano de 1972, foi cofundador da Black People’s Convention, entidade que trabalhava em projetos de desenvolvimento social nos arredores de Durban.

Em 1973, expulso da universidade de medicina por causa de sua militância, Biko foi proibido de sair da cidade pelo governo e não poderia comunicar-se com mais de uma pessoa por vez, sanção que tentava impossibilitar seus discursos. Entretanto ele continuou na sua missão pela emancipação dos negros do seu país. O ativista foi preso quatro vezes entre 1975 e 1977.

Steve foi reconhecido em um bloqueio rodoviário organizado pela polícia sul-africana, em 6 de setembro de 1977. Levado sob custódia, foi torturado. Em 12 de setembro, a polícia divulgou sua morte como sendo consequência de uma greve de fome, o que a autópsia revelou ser mentira. Steve Biko morreu de hemorragia cerebral após espancamento.

O jornalista Donald Woods, amigo de Steve Biko, revelou fotos dos ferimentos de Biko no necrotério. A notícia correu pelo país, revoltando a população há anos excluída. O funeral de Steve Biko foi assistido por milhares de pessoas, incluindo autoridades internacionais.

Um ano depois, a Justiça sul-africana decidiu que não existiam provas suficientes para acusar os policiais de homicídio. Em outubro de 2003, autoridades do Ministério Público Sul-Africano, ao alegarem falta de provas e testemunhas, resolveram não processar os cinco policiais envolvidos no assassinato de Biko. Também afirmaram que, na possibilidade de a morte ter acontecido em 1977, o crime teria prescrito.

Cena do filme “Um Grito de Liberdade”, do diretor Richard Attenborough. (Foto: Divulgação)

A história de Steve Biko foi contada livro “Vida e Morte de Steve Biko”, do jornalista Donald Woods, que morreu de câncer em 2001. Sua luta foi retratada nas canções “Biko´s Kindred Lament”, da banda Steel Pulse, “Steve Biko”, do grupo de rap A Tribe Called Quest, e “Biko”, do cantor Peter Gabriel. Em 1987, o livro de Donald Woods foi usado como base para o filme “Um Grito de Liberdade” (Cry Freedom). O trabalho foi dirigido por Richard Attenborough e teve Denzel Washington no papel do protagonista. A música de Peter Gabriel foi utilizada na trilha sonora.

Em julho de 1988, a polícia sul-africana apreendeu cópias do filme “Um Grito de Liberdade”, mesmo com a aprovação de sua exibição pelo conselho de censura da África do Sul.

“A vida e morte de Steve Biko, seguida de uma falsa investigação foi uma tragédia. Nada poderia vir a mudar o fato aterrador de que um dos homens mais brilhantes, carismáticos, inteligentes e fascinantes que já nasceram na África do Sul foi assassinado sob custódia policial”, disse o Richard Attenborough, que também dirigiu o filme “Gandhi”, em reportagem especial na Folha do dia 25 de fevereiro de 1988.

“Quando tento dormir à noite, só consigo sonhar em vermelho. O mundo lá fora é branco e preto, com somente uma cor morta”, cantou Gabriel em “Biko”.

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