Há 50 anos, morreu Varian Fry, que se opôs ao nazismo e se tornou o Schindler dos intelectuais

Por Jair dos Santos Cortecertu

No dia 13 de setembro de 1967, morreu o jornalista e professor Varian Fry, americano que enfrentou o nazismo e, nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, criou um sistema clandestino financeiro e de comunicação que salvou milhares de pessoas da perseguição nazista na França ocupada.

Sob o governo Vichy, nos anos 1940, a França decidiu prender e extraditar para a Alemanha todas as pessoas que se opunham ao regime de Adolf Hitler e que, oriundas de diferentes partes da Europa, se refugiaram no país. Com maioria formada por judeus, parte da massa refugiada e declarada inimiga do nazismo tinha artistas, intelectuais e cientistas.

A lista de Varian Fry, que, sem nenhum treinamento militar ou experiência em espionagem, chegou a Marselha, no sul da França, em 1940, incluía o artista plástico Marc Chagall, o romancista Henrich Mann, irmão de Thomas Mann, a filósofa Hannah Arendt, o médico Otto Meyerhoof e o poeta Franz Werfel, entre outros.

Segundo Donald Carrol, em reportagem publicada na Folha, “durante os 12 meses seguintes, o jovem magro, de óculos e aparência de almofadinha, seria responsável por uma das mais audaciosas operações de resgate realizadas durante a Segunda Guerra Mundial –o resgate e transplante em massa da ‘intelligentsia’ de um continente a outro”.

Fry nasceu em 1907, filho de um protestante liberal e bem-sucedido corretor da Bolsa de Valores de Nova York. Em 1926, foi estudar em Havard, onde, no último ano da universidade, conheceu Eilleen Hughs, editora do “Atlantic Monthly”. Casaram-se em 1931.

Varian Fry se reúne com André Breton, André Masson e Jacqueline Breton em Marselha, em 1941 (Crédito: US Holocaust Memorial Museum/Reprodução)

Aos 27 anos, em 1935, tornou-se editor da “The Living Age”, importante revista de assuntos internacionais. Esse episódio foi o ponto de partida para a missão de resgate de Varian Fry.

Na condição de editor, Fry teve que ir a Berlim para ver o que estava acontecendo sob o Terceiro Reich. Ao presenciar e sentir a realidade do regime nazista, Varian Fry voltou aos EUA para alertar o governo sobre as intenções de Adolf Hitler. Seu aviso não foi levado a sério.

Após a invasão da França pelos nazistas, em 1939, e a rendição da França, em 1940, Varian Fry decidiu ajudar os perseguidos pelo regime de Hitler. Primeiro, convenceu o Departamento de Estado dos EUA a lhe fornecer um passaporte, depois persuadiu a ACM (Associação Cristã de Moços) a lhe dar uma carta de apresentação identificando-o como integrante de uma organização humanitária.

No mês de agosto de 1940, aos 32 anos, Fry chegou a Marselha, com duas malas de roupas, uma lista com centenas de nomes e US$ 3.000 em dinheiro, presos à perna com fita adesiva. O dinheiro foi arrecadado pelo Comitê de Resgate de Emergência e, com o apoio de Eleanor Roosevelt, Varian Fry conseguiu 200 vistos especiais.

Ao se deparar com uma realidade muito mais complexa, milhares –e não apenas 200 refugiados– precisavam de ajuda, e não ter o apoio das autoridades americanas na França, Varian Fry criou uma rede clandestina de fuga e, com ajuda de Albert Hisrshman, economista de renome, entre outros colaboradores, conseguiu mais US$ 3.000 para financiar a rota de fuga via Lisboa, em Portugal. Documentos foram comprados no mercado negro e outros foram falsificados para possibilitar o resgate dos perseguidos pelos nazistas.

Nos 13 meses em que permaneceu na França, com o apoio de seu grupo e rede clandestina, Fry salvou milhares de pessoas. O jornalista e professor, considerado o “Schindler” dos intelectuais, foi preso em setembro de 1941 e expulso da França, com total anuência da Embaixada dos EUA. “Não podemos apoiar um cidadão norte-americano que está ajudando as pessoas a infringir a lei francesa”, disse um diplomata ao próprio Varian Fry.

Em setembro de 1967, aos 59 anos, Fry foi encontrado morto em sua casa, em Easton, Connecticut (EUA), vítima de hemorragia cerebral, como registrou a Folha do dia 15 de setembro. Em seus últimos dias, o professor dava aulas numa faculdade de Connecticut, além de figurar no conselho editorial da revista “New Republic”.

O professor de física da Universidade de Stanford, Walter Meyerhof (1922-2006), filho de Otto Meyerhof, que com a ajuda de Varian escapou da França, criou a Fundação Varian Fry, instituição educativa, em 1997.

O filme “Varian’s War” (“O Herói Esquecido”), de 2001, protagonizado por William Hurt, conta a história da missão humanitária liderada por Varian Fry.