Há 35 anos, Mônaco viu partir Grace Kelly, a atriz que ‘foi princesa desde o momento em que nasceu’

Por EDGAR SILVA

Há 35 anos morria em Montecarlo a atriz e princesa Grace Kelly. Um dia antes, dirigindo a caminho de Mônaco, voltando da quinta de Rocagel, propriedade do príncipe Rainier 3º, Grace teve um mal súbito e desmaiou. Seu carro se desgovernou e caiu em um precipício.

Mundialmente conhecida por sua beleza e seus papéis em clássicos do cinema, nasceu em 12 de novembro de 1929 na cidade da Filadélfia (EUA), filha de John B. Kelly, irlandês, e Margareth Majer Kelly, alemã. Seus tios Walter e Georges Kelly, ligados ao teatro e ao cinema, inspiraram-na a realizar o sonho de ser atriz.

No final da década de 1940, matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas, em Nova York, e, para se sustentar, trabalhou como modelo, morando num pensionato de moças.

“Eu me rebelei contra a minha família e fui para Nova York para descobrir quem eu era e quem não era”, declarou ao biógrafo Donald Spoto.

Em 1948, fez sua primeira peça na Broadway, “The Father” (O Pai). Foi vista por Edith Van Cleve, agente teatral que se ofereceu para trabalhar com ela.

No mesmo ano completou o curso na academia estrelando a peça “The Philadelphia Story”, de Philip Barry, que mais tarde seria transposta para a tela no filme “Alta Sociedade” –o último de seus 11 filmes– ao lado de Frank Sinatra e Bing Crosby.

É o caso da parceria com o diretor Alfred Hitchcock, com quem trabalhou em “Disque M para Matar” e “Janela Indiscreta”, ambos de 1954, e “Ladrão de Casaca”, de 1955.

James Stewart e Grace Kelly em cena do filme “Janela Indiscreta”, de 1954, dirigido por Alfred Hitchcock (Foto: Divulgação)

Sobre ter trabalhado com o cineasta britânico, confessou: “Hitchcock me ensinou tudo sobre cinema. Foi graças a ele que entendi que as cenas de assassinato deveriam ser filmadas como cenas de amor e cenas de amor como cenas de assassinato”.

Em meio à profusão de séries de TV em que trabalhou (18 ao todo), estreou no cinema em 1951 em “Horas Intermináveis”. Um ano depois esteve ao lado de Gary Cooper no filme “Matar ou Morrer”.

Mas foi somente após “Mogambo”, de 1953, estrelado por Ava Gardner e Clark Gable, que Grace Kelly foi alçada ao primeiro time de Hollywood. Por sua atuação no filme do aclamado diretor John Ford, foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Acostumada a produções num curto espaço de tempo, a atriz trabalhou em cinco filmes em 1954. É desse ano “Amar É Sofrer”, do diretor George Seaton, estrelado por Grace Kelly ao lado de Bing Crosby e William Holden –que lhe entregaria o Oscar de melhor atriz no ano seguinte.

Com Holden, ela teve um romance que durou apenas três semanas. Mas sua beleza e o fato de ser solteira davam margem para a imprensa especular sobre sua vida amorosa. Jornais e revistas de fofocas listam, entre seus casos, Gary Cooper, Clark Gable, Bing Crosby e Oleg Cassini.

“Como não era casada, as outras mulheres me viam como um perigo. Consideravam-me uma rival, e eu sofria com isso. Mas evitava fazer confidência e evocar meus projetos. Não devemos falar do futuro, é a melhor forma de fazê-lo malograr”, defendia-se a atriz.

Grace Kelly e Frank Sinatra durante gravação de “Alta Sociedade”, dirigido por Charles Walters (Foto: Associated Press)

Em 1956, ano em que abandonou a carreira de atriz, filmou “O Cisne” e “Alta Sociedade” e foi convidada a integrar uma comitiva americana que iria ao Festival de Cannes, onde reencontrou Rainier –os dois haviam se conhecido um ano antes, durante as filmagens de “Ladrão de Casaca”.

Com um Oscar na estante e a carreira no auge, a atriz preferiu abandonar Hollywood. Alguns diretores contavam com ela para seus próximos filmes, mas tiveram de optar por outras atrizes.

É o caso de “Gata em Teto de Zinco Quente” e “Assim Caminha a Humanidade” (estrelados por Elizabeth Taylor) e “Teu Nome é Mulher” (por Lauren Bacall).

Sobre a meca do cinema, a atriz tinha uma forte opinião. “Nunca fui feliz em Hollywood, não conheci nenhum lugar no mundo em que as pessoas sofressem mais de depressões nervosas, em que houvesse tantos alcoólicos, neuróticos, infelizes. É preciso ter nervos de aço para se viver ali”.

Em 18 de abril de 1956 terminava seu curto reinado como estrela de Hollywood e começava sua realeza em Mônaco. Agora, casada com o príncipe Rainier 3º, tornava-se Grace, princesa de Mônaco. A menina que queria ser atriz agora era princesa. Um conto de fadas sonhado e realizado.

Casamento do príncipe Rainier 3º com Grace Kelly, na Catedral de São Nicolau, em Mônaco (Foto: 19.abr.1956/AFP)

FAMÍLIA E HOMENAGENS

Da união com o príncipe Rainier 3º teve três filhos, Caroline, Albert e Stephanie.

Em 2008, a exposição “Os Anos de Grace Kelly”, na Prefeitura de Paris, reuniu fotos e objetos pessoais de diferentes fases da vida da princesa de Mônaco.

Três anos depois, foi a vez de o Brasil render-lhe homenagem. A exposição “Os Anos Grace Kelly, Princesa de Mônaco”, na Faap, trouxe mais de 900 objetos, entre cartas, fotografias, vestidos e joias.

O príncipe Albert 2º, que assumiu a regência do Principado de Mônaco em 2005, após a morte de seu pai, compareceu à abertura da exposição.

Príncipe Albert 2º na abertura da exposição “Os Anos Grace Kelly”, na Faap (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)

Produzido e apresentado no Festival de Cannes em 2014, o filme “Grace de Mônaco”, estrelado por Nicole Kidman e Tim Roth (como o príncipe Rainier 3º) foi alvo de críticas durante o evento, além de ser boicotado pelos filhos da princesa de Mônaco.

Para o crítico da Folha Cássio Starling Carlos, o filme não deveria ter sido tão apedrejado assim. “De modo equivalente aos títulos elogiados que a gente descobre que não são tudo aquilo, ‘Grace de Mônaco’ é um filme bem menos ruim do que sua má fama anuncia”, analisou Carlos.

Quando sua morte foi anunciada, Frank Sinatra disse “[Grace era] uma mulher graciosa, maravilhosa, que foi princesa desde o momento em que nasceu”.