Há 80 anos, morria Bessie Smith, a Imperatriz do Blues, que cantou o amor em tempos de injustiça

Por Jair dos Santos Cortecertu

“Não há nada que eu faça, ou que diga, que não critiquem. Mas, de qualquer jeito, vou fazer o que quero e não me importo se todos me desprezarem”, canta Bessie Smith em “T’Aint Nobody’s Bizness If I Do”, de Anna Meyers, um clássico do blues.

Numa trajetória repleta de conflitos, compondo canções que incomodavam brancos e negros bem-sucedidos, a presença de Bessie Smith, cantora considerada a imperatriz do blues que morreu num acidente de automóvel em 26 de setembro de 1937, aos 43 anos, lembrava as origens e lutas que muitos preferiam esquecer.

Nascida nos idos 1894, em data incerta, pois os negros da época não eram cadastrados nos registros civis, na cidade de  Chattanooga (Tennessee, nos EUA), Bessie já cantava aos nove anos de idade, mas sua carreira só começou nos anos 1910, na companhia Rabbit Foot Minstrels, onde virou afilhada musical de outro ícone de blues, a cantora Ma Rainey. “Deixe que seja a sua alma a cantar. Quando estiver cantando, pense na solidão, na fome e na miséria de sua raça.” Assim Ma Rainey aconselhava sua pupila.

A ascensão da carreira de Bessie Smith ocorreu após sua saída da companhia de Ma Rainey, aos 19 anos. Nos EUA da década de 1920, em pleno vigor separatista das Leis Jim Crow e discriminação legalizada nos Black Codes, para parcela dos negros que conseguiram sair da situação precária nas áreas rurais e nos guetos das cidade, rejeitar as expressões de seus iguais era a chave para a aceitação numa sociedade racista. A ideia de uma vida melhor era acompanhada pela aversão ao modo de vida cantado na música negra, em especial, ao blues.

Na contramão desse ritual de aceitação, o temperamento explosivo, a voz áspera, cortante e imensamente bela de Bessie Smith representavam sua impaciência com a hierarquia da desigualdade que colocava o mundo branco no topo da pirâmide. A cantora montou sua própria companhia e iniciou excursões pelo Sul dos EUA.

Em 1923, Bessie gravou “Down Hertted Blues”, seu primeiro disco pela Columbia, gravadora fundada em 1887 que começou a divulgar artistas negros. Segundo o autor do livro “A História Social do Jazz”, o historiador Eric Hobsbawm, Frank Walter, homem forte da Columbia e descobridor de Bessie Smith, decidiu que havia um mercado para a música negra e enviou caçadores de bons cantores de blues ao Sul dos EUA.

Em seu primeiro trabalho fonográfico, Bessie vendeu mais de 1 milhão de discos. Reportagem da Folha da Tarde registrou: “Dow Heartd Blues tornou-se sucesso em Atlanta, Birminghan, Memphis, Nova Orleans, onde os negros faziam fila para comprar os discos de Bessie”.

“Muita gente não tinha dinheiro para comprar carvão, mas comprava os discos de Bessie”, contava Louis Armstrong, artista que tocou com Bessie Smith a música “St. Louis Blues”, clássico de W.C. Handy, no filme de 1925. Em reportagem de 1989, a colunista Rosa Nepomuceno conta que Billie Holiday gastava alguns dólares das faxinas que fazia num bordel para ouvir os discos da Imperatriz do Blues.

Bessie Smith tornou-se uma das cantoras mais ricas de sua época. De 1824 a 1927, no apogeu de sua carreira, a imperatriz do blues chegou a ganhar mais de US$ 2.000 por semana. Entretanto a cantora gastava muito dinheiro com bebidas e roupas caras, além de ajudar amigos e familiares.

“Já levei uma vida de milionária, gastando todo meu dinheiro e não me importando[…] Quando perdi tudo, não tive mais amigo e nem lugar para ir”, canta Bessie Smith na sua versão do blues “I Got What It Takes”.

AMOR EM TEMPOS DE INJUSTIÇA

A vida na pobreza, o enfrentamento da violência nas ruas, o racismo e o machismo estão no blues de Bessie Smith, mulher combativa, independente e bissexual. Não há como separar sua vivência da música que fez parte da pré-história do jazz. Segundo James L. Collier, autor do livro “Jazz – A Autêntica Música Americana”, a estética do blues e, consequentemente, do jazz, só poderia ter surgir dessa tensão nos EUA.

“Somente lá existia um conjunto de fatores sociais, econômicos e intelectuais”, afirma o escritor. A gênese da música negra estava ligada ao novo modo de vida que era forjado num período de transição social marcado pela industrialização, que transferiu famílias do campo para as cidades. A expansão das chamadas zonas de meretrício, a lei seca, que proibia o consumo e a fabricação de bebidas alcoólicas, a expansão do feminismo, a perseguição e discriminação racial também influenciaram a produção cultural nos guetos, onde o blues foi disseminado.

“Bessie Smith registrou inúmeras canções que falam de relacionamentos afetivos, mas seu blues também retrata problemas gerados pelo racismo e injustiça social, como crime, encarceramento, alcoolismo, falta de habitação e o empobrecimento insuperável da comunidade negra”, diz Angela Davis, filósofa, professora e ex-pantera negra, no livro “Blues Legacies and Black Feminism: Gertrude “Ma” Rainey, Bessie Smith, and Billie Holiday”, contrariando os críticos e autores que minimizam o protesto social existente no blues.

Ser mulher negra nos anos 1920 significava enfrentar diversos obstáculos para sair do rodapé da pirâmide social. “As mulheres negras eram exploradas por toda a sociedade, reduzidas aos papéis de criadas ou prostitutas, ou obrigadas a trabalhar fora por terem sido abandonadas. A mulher com companheiro permanente (e muitos deixavam o lar) era, com frequência, brutalmente maltratada”, registra Elaine Feinstein na biografia “Bessie Smith – Imperatriz do Blues”, que foi duramente criticada por focar episódios da vida de Bessie e não abordar a obra da cantora com profundidade.

Com letras autobiográficas em sua maioria, Bessie Smith –casada com o ex-segurança e companheiro nos negócios, Jack Gee, que a espancou diversas vezes– não escondia sua bissexualidade. “Quando você vir duas mulheres andando de mãos dadas, só olhe para elas e tente entender: elas vão para aquelas festas –de luzes baixas– somente aquelas festas em que mulheres podem ir”, canta Bessie, que mantinha uma amante, em “The Boy in the Boat”.

O século 21 repete, com novos personagens, os problemas e conflitos do mundo cantado por Bessie Smith. No Brasil, 66% da violência doméstica ocorre entre mulheres negras. A homofobia e a volta do debate sobre a cura gay ganham os jornais.

Queen Latifah, rapper, produtora e atriz que protagonizou o filme “Bessie”, lançado pela HBO em 2015, falou sobre a importância da música e trajetória da Imperatriz do Blues durante entrevista ao site Deadline: “Seja a bissexualidade, seja o abuso sexual, alcoolismo, depressão, todas estas coisas são relevantes neste momento”.

Apesar dos ouvidos mais jovens não estarem habituados ao aspecto sonoro das décadas de 1920 e 1930, épocas em que não existiam gravações em diferentes canais, o estilo de Bessie Smith influenciou uma geração.

“Se você gosta de Mick Jagger, então você gosta de Bessie Smith. Se você ama Billie Holiday, então você ama Bessie Smith. E Janis Joplin, e assim por diante”, afirma Queen Latifah.


MORTE NA ESTRADA

Na metade dos anos 1930, a carreira de Bessie Smith já não era a mesma. Diversos conflitos com seu ex-marido Jack Gee, que praticamente sequestrou o filho adotado por Bessie, e as mudanças no mercado do blues e do jazz, que atraiam novos artistas, reduziram o espaço da Imperatriz do Blues no circuito de shows. Mesmo assim, em 1936, Bessie fez uma apresentação no clube The Famous Door, em Nova York, e provou que ainda cativava o público.

Cumprindo uma temporada de shows em 1937, na estrada 61, ao sul de Memphis, o carro de Bessie, guiado pelo então companheiro Richard Morgan, bateu contra a traseira de um caminhão. Não resistindo aos ferimentos, Bessie Smith morreu. A morte da Imperatriz do Blues até hoje é cercada de polêmicas e acusações de racismo, pois a cantora não foi atendida com presteza e, segundo relatos do jornalista John Hammond, que foram reproduzidos na peça “A Morte de Bessie Smith”, um hospital somente para brancos recusou atendimento a Bessie. Ao ser socorrida e levada ao hospital que atendia a negros, Bessie Smith morreu no caminho.

CRONOLOGIA*

1894 – Bessie Smith nasce em Chattanooga (Tennessee, nos EUA). A data é a que consta da certidão de seu casamento, ocorrido em 1923
1912 – Bessie ingressa no espetáculo itinerante Moses Tokes
1913 – Bessie começa a viajar pelo Sul, apresentando seu próprio número
1917 – Prensagem dos primeiros discos de jazz
1920 – A 18ª Emenda Constitucional proíbe a venda e consumo de bebidas alcoólicas, bem como sua manufatura
1922 – Bessie conhece Jack Gee
1923 – Bessie grava seu primeiro disco da Columbia. Bessie casa-se com Jack Gee
1929 – Colapso de Wall Street. O cinema falado consolida-se. Ethe Waters estrela um espetáculo no London Paladium
1931 – A gravadora Columbia dispensa Bessie
1935 – Billie Holiday e Ella Fitzgerald iniciam temporada no Apollo
1937 – Bessie morre em acidente de carro

 

*Fonte: “Bessie Smith – Imperatriz do Blues”

 

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