Em entrevista à Folha há 50 anos, Antonio Marcos pregou luta contra o analfabetismo no Brasil

Por Luiz Carlos Ferreira

Cantor, compositor, ator e poeta entre outras minúcias artísticas, Antonio Marcos Pensamento da Silva, conhecido como Antonio Marcos –ou Toninho para os íntimos–, já se mostrava um jovem engajado e um tanto apreensivo com as aspirações sociais de sua geração ao pregar “uma verdadeira guerra contra o analfabetismo” em entrevista concedida à Folha em setembro de 1967, quando, aos 21 anos, iniciava uma  triunfante carreira solo após deixar o quarteto “Os Iguais”, ligado à Jovem Guarda.

Com “Os Iguais”, que contava ainda com os músicos Mário Lúcio de Freitas, Apolo Mori e Marcelo Gastaldi (este último o dublador dos personagens Chaves e Chapolin, dos seriados exibidos no SBT), o cantor gravou um compacto simples com as músicas “A Partida” e “Quero Te Dar Meu Coração”, pela RCA. Em seguida, relutante, aceitou o convite da gravadora para seguir carreira individual. Foi então que lançou as pouco executadas “Perdi Você”, dele com o ex-parceiro de banda Mário Lúcio e “A História de Alguém Que Amou Uma Flor”, composta em parceria com o irmão Mário Marcos, que tinha 14 anos na ocasião.

Antonio Marcos já havia sido calouro na TV Record, em 1962. Dois anos depois se destacou no programa de Estevam Sangirardi, na rádio Bandeirantes, onde mostrou o seu lado ator e humorista, fazendo imitações de cantores famosos da época.

Paulistano do bairro de São Miguel Paulista, na zona leste, onde nasceu em 8 de novembro de 1945 e segundo de oito irmãos, o cantor teve uma infância simples no tradicional bairro de São Paulo, onde se destacou em inúmeros festivais de música.

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O primeiro sucesso de massa veio com “Tenho Um Amor Melhor Que o Seu” (1967), de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que vendeu mais de 300 mil cópias. Ainda no final dos anos 60 emplacou as canções “E Não Vou Deixar Você Tão Só (1968)”, gravada no mesmo ano por Roberto Carlos no disco “O Inimitável” e “Se Eu Pudesse Conversar Com Deus”, gravada em 1969.

Seguindo o gênero romântico, com doses de melancolia, na década seguinte compôs “Menina De Trança” (1970), “Escuta” (1971), “Como Vai Você” (1972), parceria de êxito com o irmão Mario Marcos e também gravada pelo rei Roberto Carlos, que vendeu mais de 700 mil discos, “Oração De Um Homem Triste” (1972), de Alberto Luiz,  “O Homem de Nazareth” (1973), de Cláudio Fontana, “Sonhos De Um Palhaço”, com Sérgio Sá, entre outras pérolas da música popular brasileira. Em 1987 gravou seu último trabalho de inéditas, “O Anjo de Cada Um”, pela Copacabana.

No teatro atuou nas montagens “Arena Conta Zumbi” (1969), com direção de Augusto Boal, e “Hair” (1970), dirigida por Altair Lima, entre outros espetáculos. Na teledramaturgia, estrelou em “Toninho On The Rocks” (1970), na Tupi e em “Cara a Cara” (1979), na TV Bandeirantes. No cinema esteve em “Pais Quadrados… Filhos Avançados” (1970), “Geração em Fuga” (1972),  “Som, Amor e Curtição” (1972) , “Salve-se Quem Puder – Rally da Juventude” (1972) e do musical “Com a Cama na Cabeça” (1973). 

Depois de passar por três infartos e constantes internações ao longo dos anos 80 e início dos 90, por conta do alcoolismo e uso de drogas, Antonio Marcos morreu precocemente aos 46 anos, na noite de 5 de abril de 1992, de insuficiência hepática e cardíaca. Deixou 6 filhos frutos de 4 relacionamentos, entre eles a atriz Paloma Duarte, filha da também atriz Débora Duarte e a cantora e ex-apresentadora mirim Aretha Marcos, nascida de sua união com a cantora Vanusa. Em 2015, ano em que completaria 70 anos, teve uma caixa com quatro CDs lançada pelo selo Discobertas.

 

Leia entrevista com o cantor publicada com destaque na Folha em 25 setembro de 1967, há 50 anos:

ANTONIO MARCOS, O OTIMISMO NA MÚSICA

“Vejo uma grande necessidade de reunir-se a juventude e debater, com música ou sem ela, os problemas dos jovens. O ideal seria a Jovem Guarda discutir, por exemplo, literatura brasileira. É necessário que conheçamos melhor as coisas do nosso país, que, no meu entender, não pode ser considerado subdesenvolvido tal o estágio que já alcançou no conceito das nações, em todos os setores.”

Esse é o pensamento do cantor e compositor Antonio Marcos, há pouco saído do conjunto de música jovem “Os Iguais”, para atuar em “faixa própria”. Ele entende ser necessário à Jovem Guarda atuar mais efetivamente no sentido de incentivar a mocidade e as crianças a procurar ser útil à sua terra. E prega uma verdadeira guerra contra o analfabetismo.

 

UMA LUTA, AGORA

“Roberto Carlos, Ronnie Von, Erasmo Carlos, Wanderlea e outros líderes da juventude, que têm inegável ascendência sobre ela, a par do muito que fizeram em seu benefício (atente-se entre muitas outras coisas, para as campanhas em favor das crianças pobres), não podem deixar passar a grande oportunidade que se lhes apresenta para lutar contra o analfabetismo. Basta, por exemplo, que o ‘rei’ comece a dizer, em seus programas que ‘a criança que não estuda hoje será menos útil ao Brasil amanhã’, para que toda a petizada passe a pedir livros a seus pais. Se ele e seus companheiros afirmarem que ‘a criança que não estuda é barra suja’, não tenhamos dúvida: vão procurar estudar. É a força que representa, hoje, a música jovem e seus líderes. E ela deve ser aproveitada ainda mais com vistas ao futuro do país”.

 

A esta altura, o jovem António Marcos – 21 anos apenas, mas muita inteligência e talento que, em curto prazo, todo mundo vai sentir – se inflama e convoca os “cobras”:

“Atualmente, bem poucos se somam entre os que consideram vazia a música jovem e vazios os que nela intervêm; já se reconhece o seu valor como fator de aglutinação de jovens que, enquanto estão reunidos a cantar e a tocar não estão praticando crimes nem se entorpecendo com maconha ou qualquer outro tóxico. Basta atentar para as estatísticas policiais para verificar quanto caiu o índice da criminalidade juvenil –de que, aliás, Ronnie Von deu conta há pouco, à própria Folha de S.PauloÉ hora, portanto, de os grandes da Jovem Guarda encetarem um movimento de grande amplitude para reduzir o quanto possível o número de analfabetismo no Brasil. E todos os setores de atividades devem incorporar-se à campanha, quer fornecendo livros, cadernos e outros materiais escolares, quer contribuindo para o surgimento de mais e mais escolas. As editoras poderiam imprimir livros e distribuí-los gratuitamente ou vendendo a preço de custo a entidades que se propõem a fazê-los chegar aos necessitados; às autoridades ligadas à educação também. Todos devem entrar com o seu quinhão, visto que os benefícios são comuns a todos.”

 

A “SAFRA” SEGUINTE

Antonio Marcos diz que o jovem, geralmente insatisfeito, quase sempre esconde dos demais seu estado de ânimo. Mas tem necessidade de exteriorizar seus pensamentos. Assim, o faz cantando ou compondo –quer em público, quer a sós . “Mas” –acentua– “isso não é tudo: deve fazê-lo também de outras formas e, reunindo-se a outros, debater com eles problemas comuns, pois assim é mais fácil solucioná-los. Deste debate, estou certo, muita inteligência é muito talento podem ser revelados. E quem mais lucra com isso senão o país – que cada vez mais precisa de técnicos em tudo e, de preferência, jovens?”

“Não se deve esquecer que a população brasileira é constituída de jovens de 18 anos para menos em proporção superior a 50%. Isto é muito importante e grave ao mesmo tempo, uma vez que a geração atual precisa estar preparada para atender ao chamado da nação, que dela não pode prescindir.”

 

O jovem compositor e cantor não esconde a sua preocupação pelo futuro dos menores:

“Não se pode deixar de cuidar dos que, agora, recebem as primeiras instruções na escola (ou devem receber) porque esses, tendo em vista a evolução do mundo, quando tiverem 14 anos de idade já sentirão os sintomas experimentados pelos se 18 anos atualmente.”

 

AINDA NÃO SE DEFINIU

Disse que a música jovem tem atuado positivamente nesse sentido e muito ainda pode fazer:

“Para mim – afirmou – a música jovem no Brasil ainda não se definiu, encontrando-se em fase intermediária. Quando ela estiver atuando em pleno vapor, transmitindo ainda mais as boas iniciativas aos jovens, não tenhamos dúvidas: vai influir decisivamente na cultura e na economia nacional. A música jovem, entre nós, além da alegria transmitida, já possibilitou –e ainda o fará muito mais– emprego a muita gente, maior circulação de riquezas e, segundo vocês mesmos já noticiaram, também divisas ao país. Quem, ciente disso tudo, ainda pode considerar vazia a música jovem?”

 

O COMPOSITOR

Quem é esse jovem que pensa em  termos tão elevados quanto realistas? A “ficha”, pois, é necessária: Antonio Marcos, 21 anos, solteiro, estudou até o científico que completou, é poeta e filho de poetas, irmão de pintor e de quatro pequenos cantores, um dos quais compositor também. Antonio Marcos já fez teatro. Na música, começou ainda criança, cantando em programas de seu bairro; participou da “ginkana” apresentada por Vicente Leporace e recebeu muitas medalhas e troféus.

Em 1964, em testes realizados por Silas Roberg, para a seleção de novos valores para o futuro canal 13, foi o cantor-revelação. Depois, foi para o teatro. Com Pascoal Lourenço, figurou em “Pé Coxinho” e “Samba Contra 00 Dólar”, interpretando sambas.

Mais tarde, ligou-se aos “Iguais” –era o moço alto e triste do conjunto. Com eles ficou até o ano passado, quando aceitou proposta de uma gravadora para atuar sozinho. Relutou muito, mas foi.

Agora, já tem um disco na praça: “Perdi Você”, dele mesmo em parceria com Mario Lúcio, do “Iguais”; e “A História de Alguém Que Amou Uma Flor”, que compôs com seu maninho Mario Marcos (apenas 14 anos), do “M-4”, conjunto que integra com três irmão menores.

Brevemente, o poeta será revelado em livro. É que Antonio Marcos está escrevendo um de poesias, que chama de “Restos”. Esse volume será lançado muito em breve.

J.S. Vanni