Há 20 anos, papa João Paulo 2º fazia sua terceira e derradeira visita oficial ao Brasil

Por Luiz Carlos Ferreira

Às 15h30 da sexta-feira de 2 de outubro de 1997, o representante máximo da igreja católica, o papa João Paulo 2° (1920-2005) pisava pela terceira vez em missão oficial de quatro dias no Brasil. Ele participaria, dentre outras cerimônias, do 2° Encontro Mundial das Famílias, no Aterro do Flamengo, no Rio.

A visita mobilizou mais de 1.200 policiais militares e cerca de 500 soldados do Exército, contingente que o papa considerou exagerado para uma visita pastoral. Após a manifestação do pontífice, o Exército teve que mudar sua tática de segurança.

Na chegada, no aeroporto do Galeão, no Rio, João Paulo 2° foi recebido pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, a primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008). A debilidade física do religioso, que tinha 77 anos na época, não possibilitou o esperado beijo no chão, gesto que o sumo pontífice sempre cumpria em suas viagens internacionais.

Durante o trajeto entre Roma e Rio, o papa concedeu uma coletiva a jornalistas que estavam em seu voo, onde, ao falar das adversidades socioeconômicas do país, destacou o problema dos trabalhadores sem-terra, discurso retomado logo que ele desceu do avião. “Os desequilíbrios sociais, a distribuição desigual e injustiça dos meios econômicos, geradores de conflito na cidade e no campo, constituem um desafio de enormes proporções ao país”, alertou o religioso.

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A violência não deu trégua no primeiro dia do papa no país. Treze horas e meia antes da sua chegada, a PM do Rio matou cinco homens na favela do Rato Molhado, no bairro do Engenho Novo (zona norte), em suposta troca de tiros com a polícia.

A passagem do papamóvel pelas ruas do Rio reuniu mais de 100 mil pessoas, segundo dados da policia. Mendigos e crianças desapareceram das vias públicas durante o percurso do líder católico. De acordo com uma psicóloga que trabalhava com pessoas em situação de rua, policiais teriam os ameaçado.

Ex-meninos de rua que aguardavam o papa em frente à igreja da Candelária prestavam homenagem aos oito moradores de rua executados pela polícia quatro anos antes, quando dormiam nas proximidades da igreja, no episódio que ficou conhecido como “Chacina da Candelária”. Seis deles eram menores e crianças.

Enquanto a visita do pontífice era transmitida ao mundo pela CNN e no Brasil pela maior parte das emissoras locais, a Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, pertencente ao bispo Edir Macedo, exibia uma receita de bolo, como forma de hostilizar a visita do “rival” religioso.

FAMÍLIA, DIVÓRCIO E ABORTO

Embora João Paulo 2° tenha falado menos sobre a instituição família e focado mais nos problemas sociais durante sua estada no Rio, o líder religioso foi duro ao reafirmar as posições contrárias da Igreja Católica à proposta de legalidade do aborto no país.

Em contrapartida, a primeira-dama Ruth Cardoso, que vinha evitando manifestar publicamente sua posição, que era favorável à legalização, disse em discurso que “esse é um problema da sociedade brasileira”. A expressão da primeira-dama foi considerada por parte dos bispos como “oportunista”, “demagógica” e agressiva ao papa.

No segundo dia de sua passagem pelo país, João Paulo 2° participou de uma reunião “a sós” com o presidente Fernando Henrique Cardoso para discutirem os problemas sociais do Brasil. O encontro, no Palácio das Laranjeiras, durou 40 minutos, o dobro do tempo previsto.

Em seu terceiro dia visita, o papa proferiu discurso para 115 mil fiéis em cerimônia no estádio do Maracanã, onde mencionou a família como “patrimônio da humanidade”, e voltou a reafirmar a posição da igreja contra a separação e o divórcio entre casais.

No derradeiro dia de visita, o papa celebrou missa campal para cerca de 2 milhões de pessoas no Aterro do Flamengo (zona sul do Rio). A celebração final contou com a presença do rei Roberto Carlos, que, ao cantar “Jesus Cristo” e notar que o papa tentava acompanhá-lo na canção, se emocionou durante a apresentação.

João Paulo 2° deixou o país às 19h02 do dia 5 de outubro com destino a Roma depois de partir da Base Aérea do Galeão, para nunca mais retornar em solos tupiniquins.

 

OUTRAS VISITAS

Primeiro papa a visitar o Brasil em 30 de junho de 1980, quando percorreu durante 13 dias várias capitais do país – além da cidade santa de Aparecida (SP) -, João Paulo 2°, que tinha 60 anos na ocasião, teve fôlego suficiente para subir o morro do Vidigal (Rio), onde abençoou uma capela e presenteou os moradores com o anel de ouro que usava. Nas cerimônias de que participou, quase sempre era recebido com a música “À benção, João de Deus”, composta por Péricles de Barros.

Ainda na primeira visita, o papa beatificou o padre jesuíta José de Anchieta (1534-1597), um dos fundadores da cidade de São Paulo. Voltou ao país 11 anos depois, em 1991, para participar do encerramento do Congresso Eucarístico Nacional, sediado em Natal (RN). Desta vez ficou no país por dez dias. Na época, foi a Salvador (BA) para visitar a Irmã Dulce (1914-1992), que estava em estado grave na UTI e havia se submetido a uma traqueotomia.

Em 1981, em passagem não oficial no Brasil durante escala de voo no Rio quando seguia para Argentina, deu uma breve coletiva a jornalistas no aeroporto do Galeão.

 

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