Há 10 anos, o cigarro matava Paulo Autran, a grande referência do moderno teatro brasileiro

Por FERNANDO ITOKAZU

“A vida está ruim, e não consigo respirar.”

Essa era a queixa de Paulo Autran em setembro de 2007, quando desejava a morte.

O grande ator brasileiro morreu no dia 12 de outubro de 2007, aos 85 anos, vítima de câncer e enfisema pulmonar.

Autran pediu a mulher, Karin Rodrigues, que divulgasse que o cigarro causou sua morte. “Paulo fumava dois maços por dia e tentava parar, mas não conseguia”, disse a atriz, que se casou com Autran em 1999.

Nem mesmo o implante de quatro pontes de safena e uma mamária, em 1983, o fez abandonar o cigarro.

Carioca, Paulo Paquet Autran era filho de delegado e de uma dona de casa e foi a grande referência do moderno teatro brasileiro.

Antes de iniciar sua longa e premiada carreira de ator, formou-se em direito no Largo São Francisco (SP) e montou um escritório no centro de São Paulo.

Ao dizer ao pai que iria fechar o escritório para ser ator, Paulo Autran ouviu: “Isso é algum rabo-de-saia. Daqui a dois meses você estará de volta”.

Então, em dezembro de 1949, participa da reinauguração do teatro Copacabana, no Rio. E, ao lado de Tônia Carrero, estrela “Um Dormiu Lá em Casa” e ganha o prêmio de revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A primeira láurea de Autran era destinada àqueles que participavam de sua primeira peça ou para os que apareceram no máximo com seis meses de atividade profissional.

“Fiquei completamente idiotizado. Fiquei orgulhosíssimo, vaidosíssimo, achando que um grande gênio havia nascido no Brasil: eu”, afirmou Autran sobre o impacto do prêmio.

Na fase áurea do TBC, atuou em produções como “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1951), de Pirandello.

Novamente ao lado de Tônia Carrero e do diretor italiano Adolfo Celi, criou a Companhia Tônia-Celi-Autran, em 1956, que estreou com “Othelo”.

Paulo Autran com a amiga Tônia Carrero em cena da novela “Sassaricando” (1987) (Foto: Divulgação/TV Globo)

A amizade com Tônia Carrero rendeu uma cusparada em Paulo Francis (1930-1997), de quem também era amigo. Desgostoso com as críticas de Francis contra a atriz, planejou o ataque.  “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer.”

Paulo Autran também contracenou com grandes atrizes, como Cacilda Becker (“Antígone”, 1952), Bibi Ferreira (“My Fair Lady”, 1962), Maria Della Costa (“Depois da Queda”, 1964), Cleyde Yáconis (“Édipo Rei”, 1967) e Eva Wilma (“Pato com Laranja”, 1979).

Com Fernanda Montenegro, Paulo Autran nunca trabalhou no palco, mas fez uma parceria na novela “Guerra dos Sexos” (1983), que rendeu a antológica cena em que os atores jogam torta na cara um do outro.

No cinema, a filmografia de Paulo Autran teve início em “Apassionata” (1952), de Fernando de Barros. O elenco contava também com Tônia Carrero, que já se firmava como uma das principais artistas brasileiras.

Dois anos depois, o ator participou de “Destino em Apuros”, primeiro longo colorido brasileiro, mas o papel mais marcante de Autran no cinema é “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha.

Paulo Autran, como Porfírio Diaz, em “Terra em Transe”, de Glauber Rocha (Foto: Divulgação)

Mas foram os palcos que ocuparam mais espaço em seu extenso currículo.

Em 58 anos de carreira, Paulo Autran completou com “O Avarento” sua 90ª peça.

“Vou largar o teatro quando a natureza me tirar a voz ou o movimento das pernas. Se bem que uma peça em cadeira de rodas eu faria. Vou trabalhar até não poder mais“, disse o ator em sabatina da Folha, em 2005.

No dia 17 de junho de 2007, ele passou mal no camarim do teatro Cultura Artística, em São Paulo, onde estava em cartaz com “O Avarento”, e foi levado ao hospital em uma ambulância.

“Meu infarto foi o meu fim como ator”, escreveu Paulo Autran em carta para Fernanda Montenegro, 11 dias antes de morrer.

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