Há 40 anos, com gol de Basílio, Corinthians gritou ‘É campeão’ e encerrou quase 23 anos de jejum

Por Rodolfo Stipp Martino

“Quinta-feira, 13 de outubro de 1977, às 23h03, milhões de azares e feitiços se acabaram, sepultados pelo último chute de um feroz bombardeio. Basílio deu esse último chute, aos 37 minutos do segundo tempo, o mais importante dos milhões de chutes dados desde 6 de fevereiro de 1955. O Corinthians é o campeão paulista de 1977.”

Assim começava a reportagem da Folha sobre o fim de uma longa espera, de quase 23 anos, da torcida corintiana para festejar um título importante.

A última grande conquista havia sido o Campeonato Paulista de 1954 (decidido só em fevereiro de 1955). Depois disso, o time do Parque São Jorge havia ganhado apenas torneios sem expressões e dividido com outros três times, Santos, Botafogo e Vasco, o título do Torneio Rio-São Paulo de 1966 .

Os corintianos só voltaram a sorrir, de verdade, em 1977.

Para chegar à final do Estadual daquele ano, o Corinthians derrotou o São Paulo por 2 a 1 (o empate classificaria o time tricolor), no dia 2 de outubro. O triunfo fez com que a equipe alvinegra acabasse como primeira colocada em um grupo composto também por Portuguesa e Guarani.

No vestiário corintiano, a alegria era tanta que o presidente do clube do Parque São Jorge na época, Vicente Matheus, pediu ao porteiro que liberasse a entrada de alguns torcedores que queriam celebrar a classificação com os atletas. “Deixa eles entrarem porque hoje é festa”, disse.

A adversária na final da competição era a Ponte Preta, que havia se classificado ao liderar uma chave com Palmeiras, Santos e Botafogo-SP. O time de Campinas era um dos destaques do torneio e contava com grandes jogadores, como o meia Dicá, o atacante Rui Rei e os zagueiros Oscar e Polozzi.

O local da decisão do torneio gerou muita polêmica. A Federação Paulista de Futebol definiu que as partidas fossem disputadas no estádio do Morumbi, apesar de o presidente da Ponte Preta, Lauro Morais Filho, ter proposto levar um dos jogos para Campinas. “Só posso dizer que o torcedor do interior continua sendo o eterno sacrificado”, disse Morais Filho. Segundo a Federação Paulista, o estádio são-paulino foi escolhido por questões de segurança.

Apesar do longo jejum do Corinthians para levantar a taça, o técnico da equipe, Oswaldo Brandão, comentou que seus jogadores estavam serenos. O treinador também lembrou que ele havia prometido um título quando começou a trabalhar no clube. “Naquela época, quando assumi –dia 28 de março–, fiz um pedido a Deus: que me ajudasse a fazer o Corinthians campeão. Acho que toda a torcida merece, e pelo jeito estou sendo atendido”, afirmou Brandão.

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MAIS PERTO DO TÍTULO

O sonho de Brandão e de todo corintiano ficou mais próximo de ser realizado. O time bateu a Ponte por 1 a 0, em um duelo muito equilibrado, no primeiro confronto da final, dia 5 de outubro. Palhinha foi o autor de um curioso gol. Após ser lançado, ele arrancou e chutou forte. O goleiro Carlos fez a defesa, mas no rebote a bola bateu no rosto do corintiano e entrou.  O Corinthians estava perto do delírio.

Entusiasmada, a torcida  escolheu a avenida Paulista como palco das comemorações.  “O jogo termina, a avenida Paulista é invadida por bandeiras corintianas. Começa o Carnaval da vitória. Os passos trançados nos pés acostumados às caminhadas aos estádios agora sambam sob o batuque mal ensaiado de charangas mais preocupadas com o grito ‘campeão!’ do que mesmo com o ritmo que soa dos tamborins e bumbos”, relatou a reportagem da Folha.

Para ser campeão, bastava vencer a segunda partida. Caso empatasse ou  fosse derrotado, uma terceira partida seria marcada. A hora de levantar a taça estava chegando.

Supersticioso, o presidente do clube, Vicente Matheus,  já tinha preparado a sua roupa para usar durante a partida decisiva. Nos últimos dois vitoriosos jogos, o cartola havia vestido um traje com calça amarela e camisa estampada em tons de amarelo, de seda pura italiana. Não seria agora que ele iria trocar. Além disso, ele havia proibido que sua mulher lavasse o conjunto com medo de que a água também levasse os bons fluidos embora, pois roupa suja não se lava em uma hora de decisão.

FESTA PRONTA, MAS…

No dia do jogo, em um domingo, dia 9 de outubro,  a manchete de Esporte da Folha foi: “É hoje, Coríntians” (grafia usada na época pelo jornal). A expectativa era imensa na cidade.

Os torcedores encheram o Morumbi, registrando o recorde de público no estádio em uma partida de futebol. Foram 138.032 pagantes, além de 8.050 menores de idade.

Estava tudo pronto para o grito de campeão ecoar no Morumbi, mas foi a Ponte Preta quem comemorou. O time de Campinas venceu,de virada, por 2 a 1  e estragou os planos corintianos.

“O que vocês querem que eu fale sobre essa derrota? Não posso dizer nada, são coisas do futebol”,  disse o técnico Brandão.

Assim, a decisão do torneio ficou para o dia 13 de outubro, uma quinta-feira. Quem vencesse levava a taça. Se empatasse, o duelo iria para prorrogação. No tempo extra, o Corinthians jogava pelo empate por ter um maior número de vitória na competição.

JOGO FINAL

O público no Morumbi não foi tão grande como ao do jogo anterior (86.677 pagantes), mas os torcedores estavam empolgados. O Corinthians começou a partida melhor, atacando mais o rival. Aos 17 minutos do primeiro tempo, um lance gerou uma grande polêmica.  O atacante ponte-pretano Rui Rei reclamou furioso após uma falta com o juiz Dulcídio Wanderley Boschilia. Recebeu o cartão amarelo, mas continuou a reclamar. Em seguida, levou o vermelho.

Com um jogador a mais em campo, o time do Parque São Jorge pressionou bastante até balançar as redes. Aos 37 min da etapa final, depois de um intenso bate-rebate na área, a bola sobrou para Basílio que chutou certeiro: 1 a 0. O placar não mudou mais, e o Corinthians era, enfim, campeão!

“Se eu tivesse que resumir a história do Corinthians, seria com meu gol. É o grito de libertação. Tudo aquilo que bate, rebate, volta, põe a bola pra dentro, para poder gritar é campeão”, escreveu Basílio para Folha, no centenário do clube, em 2010.

Após o apito final, vários torcedores invadiram o campo, ajoelharam-se no gramado, subiram nas traves. A festa se espalhou pela cidade. Funcionários celebraram junto com patrões, e vários estabelecimentos comerciais nem abriram.

O governador paulista, Paulo Egídio, chegou até a aconselhar o empresariado a abonar as faltas dos torcedores corintianos que deixaram de trabalhar no dia seguinte da vitória.  Até o texto de abertura do caderno de Esporte da Folha sobre o título pedia paciência aos patrões. “Sexta-feira, 14 de outubro de 1977. Que os chefes de seção, professores, departamentos pessoais e fiscais de cartão de ponto fiquem sabendo do ponto facultativo decretado ontem por um chute forte e alto de Basílio, capaz de balançar as redes durante todo o dia de hoje. Mas que não se preocupem: segunda-feira eles aparecerão de novo, outras vozes, outro jeito, nova vida. Dizem que renasceram ontem.”

Em sua história, o Corinthians ganharia muitos outros títulos estaduais, nacionais e internacionais, mas o de 1977 foi especial. O jornalista Juca Kfouri lembrou da importância daquela conquista, em sua coluna na Folha, antes de o time disputar (e vencer) a final da Libertadores em 2012.

“O que estava em jogo naquela decisão contra a Ponte Preta era o fim de um trauma que já durava mais de duas décadas, um sofrimento sem fim, uma verdadeira humilhação, que precisava acabar para parir uma nova era. Que veio. Algo que quem não viveu não é capaz de imaginar”, escreveu Juca Kfouri.

 

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