Há 55 anos, nascia Evander Holyfield, o pugilista ‘bailarino’ que derreteu ‘Iron’ Mike Tyson

Por Rodolfo Stipp Martino

Dançar balé como preparação para uma luta. Ver paraquedista cair perto de ringue.  Mandar um ídolo do boxe brasileiro à lona. Passar por um treinamento especial para destronar Mike Tyson. Ser mordido pelo rival na orelha, perdoá-lo e fazer graça do episódio em comercial de TV. Ver um dos empresários que investiram em suas lutas, Donald Trump, virar presidente dos Estados Unidos.

Essas são algumas passagens marcantes dos 55 anos, completados nesta quinta-feira (19), do ex-pugilista norte-americano Evander “Real Deal” Holyfield, campeão mundial dos pesos-pesados por quatro vezes.

Nascido em Atmore, no Alabama, ele conta, em seu site, que cresceu na pobreza e que ninguém nem notava a os buracos em suas roupas. Mas destaca que hoje é conhecido no mundo inteiro.

Como pugilista amador, conquistou a medalha de bronze na Olimpíada-1984, em Los Angeles. No mesmo ano, disputou a sua primeira luta como profissional. Brilhou na categoria cruzador, conseguindo unificar os três cinturões, da FIB (Federação Internacional de Boxe), da AMB (Associação Mundial de Boxe) e do CMB (Conselho Mundial de Boxe).

PROJETO DE DERRUBAR TYSON

No final de 1988, Holyfield renunciou ao título como cruzador e passou a lutar como peso-pesado. A decisão de subir de categoria, tinha como objetivo se credenciar para tentar vencer o “Iron” Mike Tyson, que parecia ser imbatível até então.

“A façanha de conquistar o título que atualmente pertence a Tyson está programada para ser o triunfo final de um grande plano chamado ‘The Omega Project’. ‘O objetivo é bem claro: Melt Down Iron Mike’ (derreter o Mike de ferro). Para isso, Holyfield está sendo especialmente preparado há cerca de um ano para adquirir forças físicas e ‘psicológicas’”, diz a reportagem  da Folha, de 29 de março de 1989.

MAGUILA NO CAMINHO

Com o seu sucesso também entre os pesos-pesados, crescia expectativa de Holyfield de enfrentar Tyson. Mas, antes, ele teria que encarar o brasileiro, Adilson “Maguila” Rodrigues.  Quem ganhasse poderia duelar com Tyson, conforme indicou o empresário Donald Trump, que organizava lutas em seus hotéis.

Maguila e Holyfield se enfrentaram no dia 15 de julho de 1989. O brasileiro caiu nocauteado a 1min29s do segundo assalto, atingido por uma sequência de três golpes do adversário e ficou estirado na lona do ringue por mais de um minuto, em uma derrota inapelável do brasileiro, conforme descreveu a Folha.

Depois de derrubar o brasileiro, Holyfield ainda venceu Alex Stewart até que um acordo fosse fechado para lutar contra Tyson. O duelo seria realizado no dia 18 de junho de 1990.  Para que Atlantic City fosse palco do duelo, o empresário Donald Trump havia oferecido uma garantia aos empresários dos dois pugilistas de US$ 12 milhões.  Estava tudo acertado. A luta só seria cancelada caso Tyson perdesse o duelo contra James “Buster” Douglas em fevereiro daquele ano.  E o inesperado aconteceu. Tyson foi derrotado.

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BALÉ 

Para virar campeão mundial, a meta passou a ser bater Douglas. A chance surgiu no 25 de outubro de 1990.  Durante os seus treinos, Holyfield até dançou balé. “Além de fisicultor e técnico, ele tem uma professora de balé que auxilia na sua preparação, com trabalho de flexibilidade e alongamento”, informou a Folha, em texto intitulado “Holyfield dança balé para enfrentar Buster Douglas”.

Em 2012, ele falou para o programa “SporTV Repórter” da importância do balé em suas lutas na categoria de peso-pesados. “No meu plano de jogo, a flexibilidade era fundamental. Eu era capaz de evitar socos e não levar muitos. E tudo pela flexibilidade. A minha vitalidade aumentou. Eu sempre fui o cara pequeno lutando contra os grandes”, declarou.

A sua leveza e agilidade foi mostrada na luta que lhe valeu o primeiro título, unificado, entre os pesados. Holyfield nocauteou Douglas no terceiro assalto. Era o início de sua hegemonia.

“BATALHA DE GERAÇÃO”

O próximo desafio foi bater George Foreman, um ícone do boxe, mas que estava na fase final de carreira, com 43 anos. Holyfield, com 28 anos, venceu por pontos o duelo que ficou conhecido como a “batalha de geração”, no Taj Mahal Trump Plaza, em Atlantic City, em 19 de abril de 1991.

A luta tão aguardada entre Tyson e Holyfield chegou a ser marcada para 8 novembro de 1991. Mas uma lesão em Tyson, em outubro, impediu a realização do combate. Depois desse adiamento, Tyson foi condenado por estupro e acabou preso no ano seguinte.

A primeira derrota de Holyfield veio diante do norte-americano Riddick Bowe, por pontos, em 13 de novembro de 1992. Depois da luta, ele até falou em encerrar a carreira. “Me dói todo o corpo. Não posso me imaginar seguindo lutando. Só quero minha cama”, declarou.

PARAQUEDISTA NO RINGUE

Apesar de ameaçar parar de lutar, Holyfiled continuou a sua carreira e recuperou os cinturões, da AMB e da FIB, em uma revanche contra Bowe. A vitória veio por pontos no parque do Caesar’s Palace, em Las Vegas, no dia 6 de novembro de 1993. O curioso desse confronto foi que um paraquedista saltou de um dos edifícios próximos do parque e caiu nas cordas do ringue durante o duelo.

Inconformados com a ação, torcedores começaram a bater no paraquedista. A luta ficou parada por cerca de 20 minutos até que o tumulto fosse contido.

Com a vitória, Holyfield  voltou a reinar. Mas sua alegria não demorou muito acabar. Na luta seguinte, perdeu para o seu compatriota Michael Moorer, em 22 de abril de 1994. O pugilista só voltaria se sagrar campeão, diante de um adversário especial, Mike Tyson.

HOLYFILED x TYSON

Depois de tanta expectativa, Holyfield e Tyson ficaram frente a frente no ringue, no dia 9 de novembro de 1996. Em disputa, em Las Vegas, o título mundial da AMB.  Era a hora de retomar o objetivo, traçado no começo de sua carreira entre os pesados: derreter o “Iron” Mike Tyson –rival que chegava como favorito.

Era a sua chance de fazer história, e ele não decepcionou. Holyfield ganhou a luta por nocaute técnico no 11º assalto, depois de uma série de golpes que fizeram o juiz a encerrar o combate. “Além de conquistar o título dos pesados da Associação Mundial de Boxe, Holyfield mostrou ao mundo a imagem inédita de um Tyson sangrando e sendo surrado pelo adversário”, diz trecho da reportagem da Folha sobre a luta.

Mike Tyson morde a orelha de Evander Holyfield durante luta

MORDIDA

A revanche entre Holyfield e Tyson, no dia 28 de junho de 1997, entrou para a história não pelo boxe praticado pelos pugilistas, mas, sim, por uma mordida.

“No segundo assalto, o supercílio direito de Tyson começou a sangrar. O ex-campeão atribuiu o corte a uma cabeçada de Holyfield, como havia acontecido no primeiro combate entre eles. Irritado, o desafiante mordeu a orelha do campeão no assalto seguinte, arrancando-lhe um pedaço. Holyfield pulou de raiva e de dor. Tyson, fora de controle, chegou a empurrá-lo para as cordas. O árbitro Mills Lane decidiu puni-lo, tirando-lhe dois pontos. Reiniciada a luta, Tyson voltou a morder a orelha de Holyfield, agora a esquerda, e foi desclassificado”, relatou a Folha.

O Mike Tyson de “ferro” estava derretido.

A mordida de 20 kg, duas vezes a de uma pessoa normal, também custou uma multa de US$ 3 milhões (quase R$ 10 milhões) a Tyson.

Uma semana após o episódio, Holyfield disse que perdoava seu adversário e até riu de um novo apelido “Real Meal” (refeição verdadeira). Em 2013, os dois participaram de um engraçado comercial de TV de uma loja de tênis e artigos esportivos. Na propaganda, Tyson vai à casa de Holyfield, pede desculpas e devolve o pedaço de orelha. Na sequência do comercial, eles se abraçam.

4 VEZES CAMPEÃO MUNDIAL

Ao tentar unificar os três principais cinturões mundiais em 1999, Holyfield enfrentou duas vezes o inglês Lennox Lewis. Empatou a primeira luta e perdeu a segunda.  Mas, em 2000, ele fez história. Venceu  John Ruiz, conquistou o título da AMB e registrou a marca histórica de ganhar o título mundial em quatro oportunidades, superando Muhammad Ali, que havia conseguido o cinturão por três vezes.

Na revanche, em 2001, Holyfield perdeu para John Ruiz e não voltou mais a ganhar um cinturão de grande importância no mundo do boxe. Ele, que enfrentou problemas financeiros, se aposentou em 2012, aos 50 anos, com um cartel de 44 vitórias (29 nocautes), dez derrotas e dois empates.

Com os quatro títulos conquistados, ele se vê como o melhor pugilista da história. Em uma entrevista para a Folha, em 2007, quando tinha 44 anos, o lutador foi perguntado sobre qual seria a sua posição entre os maiores peso-pesados que passaram pelos ringues.

“Número um, já devo ser o número um! Sou o único que foi campeão mundial dos pesados [enfático] quatro vezes. Se for por popularidade, [minha colocação] pode ser diferente, cada um tem sua opinião. Mas, realisticamente, sou o único que foi tetracampeão”, disse Holyfield.

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