Há 30 anos, Piquet levou tri da F-1, após chamar rival de ‘piloto frustrado de caça-bombardeiro’

Por Rodolfo Stipp Martino

Quando o Mundial de F-1 de 1987 começou, Nelson Piquet era um nome de destaque no mundo do automobilismo. Já havia conquistado os campeonatos de 1981 e de 1983 e, por pouco, não triunfou em 1986, quando lutou pelo título até a última corrida.

Em busca do tricampeonato, em 1987, seus principais rivais eram: o brasileiro Ayrton Senna, piloto promissor da Lotus e em ascensão na F-1. O francês Alain Prost, da McLaren, campeão dos dois anos anteriores. E o inglês Nigel Mansell, seu companheiro de Williams e com fama de ser muito veloz.

Três nomes que entraram para a história da F-1. Mas, naquele ano, ficaram atrás de Piquet, que se tornou, em 30 de outubro, o primeiro brasileiro a vencer por três vezes o Mundial da principal categoria do automobilismo (feito que seria repetido por Senna, campeão em 1988, 1990 e 1991).

O Mundial de 1987 foi muito disputado. Piquet rivalizava, principalmente, com Mansell. Ele chegou a chamar o inglês de “piloto frustrado de caça-bombardeiro” pelo estilo muito rápido, mas considerado por ele como perigoso. Já Mansell havia falado que brasileiro era um “mau perdedor”.

A rixa entre os dois pilotos vinha de 1986. Os dois pilotos da inglesa Williams disputaram o título, mas quem acabou campeão foi Prost com a vitória no GP da Austrália, no dia 26 de outubro.

Depois da perda do título, Piquet reclamou que havia um clima hostil dentro da Williams e que a escuderia “parecia, às vezes, duas equipes em uma só”. O clima continuou quente na nova temporada. “Nada mudou. Está tudo como era antes”, afirmou o brasileiro em fevereiro de 1987.

Piquet era apontado como o piloto número um da equipe, mas o chefe e fundador da escuderia, Frank Williams, disse que, na prática, Mansell seria tratado com a mesma atenção dos mecânicos, sem preferência. “O que acontece é que temos dois pilotos número 1.”

Papel picado

A primeira prova da temporada foi no autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 12 de abril. Mansell saiu na pole, mas Piquet fez logo a ultrapassagem, ocupando a primeira posição. Felizes, os torcedores vibraram, jogando papel picado para o alto.

Com o vento, os papéis foram parar na pista e entraram no radiador do carro do Piquet que estava na liderança na primeira volta. Com isso, a Williams do brasileiro sofreu problemas de superaquecimento, e ele acabou chegando em segundo lugar na corrida, atrás de Prost.

Depois da prova, ele falou que tinha que ter feito uma parada rápida para tirar os papéis. “Mas eu só parei na oitava volta e o carro ferveu, perdeu muita água e depois não pude usar a potência máxima, porque o motor estava esquentando muito”, disse o piloto, que não gostou que os jornalistas escreveram que a torcida o atrapalhou.

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Acidente em Tamburello

Em preparação para a segunda etapa da temporada, o GP de San Marino, Piquet sofreu um acidente na curva de Tamburello, em Imola, na Itália, (no mesmo local que Senna bateria o carro e morreria em 1994).  O seu carro escapou da pista, e chocou-se contra o muro, de traseira, de maneira violenta.

Ele sofreu um traumatismo craniano, torção no joelho esquerdo, uma contusão pé esquerdo e escoriações no peito e no braço. No hospital, convenceu os médicos a lhe darem alta, mas não obteve autorização para correr, como desejava.

Somente depois do fim do campeonato, ele revelou que, após essa batida, ele ficou um período sem conseguir dormir direito.

Mansell x Senna

A rixa de Mansell não era apenas com Piquet. Na terceira corrida do ano, na Bélgica,  o inglês ficou bastante nervoso depois de abandonar a prova por causa de problemas no seu carro causados em  uma batida com Senna.

Ao encontrar o brasileiro da Lotus nos boxes, Mansell o agarrou pelo pescoço e tentou dar um soco no rosto.  Senna esquivou-se. Mesmo contido pelos mecânicos, o inglês conseguiu acertar um soco no braço do rival e depois saiu esbravejando.

Essa prova foi vencida por Prost. Já Piquet abandou a corrida com problema elétrico  no carro.

Dobradinha brasileira

Nas duas próximas etapas, em Mônaco e nos Estados Unidos, os dois  brasileiros fizeram uma dobradinha na ponta. Em ambas as provas, Senna chegou em primeiro lugar e Piquet, em segundo.

Durante a corrida americana, Piquet até desobedeceu uma ordem da sua equipe Williams. O pedido era que ele parasse nos boxes para trocar pneus. “Quando você está no carro e acha que dá para continuar, deve continuar, e foi o que eu fiz. O carro estava andando bem”, justificou.

Carona para Prost

Depois de chegar cinco vezes em segundo lugar na temporada, Piquet ganhou a primeira prova no ano ao triunfar no GP da Alemanha. Com o resultado, ele passou a assumir a liderança do campeonato.

No circuito de Hockenheim, Piquet contou com a sorte.  Quem liderava a prova era Prost, mas abandonou a corrida a cinco voltas do final devido a um defeito em sua McLaren. Para voltar aos boxes, o francês subiu no carro do brasileiro, que fazia uma volta de comemoração pela vitória, e pegou uma carona.

Dança das cadeiras

Os bastidores da F-1 esquentaram em agosto com o anúncio de que a Lotus contratou Piquet para correr no lugar de Senna em 1988.

O novo contrato dava status especial para ele dentro da Lotus. “Deram-me garantias de que eu teria todo o apoio para ser o primeiro piloto. Era uma oferta que eu não poderia recusar”, afirmou o piloto que já estava às turras com a Williams.

Senna, que não gostou nada desse anúncio pela Lotus, acertou com a McLaren para correr a  temporada seguinte, em decisão divulgada em setembro.

Veado atropelado

Durante os treinos para o GP da Áustria, o piloto sueco Stefan Johansson, da McLaren, sofreu um grande susto. Na tomada de uma curva, em um trecho em subida, onde os pilotos não têm visão total da pista, ele atropelou a 240 km/h um veado, que atravessava a pista. Apesar do sério acidente, o sueco não se machucou.

A organização da corrida afirmou que os animais costumavam ficar em uma floresta, em torno do autódromo, e culpou os fiscais do GP por não terem avisado os pilotos de que um dos veados havia entrado na pista. “Quando o vi na minha frente, fiquei pálido, porque os fiscais não mostraram a bandeira amarela de perigo”, declarou Johansson.

Torcida dividida entre Piquet e Senna

Com Piquet e Senna disputando o título, o Datafolha fez uma pesquisa para saber para quem o torcedor paulistano estava torcendo na F-1. O resultado foi publicado na Folha do dia 21 de setembro: 37%  dos entrevistados disseram torcer por Senna, 35% por Piquet, 1% para Prost, 3% para outros e 24% não souberam responder.

Outra pergunta era quem os torcedores consideravam o melhor piloto da F-1 naquele momento. Piquet apareceu em primeiro lugar, com 41%, e Senna ficou em segundo com 25%. Prost teve 6%, Mansell, 5%, outros, 3%, e 20% não souberam responder.

Polêmica na Williams

Uma nova suspensão, chamada de ativa, vinha sendo testada nos carros da Williams e poderia ser decisiva na reta final do campeonato. Piquet se adaptou bem ao sistema e passou a utilizá-lo normalmente em seu carro. Já Mansell chegou até a usar a nova suspensão, mas não se deu bem e preferia o modelo anterior.

Antes das últimas três provas da temporada (México, Japão e Austrália), a Williams decidiu não deixar mais que nenhum dos seus pilotos utilizassem essa suspensão nova. O motivo alegado era que traria altos com o transporte de peças e de técnicos.

A corrida seguinte, o GP do México, foi vencida por Mansell, com Piquet em segundo lugar. O resultado deixou só esses dois pilotos com chances de título. O brasileiro tinha 73 pontos e o inglês, 61 pontos.

Tricampeão

Para ser campeão no Japão, bastava a Piquet vencer a prova. Mas, o título veio de forma inesperada. Durante os treinos de sexta-feira para o GP,o inglês derrapou e bateu forte contra a parede de pneus. Com o acidente, ele não pôde participar da corrida e ultrapassar o brasileiro na classificação. Piquet era tricampeão.

Segundo a mãe do piloto, Clotilde Piquet, o filho foi dormir logo depois de receber a informação de que Mansell tinha sido proibido de correr pelos médicos, sem comemorações especiais.

No dia seguinte, o brasileiro comentou sobre o acidente. “Ver alguém com o carro no ar se machucando não é agradável para mim”, comentou.

Ele, que conquistou o título aos 35 anos, também afirmou não sentir nenhuma emoção particular. “Se fosse um jovem piloto que estivesse conquistando um título pela primeira vez, estaria nas nuvens, como em 1981, quando ganhei o primeiro campeonato.”

Piquet ainda participou das corridas do Japão e da Austrália, mas não concluiu nenhuma.

A rivalidade daquela época foi revivida em comerciais de TV veiculados em 2013. Na propaganda de um carro, os dois ex-pilotos voltaram à pista e apostaram uma corrida em que se tocaram várias vezes. No final de um dos comerciais, o brasileiro diz que o maior desafio foi ganhar um campeonato em um time inglês que contava também com um piloto inglês.

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