Há 95 anos, nascia José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura e ‘comunista hormonal’

Por EDGAR SILVA

Há 95 anos, nascia na pequena aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo (no sul de Portugal), o escritor José Saramago. Agraciado com o Prêmio Nobel em 1998, é o único autor em língua portuguesa a receber a distinção.

De família pobre, José de Sousa Saramago trabalhou como serralheiro mecânico, editor, tradutor e crítico literário, antes de se dedicar totalmente à literatura. A decisão veio logo após ser demitido do jornal “Diário de Notícias”, no qual era diretor-adjunto.

“Sem emprego uma vez mais e, ponderadas as circunstâncias da situação política que então se vivia, sem a menor possibilidade de o encontrar, tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura: já era hora de saber o que poderia realmente valer como escritor”, resumiu Saramago na autobiografia que consta no site da Fundação que leva seu nome.

Autor de quase 60 livros, entre romances, peças de teatro, ensaios, crônicas e livros de poesia, destacam-se “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984) e “A Jangada de Pedra” (1986). Este último lançado pela Companhia das Letras em abril de 1988 recebeu destaque da Folha, que promoveu palestra com o escritor.

Com a publicação de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, três anos depois, o autor rompeu com o governo português, após o veto da inscrição do livro ao Prêmio Literário Europeu. A igreja portuguesa também se manifestou contrária à obra, que classificou como “alucinação teológica”, mas Saramago não deixou de expressar suas opiniões sobre o que pensava da igreja e de Deus.

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Ateu convicto e “comunista hormonal”, o escritor disse durante sabatina da Folha, em novembro de 2008, que “a Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos…”

Em 2001, oito dias após o ataque ao World Trade Center, o jornal publicou o texto “O fator Deus” no qual o escritor afirmava que, “por causa e em nome de Deus, é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”.

Três anos antes da consagração literária com o Prêmio Nobel, em 1998, Saramago recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra e lançava (simultaneamente no Brasil e em Portugal) “Ensaio Sobre a Cegueira”, primeiro livro de sua trilogia sobre a identidade do indivíduo, que continuou com “Todos Os Nomes” (1998) e fechou com “Ensaio Sobre a Lucidez” (2004).

Sobre o Nobel, antes de ser confirmado ganhador, o autor falou com exclusividade à Folha, em Frankfurt. Ao ser questionado como comemoraria caso ganhasse, ele respondeu que “receberia com muita satisfação”. “Mas o que acontece é que, quando se chega a uma certa idade, essas coisas são recebidas com uma grande serenidade. Acho que é essa a palavra: serenidade.”

Assim como “A Jangada de Pedra”, “Ensaio Sobre a Cegueira” também foi levado ao cinema. O primeiro dirigido pelo francês George Sluizer estreou no Brasil em outubro de 2002 e o segundo pelas mãos de Fernando Meirelles em setembro de 2008 –contando no elenco com a atriz americana Julianne Moore, o ator Danny Glover e a brasileira Alice Braga.

Após o Nobel, Saramago publicou outros seis: “A Caverna” (2000); “O Homem Duplicado” (2002); “As Intermitências da Morte” (2005); “As Pequenas Memórias” (2006); “A Viagem do Elefante” (2008); e “Caim” (2009), seu último romance.

Sua produção pós-prêmio se justificava porque, para ele, “chegará o dia em que se acabarão as ideias, e nada iria ocorrer”.

Postumamente, foram publicados “Claraboia” (concluído em 1953 e publicado em 2011) e “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas” (2014), romance incompleto que estava escrevendo em 2010.

José Saramago morreu em 18 de junho de 2010, de leucemia crônica, em sua casa, na ilha espanhola de Lanzarote, ao lado da mulher, Pilar.

Palestra com o escritor português José Saramago, no teatro Araujo Viana, em Porto Alegre (Foto: Jorge Araujo – 29.jan.2005/Folhapress)

 

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