Há 35 anos, morreu Adoniran Barbosa, autor de ‘Trem das Onze’ e bamba do samba paulista

Por Edmir Lima

No dia 23 de novembro de 1982, morria João Rubinato, vítima de enfisema pulmonar. Mais conhecido como Adoniran Barbosa, tinha 72 anos.

Sua mulher, Matilde Luttif, que o acompanhava no quarto do hospital, disse que Adoniran “morreu como um passarinho”. De acordo com ela, o compositor morreu pobre. Deixou uma casa, a aposentadoria de Cr$ 125 mil (equivalente hoje a R$ 4.052), mais Cr$ 60 mil (cerca de R$ 1.945) por trimestre, referente a direitos autorais.

A última aparição pública de Adoniran foi como destaque da escola de samba Colorados do Brás, no Carnaval de 1982. Um problema burocrático quase o impediu de desfilar como destaque: sua roupa não tinha as cores da escola. E seu último trabalho profissional foi um comercial da Volkswagen, em setembro do mesmo ano.

O próprio compositor afirmou que Adoniran veio do nome de um amigo boêmio –Adoniran Alves– e Barbosa foi uma homenagem ao sambista carioca, Luis Barbosa.

Nascido em Valinhos (SP), no dia 6 de agosto de 1910, criou uma linguagem própria, utilizando em suas composições a forma como os imigrantes italianos, dos bairros do Brás e do Bixiga, costumavam falar.

O compositor Adoniran Barbosa (à dir.) posa para foto com seu pai, Ferdinando Rubinato (centro), e com seu irmão mais velho

Trabalhou como tecelão, faxineiro, ajudante de encanador, pedreiro, mascate e ajudante de carregador de vagões, onde ajudava o pai ferroviário. Também trabalhou como garçom na casa do ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, do governo Epitácio Pessoa. “Eu usava roupas bonitas e comia muito bem.” Nessa época Adoniran tinha 12 anos.

Nunca foi músico. Dizia que não aprendeu a tocar violão por preguiça. Em 1930, venceu um concurso de calouros da rádio Cruzeiro do Sul, com a canção “Filosofia”, de Noel Rosa –em 1935, ele venceu o concurso da Prefeitura de São Paulo para músicas de carnaval com a composição “Dona Boa”, em parceria com J. Emerê e gravada por Raul Torres para a Columbia.

Lá esteve com os radialistas Vicente Leporace, Blota Junior e Sagramor de Scuvero. Adoniran vendia anúncios e cantava.

Em 1934, foi apresentado a Otávio Gabus Mendes, da Record, que simpatizou com Adoniran e o levou aos estúdios da rádio, onde começou a fazer o programa “Zé Conversa”, escrito por Osvaldo Moles e que mais tarde seria seu parceiro.

Recebia 30 mil réis por mês pelo programa, o que era muito pouco. “Eu falava com o Otávio todos os dias. Queria ir para a folha de pagamento, ter um salário. Um dia ele me disse: fale com o Barreto Machado, ele ganha um conto de réis por mês. Pode dividir com você”.

Machado era funcionário público e ator nas horas vagas. Adoniran explicou o caso, e Machado concordou em dividir seu salário.

Depois, Osvaldo Moles passou a produzir outros programas, e Adoniran cantava, fazia teatro e humorismo.

Adoniran Barbosa e Maria Amélia, artistas da Rádio Record

Em seus programas, Moles satirizava o povo paulistano, especialmente os de origem italiana que viviam no Brás, Bixiga e Barra Funda.

Criou para Adoniran o personagem Charutinho, um malandro paulistano que vivia numa maloca.

Entre 1942 e 1945, o compositor participou do programa infantil “Escola Risonha e Franca”, onde interpretava o personagem Barbosinha Mal Educado da Silva. Participou também do programa “O Crime Não Compensa”, onde Adoniran interpretava a voz do bandido e que foi levado ao ar de 1944 a 1954.

Ele não se considerava um compositor tipicamente carnavalesco. Compôs poucos sambas que chamava de “puro sangue”, feitos na medida para o Carnaval. Entre eles, “Malvina” –primeira música dele gravada pelos Demônios da Garoa, composta em 1944 ou 1945.

No final dos anos 1940, gravou “Saudosa Maloca”, com “êxito relativo”, como costumava dizer. A música teve enorme sucesso depois que foi gravada pelo grupo Demônios da Garoa, em 1955. Depois, veio o “Samba do Arnesto”. Nestas duas composições, Adoniran deixou sua marca e começou a fazer uma crônica da cidade.

O cantor e compositor Adoniran Barbosa ao lado dos integrantes do Demônios da Garoa

Mas seu grande sucesso veio em 1964, quando os Demônios da Garoa gravaram “Trem das Onze”, que ele considerava seu verdadeiro “sucesso internacional”.

“Vila Esperança” foi sua grande contribuição para o Carnaval nos anos 1960. Apresentada em 1969, no 1º Festival de Músicas de Carnaval da TV Tupi, classificou-se em segundo lugar. É considerada uma das mais belas músicas carnavalescas de todos os tempos.

Entre suas parcerias ele gostava de citar a que fez com Vinícius de Moraes, um poeta “culto”, que o tinha criticado anteriormente pelos erros de português. Adoniran não deu importância às declarações do poeta, tanto que musicou uma poesia do escritor carioca, transformando-a na valsa “Bom Dia, Tristeza”.

Às críticas que recebia Adoniran rebatia: “Só faço samba pra povo“. “Por isso faço letras com erros de português, porque é assim que o povo fala. Além disso, acho que o samba, assim, fica mais bonito de se cantar.”

“Adoniran Barbosa e Convidados”, de 1980, foi seu último LP. Produzido por Fernando Faro, o cantor e compositor reuniu neste disco Clementina de Jesus, Carlinhos Vergueiro, Elis Regina, Djavan, Gonzaguinha, Clara Nunes, MPB 4, Roberto Ribeiro, Vânia Carvalho e o grupo Nosso Samba.

Uma das faixas deste disco, “Tiro ao Álvaro”, acabou sendo um dos últimos sucessos de Elis Regina, morta em janeiro de 1982.

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Além do rádio e da música, Adoniran também trabalhou no cinema, com a atriz Derci Gonçalves, o diretor Lima Barreto entre outros. Na TV, participou de alguns programas e novelas.

Em 1970, tristonho, queixava-se da cidade. “Até 1960, São Paulo ainda existia. Depois, procurei, mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bixiga, cadê? Mandaram-me achar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado.”

Também protestava contra os rodízios de pizza: “Onde já se viu isso? Rodízio de pizza é várzea”.

“O samba que faço hoje? Tudo bem, Modelo 19, estrangeiro residente, americanizado. Os autores dessa coisa dizem que sou superado. Que não atualizei meu jeito de fazer samba. Pois não mudo e não mudo. Azar dos que não gostam da minha música. Você sabe que até Vinícius de Moraes foi meu crítico? Pois um dia musiquei uma de suas poesias. O samba chama-se ‘Bom Dia, Tristeza’. Ah, mas o que me emocionou mesmo foram os cumprimentos que recebi junto com a Matilde, no dia da estreia do filme ‘Eles Não Usam Black Tie’. A música do filme é minha (“Nóis não usa blequitai”) e, na porta do cinema, aquela juventude a me abraçar e dizer que a trilha era maravilhosa. Ah, rapaz, que felicidade.”

Reportagem exibida no programa “Fantástico”, da TV Globo, em 12 de novembro de 2017, mostrou que os objetos deixados por Adoniran estão sem destino.

Roupas, óculos, discos, gravatas borboleta, chapéus, entre outras relíquias estão encaixotadas na Galeria do Rock, no centro de São Paulo. São mais de mil objetos que foram deixados para a sua filha única, Maria Helena. Entre eles está uma miniatura do Trem das Onze, feita pelo próprio compositor.

A advogada dos herdeiros, Luciana Arruda, afirmou ao “Fantástico” que a filha do sambista entende que o acervo não pode ficar mantido de forma privada nem escondido.

A família procurou a ajuda do poder público. Nos anos 2000, parte dos objetos foi exibida no cofre de um banco, em um teatro e em seguida no MIS (Museu da Imagem e do Som), onde o acervo não ficou todo junto, motivo pelo qual a filha temia perder as peças.

Neste meio-tempo, o acervo foi levado para ser catalogado na USP, transferido para um sítio e depois guardado em um galpão.

No início de novembro deste ano, a administração da Galeria do Rock aceitou guardar as peças do sambista, que morava a três quadras dali.