Há 15 anos, morria Joe Strummer, líder da banda punk The Clash e ‘porta-voz de uma geração’

Por Alberto Nogueira

Parecia um domingo comum. Joe Strummer, 50, acabara de chegar em sua casa em Somerset, no Reino Unido, após ter levado seu cachorro para passear, quando se sentiu mal. Sua mulher até tentou reanimá-lo, mas foi em vão. Naquele 22 de dezembro de 2002, um ataque fulminante do coração silenciara para sempre o ex-vocalista e guitarrista da lendária banda punk The Clash.

Filho de um diplomata britânico, John Graham Mellor –seu nome de batismo– nasceu em Ancara, na Turquia, em 21 de agosto de 1952.

Em Londres, sob o nome artístico Woody Mellor, formou o 101ers, em 1974. Com o grupo, tocou em diversos pubs e casas noturnas até que, em 1976, ao abrir uma apresentação dos Sex Pistols, ficou hipnotizado pelo punk rock.

Naquele mesmo ano, ao lado de Mick Jones (guitarra), Paul Simonon (baixo) e o Terry Chimes (bateria), formou o The Clash e adotou pseudônimo Joe Strummer. A banda se notabilizou pelas letras politizadas e a mistura de outros estilos musicais, como o reggae e o funk, com o punk.

O primeiro single da banda foi “White Riot”, música presente no LP de estreia “The Clash” (1977). O estrondoso sucesso levou a revista “Rolling Stone” a se referir ao álbum como o “disco punk definitivo”.

Nos três anos seguintes, o conjunto britânico lançou “Give ‘Em Enough Rope” (1978), “London Calling” (1979) e “Sandinista!” (1980).

“London Calling” foi considerado pela “Rolling Stone” como o melhor álbum da década de 1980. Aliás, a música que dá nome ao disco mostra bem em seus versos o estilo agressivo da banda, como em “Now war is declared and battle come down” (agora a guerra está declarada e a batalha começa).

Com o quinto disco de estúdio “Combat Rock” (1982), o grupo apresentou ao mundo “Rock the Casbah”, que viria a se tornar mais um clássico, e “Should I Stay or Should I Go”, música que se tornou hit número um no Reino Unido ao aparecer em um comercial de TV anos depois, em 1991.

Apesar de estarem no auge, ao longo da trajetória da banda diversos problemas de relacionamento culminaram em saídas de membros. O baterista Terry Chimes deixou a formação logo no início, dando lugar a Nick Topper Headon, que também saiu de cena anos depois. Mas o final do conjunto ficou eminente quando o guitarrista Mick Jones deixou o grupo, em 1983.

Sem Jones, o Clash ainda lançou em 1985 “Cut the Crap”, mas não chamou a atenção como em lançamentos anteriores e encerrou suas atividades no ano seguinte.

Com isso, Jon Strummer seguiu carreira solo, produziu discos e fez pontas no cinema independente.

Na época de sua morte, em 2002, estava tocando com o conjunto que criou em 1999, os Mescaleros. Cinco meses antes de morrer, deu entrevista ao então jornalista da Folha Lúcio Ribeiro.

“O que eu faço [com os Mescaleros] não é punk […] É diferente quando você é jovem e quer resolver tudo sozinho e, mais velho, quando quer ‘ajudar’ a resolver. A segunda opção é a mais sábia”, disse.

Na ocasião, Strummer também contou que o Clash quase veio para o Brasil. “Tínhamos planejado uma turnê mundial por volta de 1985, 1986. Não deu. A banda acabou antes.”

A morte do lendário roqueiro, que se considerava apenas o “porta-voz de uma geração”, como se autodefiniu a Michael Hutchence (1960-1997), vocalista do INXS, repercutiu no meio artístico.

“Ele foi uma das mais importantes figuras da música britânica moderna, um intérprete poderoso e um compositor do mesmo nível de Bob Dylan”, disse Pat Gilbert, editor da revista britânica “Mojo”, que lamentou a perda: “Sua música tinha compaixão e visão, respaldada pela intenção de mudar o mundo para melhor. Fiquei chocado ao saber de sua morte.”

Bono Vox, vocalista do U2, que na época trabalhava com Strummer em uma homenagem a Nelson Mandela, falou sobre o legado deixado por ele e seu conjunto punk: “O Clash foi a maior banda de rock de todos os tempos. Eles escreveram a cartilha para o U2”.

O Clash entrou para o Hall da Fama do Rock em 2003.

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