Há 20 anos, em série especial, Folha mostrou como Freud analisava a psicanálise e sua própria vida

Por Banco de Dados

Em 3 de janeiro de 1998, a Folha publicou o segundo de uma série de três capítulos do especial “Entrevistas Históricas”, no caderno Mundo.

A personalidade da vez é o médico Sigmund Freud, em entrevista feita por George Sylvester Vierek, em 1930, para ”Glimpses of the Great”.

Você também pode ler “Uma conversa entre Stálin e Wells“, de 1934, resgatada aqui no Blog do Acervo Folha. Amanhã, no último capítulo, o personagem será Adolf Hitler.

DO “EL PAÍS”

Sigmund Freud (1856-1939), o judeu austríaco fundador da psicanálise, estudou medicina em Viena. Continuou a sua formação em Paris, junto a Jean-Marie Charcot, que empregava a hipnose como tratamento para a histeria. Mais adiante, Freud desenvolveria a sua teoria psicanalítica. Sustentava que a neurose era produto da sexualidade infantil.

Em 1890, publicou  “A Interpretação dos Sonhos'”. Em 1902, lhe foi outorgada uma cátedra especial de neuropatologia na Universidade de Viena. A partir de então, se concentrou no estudo do comportamento psicológico e psicopatológico e no papel que desempenha a sexualidade no inconsciente. Em 1938, depois da anexação da Áustria pelos nazistas (que já haviam proibido a psicanálise na Alemanha), emigrou para o Reino Unido. Morreu vítima de um câncer na mandíbula.

“Meus 70 anos me ensinaram a aceitar a vida com alegre humildade.” Quem fala assim é o grande explorador das profundezas da alma. Não existe outro mortal que, como Freud, tenha estado tão próximo de encontrar uma explicação para o insondável mistério do comportamento humano.

Nossa conversa foi em sua residência de verão em Semmering, nos Alpes austríacos. Freud tinha a face contraída, como se estivesse sofrendo. Sua mente permanecia alerta, sua cortesia continuava impecável, mas fiquei alarmado com a pequena dificuldade que demonstrava ao falar. Tinha se submetido a uma intervenção cirúrgica devido a uma doença maligna na mandíbula superior. Desde então, leva implantado um aparelho para facilitar a articulação.

‘”Detesto essa mandíbula mecânica. A luta com esse mecanismo me faz desperdiçar uma energia preciosa. Mas prefiro ter uma mandíbula mecânica do que não ter nenhuma, a sobrevivência à extinção. Talvez, ao tornarem a vida impossível conforme envelhecemos, os deuses estejam mostrando compaixão. Afinal, a morte nos parece menos intolerante do que as múltiplas cargas que suportamos.”

Freud não admite que o destino o trate com especial dureza.

‘”Por que deveria esperar um tratamento especial? A velhice chega para todos. Não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, vivi 70 anos. Sempre tive o suficiente para comer. Desfrutei de muitas coisas: da camaradagem de minha mulher, de meus filhos, do pôr do sol. De vez em quando tenho a satisfação de apertar uma mão amiga. Em algumas ocasiões encontrei seres humanos que quase chegaram a me compreender. Que mais se pode pedir?”

‘”Alcançou a fama”, respondi. “Seu trabalho influiu na literatura de todos os países. O homem vê a si próprio e contempla a vida com outros olhos graças ao senhor. E, por ocasião do seu setuagésimo aniversário, o mundo se uniu para prestar-lhe uma homenagem. Exceto a sua própria universidade.”

“Se a Universidade de Viena me tivesse oferecido seu reconhecimento, somente teria me envergonhado. Não existe razão alguma pela qual devam reconhecimento a mim ou à minha doutrina só porque faço 70 anos. Não dou importância desmedida aos números. A fama nos chega depois da morte e, francamente, o que ocorrer depois da minha não me preocupa. Não desejo a glória póstuma.”

Edição da Folha de S.Paulo de 3 de janeiro de 1998.

“Para o senhor não significa nada que o seu nome sobreviva?”

‘”Nada em absoluto. O futuro dos meus filhos me interessa mais. Espero que a vida deles não seja tão dura. Eu não posso torná-la mais fácil. A guerra (Primeira Guerra Mundial) praticamente acabou com a minha modesta fortuna, a poupança de toda uma vida. Por sorte, minha velhice não é uma carga muito pesada. Meu trabalho ainda me dá prazer.”

Passeávamos pelo íngreme jardim de sua casa. Freud acariciou com ternura um arbusto. “Interessa-me muito mais esta planta do que qualquer coisa que possa ocorrer quando eu esteja morto.”

“Não deseja a imortalidade?”

“Sinceramente, não. Quando alguém percebe o egoísmo por trás de toda conduta humana, não sente o menor desejo de renascer. Me satisfaz saber que a eterna moléstia de viver chega finalmente ao fim. Nossa vida é composta, necessariamente, de uma série de compromissos. É uma luta sem fim entre o ego e o seu entorno. O desejo de prolongar a vida além do natural me parece absurdo. Não há razão para desejarmos viver mais tempo, mas são muitos os motivos para que queiramos fazê-lo com a menor quantidade possível de incômodos. Eu sou razoavelmente feliz porque agradeço a ausência de dor e desfruto dos pequenos prazeres da vida, da presença de meus filhos e das minhas flores.”

“É possível”, prosseguiu Freud, ”que a própria morte não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Do mesmo modo que em nosso interior convivem simultaneamente o ódio e o amor por uma pessoa, a vida combina o desejo de sobrevivência com um ambivalente desejo de aniquilação. Como um elástico que tem a tendência de recuperar a sua forma original, a matéria viva, consciente ou inconscientemente, deseja conseguir de novo a inércia total e absoluta da existência inorgânica. O desejo de morte e o de vida convivem em nosso interior. A morte é o par natural do amor. Juntos, governam o mundo.”

“Na sua origem”, continua Freud, “a psicanálise assumia que o amor era o mais importante. Atualmente, sabemos que a morte é igualmente importante. Biologicamente, cada ser vivo, por mais forte que arda nele o fogo da vida, tende ao nirvana, deseja que a febre chamada vida chegue ao seu fim. Podemos jogar com a ideia de que a morte nos alcança porque a desejamos. Talvez pudéssemos vencer a morte, se não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós. Assim, poderíamos dizer que toda morte é um suicídio encoberto.”

‘”Em que o senhor está trabalhando?”

“Escrevo uma defesa da psicanálise secular. Pretendem tornar ilegal a prática por pessoas que não sejam médicos em exercício. A história, essa velha plagiária, se repete sempre que há uma descoberta. Inicialmente, os doutores se opõem impetuosamente a toda verdade nova. Imediatamente depois, tentam monopolizá-la.”

“O senhor já se analisou?”

“Obviamente. O psicanalista deve analisar-se constantemente. Aumenta nossa capacidade de analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os demais depositam nele os seus pecados.”

“Sempre pensei que a psicanálise necessariamente induzisse naqueles que a praticam a caridade cristã. Não há nada na existência humana que a psicanálise não nos ajude a compreender”, afirmei.

“Compreender tudo não é perdoar tudo. A psicanálise ensina que devemos evitar. Tolerar o mal não é em absoluto um corolário do conhecimento.”

A noção de retidão de Freud é herança de seus antepassados. É uma herança da qual se tem orgulho, como se tem orgulho de sua raça. “Meu idioma é o alemão. Minha cultura e minhas conquistas são alemãs. Intelectualmente, me considerei alemão até perceber que os preconceitos anti-semitas iam aumentando na Alemanha e na Áustria. A partir de então, deixei de considerar-me alemão. Prefiro definir-me como judeu.”

Senti-me decepcionado. Ao meu ver, o espírito de Freud devia voar mais alto, acima de qualquer preconceito racial, e permanecer à margem do rancor pessoal. Não obstante, sua indignação, sua justa cólera, o faziam humanamente muito mais atraente. “Agrada-me descobrir, professor, que o senhor também tem seus complexos.”

“Nossos complexos são a causa de nossa fraqueza; mas também, constantemente, são a nossa fortaleza”, respondeu Freud.

Oscar Nemon esculpe um busto de Sigmund Freud, em 1931. (Foto: Reprodução)

“Algumas vezes me pergunto se não seríamos mais felizes sabendo menos dos processos que dão forma aos nossos pensamentos e emoções”, afirmei. ”A psicanálise despoja a vida de seus encantos ao vincular cada sentimento aos complexos que a originam. Descobrir que alojamos no coração um selvagem, um criminoso, uma besta, não nos faz mais felizes.”

”O que você tem contra as bestas?”, perguntou Freud. “Eu prefiro muito mais a companhia dos animais. São muito mais simples. Não têm uma personalidade dividida, não sofrem a desintegração do ego que surge da tentativa do homem de adaptar-se à regras da civilização. O selvagem, como a besta, é cruel, mas está livre da mesquinharia própria do ser civilizado. A mesquinharia é a maneira que o homem tem para vingar-se da sociedade pelas restrições que esta lhe impõe. É o sentimento vingativo que anima o reformista e o fofoqueiro.

Um selvagem pode nos cortar a cabeça, nos devorar, nos torturar, mas nos poupará das pequenas e contínuas ferroadas que, às vezes, fazem que a vida em uma comunidade civilizada seja quase intolerável. Os hábitos e idiossincrasias mais desagradáveis do homem, sua falsidade, sua covardia, sua falta de respeito, são produtos de uma adaptação incompleta a uma civilização complexa. São o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais satisfatórias resultam as simples e intensas emoções de um cachorro que agita o rabo quando está contente ou late para manifestar irritação!”

“Talvez o senhor seja o responsável, ao menos em parte, pelas complicações da civilização moderna. Antes da invenção da psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade está sob o domínio de uma beligerante hoste de complexos. A psicanálise converteu a vida em um complicado quebra-cabeça.”

“Em absoluto”, respondeu Freud.  “A psicanálise simplifica a vida. Depois de analisarmos, conseguimos uma nova síntese. A psicanálise reorganiza o labirinto de impulsos dispersos e tenta encaixá-los na meada a que pertencem. Ou, para mudar de metáfora, proporciona o fio que permite ao homem sair do labirinto de seu próprio inconsciente.”

“Tenho a impressão de que a estrutura científica que o senhor construiu é altamente elaborada. Seus elementos fixos (a teoria da ‘substituição’, da ‘sexualidade infantil’, a ‘simbologia dos sonhos’ etc.) parecem inamovíveis.”

“Isso é só o começo. Não sou mais que um principiante. Tive êxito no que se refere a desenterrar monumentos submersos no substrato da mente. Mas onde encontrei uns poucos templos, outros podem descobrir um continente.”

“Continua pondo o máximo de ênfase no sexo?”

“Posso ter cometido muitos erros, mas estou completamente seguro de que não me equivoquei ao considerar predominante o instinto sexual. Dado que se trata de um instinto tão poderoso, choca-se com especial frequência com as convenções e salvaguardas da civilização. Como mecanismo de autodefesa, a humanidade tenta negar a sua suprema importância. Analise qualquer emoção humana, não importa o quão distante pareça estar da esfera sexual, e seguramente descobrirá em algum lado o impulso primário, ao qual a própria vida deve a sua perpetuação.”

Anoiteceu. Já era hora de pegar o trem de volta para a cidade.

“Não me faça parecer um pessimista”, pediu-me Freud. “Não desprezo o mundo. Mostrar desprezo ao mundo é só uma forma a mais de adulá-lo para obter reconhecimento. Não, não sou pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores. E não me sinto infeliz. Ao menos, não mais do que os outros.”

Tradução de Claudia Rossi.