Há 20 anos, em último capítulo de especial, Folha mostrou que Hitler queria acabar com marxismo

Por Banco de Dados

Em 4 de janeiro de 1998, a Folha publicou o último de uma série de três capítulos do especial “Entrevistas Históricas”, no caderno Mundo.

A voz é dada ao alemão Adolf Hitler, em entrevista feita por George Sylvester Viereck, para a revista americana “Liberty”, em 9 de julho de 1932.

Os outros entrevistados do especial da Folha foram Josef Stálin e Sigmund Freud.

DO “EL PAÍS”

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria. Era filho de um funcionário da alfândega que mudou o seu sobrenome de Schickgruber para Hitler.

Desde muito jovem, sua ambição era ser artista e arquiteto, mas seus desejos foram frustrados por seu fracasso acadêmico. Viveu vários anos em Viena, onde germinou seu ódio a judeus e sindicalistas.

Mudou para Munique (Alemanha) em 1913, para escapar do serviço militar. No ano seguinte, quando começou a Primeira Guerra Mundial, se alistou no Exército bávaro. Sua amargura com a derrota germânica, pela qual culpava judeus e socialistas, o levou a se infiltrar como espião do Exército em partidos minoritários. Acabou se unindo a um deles. Assumiu o seu controle e o rebatizou de Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores.

Em 1923, participou do “putsch da cervejaria” em Munique, uma tentativa de golpe de Estado. A polícia varreu com metralhadora a marcha dos nazistas. Hitler passou nove meses na prisão, durante os quais ditou a Rudolf Hess o livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), seu credo político autobiográfico.

O alemão Ferdinand Porsche explica a Adolf Hitler, em seu aniversário de 49 anos, em 20 de abril de 1938, que o motor do Fusca fica no “porta-malas” do carro. A imagem está no livro “A Verdadeira História do Fusca”, de Paul Schilperoord (Foto: Divulgação)

Depois de sua libertação, começou a atrair o apoio das massas para o Partido Nazista. Em plena depressão econômica, Hitler recorreu à sua compreensão intuitiva da psicologia das massas, à manipulação anti-semita e à sua forma de entender a propaganda e a “grande mentira” para criar uma coligação de operários, industriais e economistas descontentes.

Concorreu, sem êxito, nas eleições presidenciais de 1932, mas o vitorioso Paul von Hindenburg o nomeou chanceler em janeiro de 1933. Em poucas semanas, tinha organizado a queima do Reichstag (Parlamento), culpando os comunistas. Nas eleições gerais seguintes, os nazistas intimidaram os outros partidos, assegurando a vitória por uma estreita maioria.

A partir daí, Hitler foi assumindo progressivamente o poder absoluto, recorrendo ao seu corpo de segurança, as SS, para eliminar os rivais dos nazistas em 1934.

Colocou em andamento o rearmamento da Alemanha e adotou uma política exterior agressiva e expansionista, anexando a Áustria e invadindo a Tcheco-Eslováquia. Seu ataque contra a Polônia desencadeou a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Se suicidou na companhia de sua amante, Eva Braun, com a qual se casou no último minuto, quando os russos estavam prestes a penetrar em seu abrigo subterrâneo em Berlim.

Como entrevistado, Hitler estava muito distante de ser um personagem ideal, por ser profundamente egocêntrico. A tendência ao monólogo está presente nesta entrevista, realizada por George Sylvester Viereck.

O jornalista o tinha visitado pela primeira vez em 1923, “quando ainda era um desconhecido”. Na época, escreveu: “Se sobreviver, este homem fará história, para o bem ou para o mal”. O definiu como “o mecanismo de compensação do complexo de inferioridade alemão”.

*

“Quando eu governar a Alemanha, terminarei com a vassalagem diante do estrangeiro e com o bolchevismo no nosso país.”

Adolf Hitler apertou a sua xícara como se, em lugar de chá, contivesse a essência vital do bolchevismo. “O bolchevismo é a nossa maior ameaça”, prosseguiu o chefe dos fascistas alemães, enquanto me dirigia um olhar ominoso.  “Acabar com o bolchevismo alemão é devolver o poder a 70 milhões de pessoas. A França não deve o seu poder ao Exército, mas ao bolchevismo que atua em nosso país. O bolchevismo alemão mantém os tratados de Versalhes e Saint Germain. Os tratados de paz e o bolchevismo são duas cabeças do mesmo monstro. Devemos cortar as duas.”

Quando Adolf Hitler anunciou o seu programa, o advento do Terceiro Reich que proclamava parecia estar no final do arco-íris. Eleição após eleição, o poder de Hitler foi crescendo. Ainda incapaz de desalojar Hindenburg da Presidência, Hitler lidera hoje o maior partido da Alemanha. A menos que Hindenburg assuma poderes ditatoriais, ou que uma mudança inesperada mude todas as previsões, o partido de Hitler tomará conta do Reichstag e do governo.

Não entrevistei Hitler no seu quartel-general, em Munique, mas na residência privada de um antigo almirante da Marinha alemã. Discutimos o futuro da Alemanha em meio a algumas xícaras de chá.

Edição da Folha de S.Paulo do dia 4 de janeiro de 1998.

Como resposta, Hitler pôs sua xícara de chá sobre a mesa e usou um tom beligerante. “O socialismo é a ciência que se ocupa do bem comum. Socialismo e comunismo não são a mesma coisa. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas se apropriaram do termo e mudaram o seu significado. Eu arrancarei o socialismo dos socialistas.”

“O socialismo é uma antiga instituição ariana e germânica”, prosseguiu. “Nossos antepassados compartilhavam terras e cultivavam a ideia do bem comum. O marxismo não tem o direito de disfarçar-se de socialismo. Ao contrário do marxismo, o socialismo não rejeita a propriedade privada. Ao contrário do marxismo, não implica renegar a própria personalidade. Ao contrário do marxismo, o socialismo é patriótico. Poderíamos ter escolhido o nome de Partido Liberal, mas decidimos nos chamar Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas; nosso socialismo é nacional. Exigimos que o Estado satisfaça as justas reclamações das classes produtoras com base na solidariedade racial. Para nós, Estado e raça são a mesma coisa.”

Hitler não corresponde ao protótipo do germânico puro. Seu cabelo escuro denuncia a existência de algum ancestral alpino. Durante anos, negou ser fotografado. Era parte de sua estratégia. Queria ser conhecido apenas por seus amigos, de modo que, nos momentos de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser notado. Hoje já não é um desconhecido, nem nas mais remotas aldeias alemãs. Sua aparência contrasta de um modo estranho com a agressividade de suas opiniões.

“Quais são os pilares básicos de sua plataforma?”, perguntei.
“Acreditamos em uma mente sã num corpo são. O corpo político deve estar sadio para que o espírito possa ser saudável. Saúde moral e saúde física são a mesma coisa.”

“Mussolini”, interrompi, “me fez a mesma observação”.

Hitler sorriu de orelha a orelha. “O ambiente dos bairros pobres é o responsável por nove décimos de toda a depravação humana. O álcool, da restante. Nenhum homem saudável pode ser marxista. Os homens sadios reconhecem o valor do indivíduo. Enfrentamos as forças do desastre e da degeneração. A Baviera é um lugar relativamente saudável porque não está totalmente industrializada. Não  obstante, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada a uma industrialização intensiva devido ao seu limitado território. Se queremos salvar a Alemanha, devemos nos assegurar de que nossos agricultores permaneçam fiéis à terra. Para conseguir isso, terão de dispor de espaço para respirar e para trabalhar.”

“De onde sairá esse espaço?”

“Devemos conservar as colônias e nos expandir para o leste. Houve um tempo em que poderíamos ter compartilhado o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora só podemos esticar nossas adormecidas pernas para o leste. O Báltico é essencialmente um lago alemão.”

Charge de Belmonte publicada no dia 22 de setembro de 1939 no jornal Folha da Noite.

“Não seria possível para a Alemanha reconquistar economicamente o mundo sem ampliar o seu território?”, perguntei.

Hitler negou enfaticamente com a cabeça. “O imperialismo econômico, como o militar, depende de poder. Não pode existir um comércio global em grande escala sem um poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio globais. De qualquer forma, a Alemanha não pode crescer comercial ou territorialmente até que recupere o que perdeu e encontre a si própria. Estamos como um homem cuja casa queimou. Antes de embarcar em planos mais ambiciosos, ele necessita de um teto que o proteja. Conseguimos levantar um refúgio de emergência que nos protege da chuva, mas não havíamos contado com o granizo. Sobre nós caíram autênticas tormentas de calamidades. A Alemanha viveu um temporal e catástrofes nacionais, morais e econômicas. Nosso desmoralizado sistema de partidos é um sintoma do desastre. As maiorias parlamentares flutuam com base na moda do momento. O governo parlamentarista abre as portas ao bolchevismo.”

“O senhor não é partidário, como alguns militaristas, de uma aliança com a Rússia soviética?”

Hitler evita uma resposta direta. Já o havia feito antes quando a “Liberty” (nome da revista para a qual trabalhava o entrevistador) pediu que respondesse à afirmação de Trotski de que a sua chegada ao poder na Alemanha suporia uma luta de morte entre as nações europeias, encabeçadas pela Alemanha e pela URSS.

“Provavelmente não convém a Hitler”, havia dito Trotski,  “atacar o bolchevismo na Rússia. É até possível que, havendo o perigo de perder o jogo, considere uma possível aliança com o bolchevismo como a sua última cartada.”

Até o momento, Hitler respondeu com receio às propostas de outros políticos que desejam formar uma frente política unida. Não há dúvida de que agora, diante do constante aumento dos votos do nacional-socialismo, ele estará mais predisposto a fazer acordos.

“As combinações políticas das quais depende uma frente unida”, assinalou Hitler,  “são demasiadamente instáveis”. “Tornam praticamente impossível uma política claramente definida. Em toda parte, observo um permanente vai-e-vem de compromissos e concessões. Nossas forças construtivas enfrentam as tiranias dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e os mecanismos do mundo econômico à vida. Estamos ameaçados por um crescimento constante das cifras e uma progressiva diminuição dos ideais. Os números, como tais, carecem de importância.”

“Mas suponha que a França adote represálias, invadindo o solo alemão”, afirmei.

“Não importa quantos quilômetros quadrados ocupe o inimigo”, respondeu Hitler, extremamente indignado, “se ele despertar o espírito nacional”. “Dez milhões de alemães livres, dispostos a morrer para que o seu país possa viver, são mais poderosos do que 50 milhões cuja vontade está paralisada e cuja consciência racial está infectada por estrangeiros. Queremos uma grande Alemanha que unifique todas as tribos germânicas. Mas nossa salvação pode ter origem no menor dos rincões. Ainda que só dispuséssemos de quatro hectares de terreno, se estivermos empenhados em defendê-los com nossas vidas, esses quatro hectares se converteriam no foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã, a outra é marxista. Temos de fazer com que desperte o espírito alemão. Devemos extirpar o câncer do marxismo. O marxismo e o germanismo são antitéticos. Na minha visão de Estado, não haverá lugar para o estranho, para o que desperdiça, para o usurário, para o especulador.”

As veias da testa de Hitler incharam ameaçadoramente. Sua voz enchia a sala. Houve um ruído na porta. Seus seguidores, que permanecem sempre perto dele como uma guarda pessoal, recordaram que ele devia discursar num comício. Hitler tomou o chá de um só gole e partiu.

Tradução de Claudia Rossi.