Há 30 anos, morria o cartunista e jornalista Henfil

Por EDGAR SILVA

Há 30 anos, morria no Rio de Janeiro a menos de um mês de completar 44 anos, o cartunista, jornalista e escritor Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil.

Assim como seus outros dois irmãos, o sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, e Chico Mário, Henfil era hemofílico (doença hereditária que se manifesta sob a forma de hemorragias espontâneas
ou traumáticas).

Como os pacientes acometidos pela doença, necessitou de transfusão de sangue e a partir dela foi contaminado com o vírus da Aids.

Falando à Folha em setembro de 1987, Betinho disse que Henfil “sempre se recusou a entrar na ideia de que estava doente”. “Ele sempre negou radicalmente a hemofilia, sempre viveu como se não sofresse doença nenhuma, é o jeito dele.”

Henfil se mostrou engajado politicamente desde cedo, traço que muitos atribuem ao irmão mais velho, Betinho, mesmo que ele recusasse a influência.

“Se o fiz, foi de forma indireta, por observação dele. Menino ainda, ele se mostrava uma pessoa extremamente atenta a tudo que acontecia à volta. Sei que me observava e me seguia, mas não exerci papel de educador”, afirmava Betinho.

Começou a desenhar no início dos anos 60, mas pretendia cursar sociologia, como Betinho. Passou no vestibular, cursou menos de um semestre e, por influência de um professor, largou a academia para se dedicar ao desenho.

“Se você se empenhar, se aprimorar, acaba chegando lá. Não pode se acomodar. Não adianta fazer sociologia pensando em outra coisa”, dissera-lhe o professor Antônio Otávio Cintra.

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CHARGES

Em 2008, quando dos 20 anos de morte de Henfil, o chargista do “Agora” Cláudio de Oliveira, que o conheceu quando foi morar em Natal (de 1976 a 1978), explicou como ele via o papel do profissional que assumia o desenho como forma de protesto.

“Henfil refutava o besteirol. Para ele, o cartunista deveria ter um alto senso de responsabilidade ao ocupar um espaço na imprensa. Deveria sempre fazer uma crítica contundente, um humor crítico, e não o mero gracejo com os donos do poder”, relembrou Oliveira.

Impetuoso no traço e na personalidade, Henfil publicava charges com traço rápido e humor ácido, o que o levou a rusgas com jornalistas, artistas e autoridades.

Criou personagens que marcaram sua carreira desde os tempos da revista “Alterosa” (onde sua carreira começou) até suas últimas publicações nos jornais “O Globo” e “O Estado de S. Paulo”.

São criações suas os Fradinhos, Zeferino, Graúna, Bode Orelana, Cabôco Mamadô, Urubu e Ubaldo, O Paranoico –além de Kid Alegrete, para representar João Saldanha.

Publicou-os nos mais diversos periódicos. Na já citada “Alterosa”, nos jornais “Correio da Manhã”, “Jornal dos Sports”, “O Dia” e no suplemento Folhetim da Folha; no “Movimento” e “Em tempo” da imprensa alternativa; na revista “Isto É”; e no famoso “Pasquim”, onde sua fama de chargista se consolidou.

Dos tempos de Estados Unidos (de 1972 a 1975), colaborou brevemente para o “Chicago Tribune”, “Philadelphia Inquirer” e o “Toronto Sun”.

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ENGAJAMENTO

Como todo chargista, Henfil era crítico do sistema, e nos anos de chumbo não poderia ser diferente.

Com o irmão mais velho exilado, o chargista foi um dos expoentes na luta pela anistia. O ponto alto foi a música “O Bêbado e a Equilibrista”, composição de João Bosco e Aldir Blanc, interpretada por Elis Regina.

Henfil ficou fascinado pela canção e telefonou ao irmão. “Liguei para Betinho e disse: agora temos um hino, e quem tem um hino faz uma revolução”.

A música tornou-se um símbolo da luta pela volta dos exilados e ficou conhecida como o “Hino da Anistia”.

Na esteira da luta pelos direitos a serem readquiridos, em 1983 começa o movimento Diretas Já.

Novamente Henfil tem participação importante pelo engajamento político que sempre exerceu e pelo desenho que gravou como símbolo do movimento: Teotônio Vilela de bengala para o alto e exigindo “Diretas Já!”.

OBRAS

Sob os cuidados do filho Ivan Cosenza de Souza está o acervo de Henfil. Estima-se que, em 26 anos de carreira, ele tenha produzido entre 20 mil e 30 mil desenhos, sem contar cartuns animados, textos,  sinopses e roteiros para televisão, cinema e teatro.

De sua lavra constam dez obras em vida e seis póstumas, além de outras três coletivas. Está para ser lançado “Coletâneas do Pasquim” e relançado “Como se faz humor político”.

Tem também o filme “Tanga (Deu no New York Times?)”, de 1987, que não foi bem recebido pela crítica, que  apontou erros de narrativa e falta de elementos cinematográficos.

Falando em cinema, o documentário “Henfil”, de Angela Zoé (diretora de “Meu Nome É Jacque” e produtora executiva de “Betinho, A Esperança Equilibrista”) aguarda lançamento.

Apesar de toda a participação em assuntos de política e na luta pelos direitos suspensos na ditadura (1964-1985), Henfil explicou em depoimento, em 1980, ao jornal “Movimento” porque declinou do convite para integrar-se à luta armada.

“Eu não ia para o escuro da clandestinidade. Quem leva vantagem no escuro é cego. Ninguém leva vantagem sobre ele numa briga de foice no escuro.”