Há 30 anos, Tina Turner mostrava vitalidade e repertório em shows no Pacaembu e Maracanã

Por EDGAR SILVA

Há 30 anos, a cantora Tina Turner fez dois show no estádio do Pacaembu, em São Paulo, com um público total estimado de 102 mil pessoas, segundo a PM –17 mil a menos do que o número de pessoas presentes nas quatro noites do Hollywood Rock daquele mesmo mês de janeiro.

Foi a primeira e única vez que a cantora americana passou pela terra da garoa. E que, diga-se de passagem, na ocasião das apresentações estava mais para terra da pancada de chuva.

A expectativa quanto aos shows não passou batida. O Datafolha realizou uma pesquisa na primeira noite de apresentação (sábado, 9 de janeiro) e constatou que para 96% das pessoas entrevistadas o show foi ótimo ou bom. Ou seja, um sucesso.

A resenha do jornalista Mario Cesar Carvalho na Folha deixou claro o desempenho de Anna Mae Bullock (nome de batismo da cantora), que esbanjou vitalidade e a já reconhecida potente voz no estádio paulistano.

“Foram 18 músicas e 1h40 exata de show. Foi o tempo suficiente para Tina esbanjar sua requintada voz e ferocidade na performance de palco, mostrar uma produção grandiosa sem resvalar no mal gosto e desfilar a competência instrumental dos oito integrantes da banda que a acompanhava.”

A passagem por São Paulo fazia parte da turnê “Break Every Rule” e nas duas noites de shows o público viu três rainhas na voz de uma: a rainha do soul dos anos 60, a do ácido dos anos 70 (“Acid Queen”, papel que interpretou no filme “Tommy”) e a rainha do rock dos anos 80.

As apresentações mesclaram seus dois últimos álbuns à época –o que dava nome a turnê, de 1986, e “Private Dancer”, do ano anterior.

Ao final da apresentação, Tina entoou “Paradise is Here”, canção que dedicou ao Brasil e ao público, que correspondeu cantando junto.

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PERNAS

Do alto de seus 48 anos e de uma carreira consagrada por hits como “Private Dancer” e “I Can’t Stand the Rain”, além das regravações de clássicos como “Let’s Stay Together” (Al Green) e “Proud Mary” (Creedence Clearwater Revival), a cantora tinha além dos prêmios, filmes e sucessos, outro trunfo: a vitalidade.

No caderno Ilustrada, em 11 de janeiro de 1988, a Folha dedicou uma página inteira para Tina Turner com o título “Ela tem pernas, voz e porte de rainha”. O texto do repórter especial Wagner Carelli trouxe um outro olhar para o show, fora da setlist.

“Aquelas pernas encobertas adiantaram uma penosa sensação de fim de espetáculo até notar-se, numa apreciação detida, que não só suas formas como sua qualidade particular de evocar sentimentos transpiravam através das calças. E os joelhos permaneciam à mostra em outra versão do mágico paradoxo: eram apenas discerníveis entre rasgos nos jeans –e, no entanto, escandalosos, apoteóticos.”

RIO DE JANEIRO

Uma semana depois, em show no Maracanã, dia 16, o público não foi o mesmo. Segundo a Polícia Militar, estiveram no show de Tina Turner cerca de 55 mil pessoas –metade do público que compareceu ao show de Sting, no mesmo local, em novembro do ano anterior.

No entanto, o jornal britânico “The Telegraph” discordou dos números oficiais da PM e apontou um público de 184 mil pessoas ao estádio.

Mas, o que ficou mesmo para a crítica e para os fãs foi a lembrança da excelente –e única– passagem da cantora pelo Brasil, naquele mês de janeiro de 1988. E como a Folha destacou “Tina Turner mostrou que para ela não funciona a regra que prega que roqueiros têm que ser jovens na casa dos 20 anos. Tina mostrou que é uma mulher que quebra todas as regras”.

GRAMMY

A cantora de 78 anos foi indicada 25 vezes ao Grammy e levou para casa oito prêmios.

Segundo o site oficial, na edição deste ano ela será homenageada e receberá o Grammy pelo conjunto da obra, ao lado do Queen e de Neil Diamond.