Há 20 anos, Silvio Caldas, o ‘seresteiro do Brasil’, morria aos 89, em São Paulo

Luiz Carlos Ferreira

Às 17h30 do dia 3 de fevereiro de 1998, a música popular brasileira perdia um dos maiores representantes da época de ouro do rádio, o cantor, compositor e seresteiro Silvio Caldas, aos 89 anos, de parada cardiorrespiratória causada por uma anemia profunda.

O cantor estava internado havia cinco dias na Clínica de Repouso Elo, na cidade de Atibaia (SP), onde morava desde os anos 1960.

Três meses antes, Silvio Caldas tinha passado por uma cirurgia em um dos joelhos depois de sofrer uma queda em sua casa. Bom de copo e fumante inveterado, em seus últimos dias de vida, debilitado, já não conseguia se comunicar sem a ajuda de sinais.

“Não estou triste, estou doente. Sinto até caxumba”, disse o cantor em entrevista à Folha dez dias antes de morrer.

Cerca de 1.500 pessoas estiveram em seu velório na Câmara Municipal de Atibaia, município a 65 km ao norte de São Paulo. O sepultamento do cantor foi realizado no cemitério Parque das Flores, na mesma cidade.

Vários artistas  compareceram para o último adeus ao mestre brasileiro das serenatas, entre eles, os cantores Noite Ilustrada, Jair Rodrigues, Wilson Simonal e Francisco Petrônio, que durante a cerimônia improvisaram uma versão para o maior sucesso do cantor, o clássico “Chão de Estrelas” (1937), que compôs com Orestes Barbosa, um de seus parceiros mais constantes.

Silvio Caldas deixou a mulher Miriam, 50, os filhos Roberto, 21, Camila, 20, e o neto Vinícius, de 2 anos. O outro filho do casal, Silvio Caldas Jr., morreu atropelado aos 9 anos, em 1975, em Atibaia.

INFÂNCIA 

O cantor nasceu Silvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas, em 23 de maio de 1908, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, onde foi criado. A veia artística veio de berço. Sua mãe, a baiana Alcina Figueiredo Caldas, era cantora. Antônio Narciso Caldas, o pai, além de compositor, consertava e afinava pianos.

Aos 5 anos, Silvio Caldas já desfilava no carnaval do Clube de Regatas São Cristóvão. Um ano depois, ainda em São Cristóvão, começou a participar dos saraus organizados pelo clube “Casa dos Bigodinhos” até ser convidado a integrar o bloco “Família Ideal”, onde ganhou o apelido de Rouxinol, pela qualidade vocal precoce.    

Com 9 anos, iniciou o curso de mecânica, até que em 1924, com 16 anos, foi para São Paulo, onde ficou durante três anos trabalhando como mecânico automotivo.

PROFISSIONAL DA MÚSICA

Em 1927, ao retornar para o Rio, o já exímio boêmio Silvio Caldas, por intermédio de Antônio Gomes, o Milonguita, um dos maiores nomes do tango na época, passou a se apresentar na cultuada rádio Mayrink Veiga, onde estreou profissionalmente naquele ano. Desde então não parou.

O primeiro registro fonográfico data de 1930, quando gravou “Tracuá me Ferrô” (Sátiro de Melo), um dueto com Breno Ferreira, na RCA Victor. No mesmo ano, Silvio Caldas fez parte da revista ‘Brasil do amor’, espetáculo montado por Ary Barroso, de quem gravou “Faceira” (1932), seu primeiro grande sucesso, além de outras.

Ao longo da carreira, Silvio Caldas acumulou alguns epítetos, entre os quais “Seresteiro da voz  morena”, “Caboclinho querido”, ”Titiu” e “Cantor das despedidas”, pois, nas últimas três décadas em que se apresentou, vivia se despedindo do público, sempre dizendo que iria se aposentar dos palcos.

Em 1934, ano em que foi contratado pela Odeon, conheceu um de seus maiores parceiros na música, o compositor Orestes Barbosa. No mesmo ano vingou com a valsa “Boneca”, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral.

Entre as décadas de 1930 e 1950, reinou absoluto ao lado dos maiores nomes da era do rádio, entre eles o cantor das multidões, Orlando Silva, o rei da voz, Francisco Alves, e a cantora portuguesa Carmem Miranda, com quem em 1937 gravou um dueto em “Quando Eu Penso na Bahia”, de Ary Barroso e Luiz Peixoto.

Silvio Caldas, na quinta da Boa Vista, onde passou parte da infância (Foto: Masao Goto Filho/Folhapress)

Em meio a tantos sucessos, entre marchas, valsas, serestas, sambas e sambas-canção, estão “As pastorinhas” (Noel Rosa e João de Barro), “Morena Boca de Ouro” (Ary Barroso), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Obrigado doutor” (Roberto Martins), “Feitiço da Vila” (Noel Rosa), “Rosa” (Pixinguinha), “Promessa” (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy), “Viva meu Samba” (Billy Blanco), “Rancho Fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo) e “Serenata”, composição dele com Orestes Barbosa.

Na década de 1970, mais contido após a mudança para São Paulo, o cantor gravou em 1973 o disco duplo “Silvio Caldas ao vivo – histórias da MPB”, onde conta a história da música brasileira através de suas obras e de outros compositores em mais de 50 canções.

Em 1989, ao completar 80 anos, ganhou um espetáculo em sua homenagem no Teatro João Caetano, no centro do Rio. Três anos mais tarde, Silvio Caldas foi também homenageado pela ABL (Academia Brasileira de Letras) com a medalha Machado de Assis.

Outro tributo ao cantor veio em 1994, quando o compositor Zé Renato, lançou o álbum “Arranha-céu”, que resgata o repertório do astro seresteiro.

No cinema atuou nos filmes “Favela dos meus amores” (1935), “Carioca maravilhosa” (1936) , “Não adianta chorar”(1945) e outros.

ÚLTIMOS MOMENTOS NO PALCO

Silvio Caldas se apresentou ao vivo até 1997. Naquele ano participou do projeto “Aberto pra balanço”, no Sesc Pompeia, onde também participaram os músicos Noite Ilustrada, Miltinho e Trovadores Urbanos, entre outros artistas.