Há 30 anos, ‘Operação Mosaico’ matou Toninho Turco, o ‘rei do pó’ no Rio

Luiz Carlos Ferreira

Na manhã de 10 de fevereiro de 1988, uma ação conjunta das Polícias Federal, Militar e Civil do Rio, denominada “Operação Mosaico”, que visava a repressão ao tráfico de drogas no Estado do Rio, culminou na prisão de 36 pessoas e duas mortes. Uma delas foi a do bicheiro Antônio José Nicolau, o “Toninho Turno”, 52, apontado pela polícia como o maior traficante de drogas do Rio.

Principal alvo da operação, “Toninho Turco” foi morto na sala de sua mansão, no número 31 da rua Baliza, no bairro de Marechal Hermes (zona norte do Rio). Ele foi atingido por quatro disparos: três no peito e um no pescoço, quando, segundo a polícia, tentava pegar um revólver calibre 45 após ter notado a presença dos agentes dentro de sua casa.

Os policiais que efetuaram os disparos contra o bicheiro entraram na residência através de cordas fixadas em um dos dois helicópteros utilizados pelo aparato policial durante a ação.

Reportagem da Folha sobre a morte do bicheiro “Toninho Turco” na “Operação Mosaico”, no Rio

A “Mosaico” mobilizou 170 agentes da Polícia Federal e 70 militares, além de policiais civis do Rio. O diretor-geral da Polícia Federal e comandante da operação na época, o delegado Romeu Tuma, disse que “Turco” era responsável por pelo menos 60% de toda a cocaína consumida no Rio.

O segundo morto na ação foi o ex-policial civil Osmar Severino Ribeiro, o “Osmar Negão”, tido como o braço direito do bicheiro na organização. 

Entre os detidos estavam dois policiais civis e três militares, todos suspeitos de fazerem parte da quadrilha. “Há muitos outros policiais envolvidos, cujos nomes constam de listas de propinas encontradas entre os 40 quilos de documentos apreendidos na operação”, disse o então superintendente da Polícia Federal no Rio, Fábio Calheiros Wanderley.

O primeiro a ser preso foi o policial reformado Sérgio Moura Soares, segurança pessoal de “Turco” e um dos matadores da organização.

O superintendente da Polícia Federal, Romeu Tuma, durante coletiva na sede da Polícia Federal em São Paulo (Foto: Jorge Araújo – 20.out.1986/Folhapress)

Para que ação tivesse êxito, agentes do grupo tático da Polícia Federal foram treinados dentro do Batalhão de Forças Especiais do Exército. Todos os policiais envolvidos na operação tiveram que ficar concentrados em bases militares e não puderam manter contato com a família até que o plano fosse executado.

UM NOVO GOLPE EM CURSO

Por ser uma operação sigilosa, os policiais convocados só foram informados da missão 2 horas antes de seu início. Muitos pensaram até se tratar de um novo golpe militar para a derrubada do então presidente da República José Sarney, que estava em seu terceiro ano de mandato.

Na casa de “Turco” a polícia encontrou uma lista com cerca de 13 mil nomes de pessoas supostamente ligadas ao crime organizado. As investigações, iniciadas havia cinco meses, produziram, segundo a polícia, fortes indícios de uma possível conexão do bicheiro com traficantes bolivianos e com os carteis de Cali e de Medellín, na Colômbia. Em um dos pontos alvos da operação, no Jardim América (zona norte do Rio), foram encontrados um laboratório de cocaína e 5 kg da droga.

Chamada de reportagem da Folha publicada em 12 de fevereiro de 1988

No dia em que “Toninho Turco” foi sepultado, no cemitério Ricardo de Albuquerque, na zona norte do Rio, seu filho, o então deputado estadual José Nicolau (PS), 27, classificou a ação da polícia de “exagero” diante da imprensa.

O deputado disse que seu pai sofria de problemas na coluna e que nos últimos meses caminhava com muita dificuldade. “Acho difícil que ele possa ter reagido a um tiroteio se estava quase inutilizado e não podia sequer andar direito.” 

Boris Nokolaevich, um dos advogados da família de “Turco”, disse que o delegado Romeu Tuma “fez um grande estardalhaço para agradar ao presidente Sarney, que voltava da Colômbia após várias promessas de se combater o tráfico na América Latina. Tudo isso para matar um velho, indefeso, tomando café”, defendeu o advogado.

”Toninho Turco”, que já havia sido preso duas vezes, respondia a 10 processos criminais por homicídio, lesão corporal, tráfico e porte ilegal de arma, entre outros delitos.

MOSAICO 1

O nome da operação, segundo o seu idealizador, o delegado Romeu Tuma, foi inspirado na dificuldade que a polícia teve em colher provas documentais que levassem à desarticulação da quadrilha de “Turco”.

A Polícia Federal, no entanto, já havia usado o nome da operação meses antes em outra investida contra o tráfico no Morro do Juramento, no Rio. Na ação, um grupo de nove agentes da Polícia Federal, também liderado por Romeu Tuma, matou dois traficantes, além de encontrar drogas, munições e armas.

MOSAICO 2

Parte dos documentos apreendidos durante a primeira operação, ajudou a Polícia Federal a desencadear em julho do mesmo ano uma segunda fase do plano, a “Mosaico 2”, executada em todo o Estado do Rio.

A ação, que tinha como meta o cumprimento de 128 mandados de prisão, resultou em oito mortes e 34 prisões. Durante as investigações, 91 pessoas foram denunciadas por envolvimento com o tráfico.

Entre os detidos na operação estavam os traficantes José Carlos dos Reis Encina, o “Escadinha”, e seu irmão, Paulo César dos Reis Encina, o “Paulo Maluco”, dois dos principais nomes do tráfico de drogas no Rio ao lado de Darcy da Silva Filho, o “Cy do Acari”, que passou a comandar grande parte dos pontos de venda de drogas no Estado após a morte de “Toninho Turco”. Acari foi preso em setembro de 1989, na “Operação Asfixia”, realizada pelo 9º Batalhão da Polícia Militar do Rio.

O traficante José Carlos dos Reis Encina, o “Escadinha”, durante prisão na “Operação Mosaico 2”, no Rio (Américo Vermelho – ago.1988/Folhapress)

Em junho de 2015, o nome “Mosaico” foi usado em outra operação antidrogas, desta vez nos Estados de São Paulo e do Mato Grosso do Sul,  em ação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público Federal em São Paulo. Além da apreensão de cerca de 180 quilos de cocaína e meia tonelada de maconha, oito pessoas foram denunciadas e presas na ação.

CONEXÃO SP: 200 KM DE ‘CARREIRA’ 

Uma semana antes da morte de “Turco”, o superintendente da Polícia Federal em São Paulo, Marcos Antônio Veronezzi, informou que havia evidências de que o bicheiro fosse o provável receptor de 220 kg de pasta de coca apreendida durante uma operação policial na capital paulista.

Na ação foram presos o colombiano e suposto líder da quadrilha, José Antônio Ramos Lopes, o boliviano Edgar Dias Justiniano, o 3° sargento da Polícia Militar, Carlos Humberto Pereira, e outros dois homens. O boliviano Adolfo Pérez, que, segundo a polícia, seria o principal contato de “Turco” em São Paulo, conseguiu escapar do cerco.

Conforme a Folha registrou na época, “a pasta de cocaína apreendida, transformada em pó e esticada em ‘carreiras’, representaria uma distância equivalente ao percurso de ida e volta entre São Paulo e Campinas”, o que daria quase 200 km de droga pronta para o consumo.