Há 60 anos, nascia Cazuza, que mudou o cenário musical dos anos 80

Se estivesse vivo, Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, ator, cantor, compositor, poeta e uma das principais referências do rock e da MPB na década de 80, estaria completando 60 anos nesta quarta (4).

Para comemorar as seis décadas de nascimento do cantor, os irmãos Rogério Flausino (vocalista da banda Jota Quest) e Wilson Sideral farão uma apresentação no Circo Voador (RJ) em sua homenagem. O show contará com as participações de Caetano Veloso e Bebel Gilberto.

Outra homenagem está marcada para o dia 27 de abril, também no Rio, quando Leila Pinheiro e Roberto Menescal, além do baixista Rodrigo Santos (ex-Barão Vermelho), interpretarão composições do cantor em versão bossa nova.

Filho único de Lucinha Araújo e do executivo de gravadora João Araújo (1935-2013), Cazuza começou sua trajetória musical em 1981, quando foi convidado para ser vocalista do grupo de rock Barão Vermelho, então recém-formado por Roberto Frejat (guitarra), Dé (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria).

Antes de Cazuza, o grupo chamou o cantor Leo Jaime, que recusou o convite por considerar o som da banda um pouco pesado para a sua proposta musical. Leo, então, indicou Cazuza, que cursava teatro com o grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, no Circo Voador (Rio). “O Leo nos recomendou um amigo dele, o Cazuza. Marcamos um encontro, tocamos ‘Billy Negão’, bateu aquele arrepio na espinha e sentimos que o grupo estava formado”, disse Guto Goffi, em entrevista à Folha em 1997.

Em 1982, surge o primeiro LP, intitulado “Barão Vermelho”, lançado pela Som Livre, à época dirigida por João Araújo. A princípio, Araújo foi contra a divulgação da banda do filho no selo, mas a insistência do crítico e produtor musical da Som Livre, Ezequiel Neves, que, ao ouvir uma fita demo do quinteto, apaixonou-se pela sonoridade e poesia da banda, fez o executivo mudar de ideia.

“É rock puro, demencial, imperfeito e carnívoro, trompetas selvagens anunciando o começo de um novo mundo”, descreveu Ezequiel em junho daquele ano na extinta revista Somtrês. O disco chamou a atenção de Caetano Veloso, que incluiu no repertório de seu show a música “Todo Amor que Houver Nessa Vida” (Cazuza e Frejat), uma das faixas do LP.

O grupo Barão Vermelho com Cazuza nos vocais, em 1983 (Foto: Davi/Folhapress)

Ainda na Som Livre foram produzidos os discos “Barão Vermelho 2” (1983), com o hit “Pro Dia Nascer Feliz”, gravado também por Ney Matogrosso —que se tornaria companheiro do cantor—, e “Maior Abandonado” (1984), último trabalho de Cazuza com o Barão. É nesse disco que estão os sucessos “Por Que Que a Gente É Assim” e “Bete Balanço”, que virou título de filme lançado no mesmo ano e estrelado pela atriz Débora Bloch, com a participação da banda.

Em 1985, ainda no Barão, Cazuza e o grupo protagonizaram uma das melhores performances da primeira edição do Rock in Rio, onde fizeram duas apresentações memoráveis no evento.

Além do Rock in Rio, o ano de 1985 foi marcado também pela gravação de “Cazuza”, o primeiro disco solo do cantor, com as músicas “Exagerado” e “Só as Mães são Felizes”, entre outras. Foi também neste ano de grandes transformações políticas, com o fim do regime militar, que Cazuza passou a sentir os primeiros sintomas do vírus HIV, que acabara de contrair.

Dois anos depois, com nova gravadora, a Polygram, lançou o álbum “Só Se For a Dois” (1987). No mesmo ano fez sua primeira viagem para Boston (EUA) a fim de tratar da doença.

O cantor e compositor Cazuza, durante show no Palace, em São Paulo (SP), em 1988 (Foto: Masao Goto Filho/Folhapress)

De volta ao Brasil, lançou em 1988 o icônico “Ideologia”, que o levou a consagração definitiva na MPB. Nos anos seguintes, gravou “O Tempo Não Pára – Cazuza ao Vivo” (1988), show antológico realizado em outubro no Canecão (Rio). Em 1989 veio o duplo e derradeiro “Burguesia”.

Após uma batalha de quatro anos contra a Aids, Cazuza decidiu assumir publicamente a doença em entrevista exclusiva para Zeca Camargo, publicada na Folha em 13 de fevereiro de 1989. Na conversa, o “exagerado” afirmou que estava “com a saúde ótima” e que viveria até os 70 anos. Ele falou também sobre o consumo de drogas e bebidas. “Prometi para mim que não iria voltar para esses velhos vícios. Agora estou lutando para ficar vivo”, contou.

O tempo, contudo, foi vertiginoso para Cazuza. O cantor morreu na manhã do dia 7 de julho de 1990, aos 32 anos, em decorrência de complicações causadas pela Aids. Após a morte, sua mãe, Lucinha Araújo, fundou a Sociedade Viva Cazuza, em apoio a crianças portadoras do vírus HIV.