Há 20 anos, morria Chico Science, líder da Nação Zumbi e um dos grandes nomes do Mangue Beat

Por Luiz Carlos Ferreira

Os anos 90 foram de grandes transformações na música pop brasileira. O rock moderno e o discurso social do hip-hop somados à poesia e às várias culturas regionais nordestinas e africanas, entre elas o maracatu, a embolada, o jongo e o pastoril, resultaram no movimento denominado Mangue Beat, uma alquimia sonora e vibrante que conquistou não só o Brasil, mas parte da América e da Europa.

Essa nova tendência musical e ideológica teve como um de seus principais articuladores o pernambucano Francisco de Assis França Caldas Brandão, o Chico Science, conhecido também como o ‘maluco’ do bairro Rio Doce, em Olinda, para onde mudou-se com a família no início da infância. Caçula de quatro irmãos, Chico Science nasceu no Recife, em 13 de março de 1966.

Em Olinda, onde passou a maior parte da vida, morou próximo a uma região de mangue, onde um dos principais meios de sobrevivência era o comércio de caranguejo, animal símbolo do movimento Mangue Beat, divulgado por ele e pelo grupo que o acompanhou até os últimos dias de sua vida, o “Nação Zumbi”, hoje com Jorge Du Peixe à frente dos vocais.

A história de Chico com a música começa na primeira metade dos anos 80, quando vendia caranguejos para frequentar os bailes blacks nos finais de semana, onde gostava de dançar ao som de James Brown e dos ícones norte-americanos do hip-hop, entre eles Grandmaster Flash, Kurtis Blow e Afrika Bambaataa. Nessa época, com Du Peixe, integrou o grupo de dança e grafite Legião Hip Hop, um dos mais conhecidos do gênero em Olinda.

A primeira banda de Chico a mesclar as várias vertentes da música negra com o rock foi a “Orla Orbe”, fundada em 1987, que durou cerca de um ano. O grupo já contava com as participações do guitarrista Lúcio Maia e Du Peixe, que mais tarde passariam a fazer parte da “Nação Zumbi”.

No ano seguinte nasceu o projeto musical “Bom Tom Rádio”, que deu origem à primeira versão de “A Cidade”, música de cunho social gravada de forma precária em um computador MSX, num estúdio caseiro. Era o início da cultura Mangue, que teve como uma de suas principais fontes o escritor e sociólogo Josué de Castro, autor de “Homens e Caranguejos” e “Geografia da Fome”.

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Conhecido na cena pernambucana pelo codinome Chico Vulgo, em 1989 o músico cria a banda Loustal, com proposta similar à da Orla Orbe.

Influenciado também por nomes como Fela Kuti, Jackson do Pandeiro e figuras regionais nordestinas, entre elas o multi-instrumentista Mestre Salustiano e Maluco do Rojão – que simulava som de trompete num tubo de P.V.C -, o jovem Chico é apresentado ao grupo percussionista Lamento Negro, que promovia ações sociais em bairros periféricos do Recife.

Embora Chico já tivesse experimentado elementos tradicionais no Loustal ao incorporar pandeiro e ciranda de roda, foi a união dos integrantes de sua banda com o Lamento Negro que deu origem ao grupo Chico Science & Nação Zumbi.

Ainda em 1989, já como Chico Science, desenvolve afinidade com Fred Zero Quatro, da Mundo Livre S/A, outra banda pernambucana pertencente à cena Mangue. Zero Quatro é o autor do release ‘Caranguejos com cérebros’, que se tornou o manifesto do movimento.

A projeção de Chico Science & Nação Zumbi veio com a participação do grupo no festival recifense Abril Pro Rock, em 1993. Em junho do mesmo ano fizeram o primeiro show em São Paulo, no Aeroanta, em Pinheiros, na zona oeste, quando apareceram na reportagem “Recife mostra som de rua de 5º geração”, publicada na Folha.

O convite para a gravação do primeiro disco não demorou. Em março de 1994, com produção de Liminha, lançaram pela Sony  “Da Lama ao Caos”. A repercussão do álbum foi grandiosa, a ponto de viajarem o mundo.

Dois anos depois, em 1996, a gravadora lançou o segundo trabalho do grupo, “Afrociberdelia”, com a música “Maracatu Atômico”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, gravada em 1974 por Gilberto Gil. O álbum, produzido pelos próprio grupo, estabeleceu de vez a posição de Chico Science como um dos maiores criadores da música brasileira.

A trajetória do músico, contudo, durou pouco. Na noite de 2 de fevereiro de 1997, Chico Science morreu aos 30 anos num acidente de carro na rodovia PE-1, na divisa entre Olinda e Recife, próximo à beira de um mangue, deixando como herdeira musical sua única filha, Louise Taynã, a Lula, hoje com 26 anos. O cantor seguia sozinho em um Fiat Uno para a casa de Du Peixe, em Olinda. Naquele dia, a música brasileira perdia, de forma precoce, mais um de seus talentos.